A Erva do Diabo
Carlos Castaneda


A ERVA DO DIABO
As experincias indgenas com plantas alucingenas reveladas por Dom Juan

3 EDIO

Traduo de LUZIA MACHADO DA COSTA

Ttulo original norte-americano:
THE TEACHINGS OF DON JUAN

Direitos de publicao exclusiva em lngua portuguesa adquiridos pela
DISTRIBUIDORA ReCORD DE SERVIOS DE IMPRENSA S.A.
Av. Erasmo Braga, 255 - 8. andar - Rio de janeiro, que se reserva a propriedade literria desta traduo.

Impresso no Brasil
Para Dom Juan - e para as duas pessoas que partilharam comigo de seu sentido da mgica do tempo.

ndice

INTRODUO - 17
PARTE UM: OS ENSINAMENTOS - 29
PARTE DOIS: UMA ANLISE DE ESTRUTURA - 183
APNDICES - 230

Prefcio

       Este livro  etnografia e alegoria.
        Carlos Castaneda, sob a orientao de Dom Juan, nos conduz por aquele momento no crepsculo, por aquela fresta no universo que h entre o claro e o escuro, 
para um mundo que no  apenas diferente do nosso, mas tambm de uma ordem de realidade inteiramente diferente. A fim de alcana-lo ele teve o auxilio de mescalito, 
yerba del diablo e humito - peiote, datara e cogumelos. Mas esta no  uma simples narrativa de experincias alucingenas, pois as sutis manipulaes de Dom Juan 
conduzem o viajante enquanto suas interpretaes do significado aos fatos que ns, atravs do aprendiz de feiticeiro, temos a oportunidade de experimentar.

        Os antroplogos nos ensinam que o mundo tem definies diversas em diversos lugares. No  s que os povos tenham costumes diferentes: no  s que os povos 
acreditem em deuses diferentes e esperem diferentes destinos aps a morte. , antes, que os mundos de povos diferentes tm formas diferentes. Os prprios pressupostos 
metafsicos variam: o espao no se conforma com a geometria euclidiana, o tempo no constitui um fluxo contnuo de sentido nico, as causas no se conformam com 
a lgica aristotlica, o homem no se diferencia do no-homem nem a vida da morte, como no nosso mundo. Conhecemos alguma coisa da forma desses outros mundos pela 
lgica dos idiomas nativos e pelos mitos e cerimnias, conforme registrados pelos antroplogos. Dom Juan nos mostrou uns vislumbres do mundo de um feiticeiro yaqui, 
e como o vemos sob a influncia de substncias alucingenas, ns os captamos com uma realidade totalmente diversa daquelas outras fontes. Nisso reside a principal 
virtude desta obra.

        Castaneda afirma, com razo, que este mundo, com todas as suas diferenas de percepo, tem sua lgica interna. Ele procurou explicar isso do interior, pode-se 
dizer - de dentro de suai experincias ricas e intensamente pessoais, quando sob a tutela de Dom Juan - em vez de examin-lo nos termos de nossa lgica. O fato de 
ele no conseguir nisso um xito total deve-se a uma limitao que nossa cultura e nossa lngua impem sobre a percepo, e no a sua limitao pessoal; no entanto, 
em seus esforos ele une para ns o mundo de um feiticeiro yaqui com o nosso, o mundo da realidade no ordinria com o mundo da realidade ordinria.

        A importncia primordial de entrar em mundos outros que no os nossos - e, pois, da prpria antropologia - reside no fato de que essa experincia nos leva 
a compreender que o nosso prprio mundo  tambm um complexo cultural. Experimentando outros mundos, vemos o nosso como ele  e assim podemos tambm ver de relance 
como deve de fato ser o mundo verdadeiro, aquele entre o nosso prprio complexo cultural e aqueles outros mundos. Da a alegoria, bem como a etnografia. A sabedoria 
e a poesia de Dom Juan, e a habilidade e poesia de seu escriba, nos do uma viso de ns e da realidade. Como em todas as boas alegorias, o que se v est com o 
espectador, e no precisa de exegese aqui.
        As entrevistas de Carlos Castaneda com Dom Juan tiveram incio quando ele era estudante de antropologia na Universidade da Califrnia, em Los Angeles. Temos 
uma dvida para com ele por sua pacincia, sua coragem e perspiccia ao procurar e enfrentar o desafio de seu duplo aprendizado e por nos relatar os detalhes de 
suas experincias. Nesta obra ele demonstra a habilidade essencial da boa etnografia - a capacidade de ingressar num mundo estranho. Acredito que ele encontrou um 
caminho com o corao.

WALTER GOLDSCHMIDT

EM LOUVOR DESTE LIVRO...

"No posso exprimir direito a emoo que senti ao ler essa narrativa. A toda hora eu largava o manuscrito e me levantava para andar... De repente, tanta coisa at 
ento ambgua passava a ter sentido. Mais que isso: tinha um significado profundamente humano.

"Ora, para alguns antroplogos, o mundo verdadeiro no  aquilo que se vive, mas sim as estruturas ocultas (leis) que governam as aparncias. Assim, eles pretendem 
tornar a antropologia uma cincia do mesmo tipo que as cincias fsicas, pois estas tambm rejeitam as aparncias e insistem em que a realidade no reside nelas, 
e sim nas leis que as governam. "O que me perturba nesse mtodo, quando utilizado exclusivamente,  que conduz a uma rejeio do mundo dos sentidos, at mesmo  
rejeio da experincia primria. Creio que isso se aplica  maior parte dos livros sobre antropologia. Seu isolamento intelectual os separa da realidade essencial 
- a realidade humana. Sua seriedade e vocabulrio corroem a margem viva. Tenho de forar meus poderes de sensibilidade para estabelecer com eles a intimidade humana 
que eles no conseguem estabelecer comigo. Considero a maior parte deles muito afastada da experincia humana original, num setor que seria injusto chamar de particular, 
pois seus autores procuram povo-los oficialmente.
" por isso que A Erva do Diabo foi, para mim, uma experincia emocionante. Relata uma realidade humana, no um equivalente da realidade. O fato de ser lindamente 
escrito  bvio. O fato de ser verdadeiro talvez seja igualmente bvio, mas talvez seja mais verdadeiro para o antroplogo que se tenha ocupado com essas experincias."

Edmund Carpenter
Professor de Antropologia do Carnegie Stevens College
Universidade da Califrnia em Santa Cruz

       Para mi solo recorrer los caminos que tienen corazon, cualquier camino que tenga corazon.
        Por ahi yo recorro, y Ia unica prueba que vale es atravesar todo su largo. Y por ahi yo recorro mirando, mirando, sin alinto. 
       (Para mim s existe percorrer os caminhos que tenham corao, qualquer caminho que tenha corao.
        Ali viajo, e o nico desafio que vale  atravess-lo em toda a ma extenso. E por ali viajo olhando, olhando, arquejante.)

DOM JUAN

        . . . no se pode tentar mais nada do que estabelecer o principio e a direo de uma estrada infinitamente longa. A pretenso de qualquer plenitude sistemtica 
e definitiva seria, pelo mente, uma auto-iluso. Aqui a perfeio s pode ser obtida pelo estudante individual no sentido subjetivo, de que ele comunica tudo quanto 
conseguiu ver.
GEORGE SIMMEL


Agradecimentos

        Desejo exprimir minha profunda gratido ao Professor Clement Meighan, que iniciou e traou o rumo de meu trabalho de campo na antropologia; ao Professor 
Harold Garfinkel, que me deu o modelo e o esprito das indagaes exaustivas; ao Professor Robert Fdgerton, que comentou meu trabalho desde o incio; aos Professores 
William Bright e Pedro Carrasco por suas crticas e encorajamentos; e ao Professor Lawrence Watson por seu valioso auxlio no esclarecimento de minha anlise. Finalmente, 
agradeo  Sra. Grace Stimson e ao Sr. F. A. Guilford a sua colaborao no preparo deste manuscrito.


Introduo

        No vero de 1960, quando eu era estudante de antropologia na Universidade da Califrnia, em Los Angeles, fiz vrias viagens ao Sudoeste a fim de coligir 
informaes sobre as plantas medicinais utilizadas pelos ndios do local. Os fatos que descrevo aqui comearam durante uma de minhas viagens. Eu estava esperando 
numa cidade da fronteira para tomar um nibus, conversando com um amigo que tinha sido meu guia e auxiliar na pesquisa. De repente ele chegou bem junto de mim e 
cochichou que o homem sentado defronte da janela, um velho ndio de cabelos brancos, era grande conhecedor de plantas, especialmente o peiote. Pedi a meu amigo que 
me apresentasse ao homem.
        Meu amigo cumprimentou-o e em seguida apertou a mo dele. Depois de conversarem um pouco, meu amigo me fez sinal para ir para junto deles, mas logo me deixou 
sozinho com o velho, sem nem se dar ao trabalho de nos apresentar. Ele no ficou nada constrangido. Dei o meu nome e ele disse que se chamava Juan e que estava s 
minhas ordens. Usava o tratamento de cortesia em espanhol. Ns nos apertamos as mos, por iniciativa minha, e depois ficamos calados por um momento. No era um silncio 
forado, mas um sossego, natural e descansado, de ambas as partes. Embora sua cara e pescoo escuros fossem enrugados, mostrando sua idade, achei que o corpo dele 
era gil e musculoso.
        Ento, contei-lhe que estava interessado em obter informaes sobre plantas medicinais. Embora, na verdade, eu fosse quase totalmente ignorante a respeito 
do peiote, fiz de conta que sabia muita coisa a respeito, sugerindo at que seria vantajoso para ele conversar comigo. Enquanto eu tagarelava, ele meneava a cabea, 
devagar, mas no dizia nada. Eu evitava os olhos dele e acabamos ficando os dois num silncio total. Por fim, depois do que pareceu muito tempo, Dom Juan levantou-se 
e ficou olhando pela janela. O nibus dele tinha chegado. Despediu-se e saiu da estao.
        Fiquei aborrecido por ter falado tolices com ele, e por ter sido penetrado por aqueles olhos extraordinrios. Quando meu amigo voltou, procurou consolar-me 
por no ter conseguido aprender nada com Dom Juan. Explicou que o velho muitas vezes ficava calado, ou no se metia, mas o efeito perturbador daquele primeiro encontro 
no passou muito facilmente.
        Fiz questo de descobrir onde morava Dom Juan e depois visitei-o vrias vezes. Em todos os encontros eu procurava lev-lo a falar sobre o peiote, porm sem 
sucesso. Mas ns nos tornamos bons amigos e a minha investigao cientfica ficou esquecida, ou pelo menos foi novamente dirigida para canais que ficavam a um mundo 
de distncia de meu propsito original.
        O amigo que me apresentou a Dom Juan explicou depois que o velho no era nativo do Arizona, onde nos encontramos, e sim um ndio yaqui de Sonora, Mxico.
        A princpio eu considerava Dom Juan simplesmente como um homem meio especial, que sabia muita coisa sobre peiote e que falava espanhol muito bem. Mas o pessoal 
com quem ele morava acreditava que ele tinha uma espcie de "sabedoria secreta", que ele era um brujo. A palavra espanhola brujo significa em portugus bruxo, curandeiro, 
feiticeiro. Denota essencialmente uma pessoa que tenha poderes extraordinrios e geralmente malficos.
        Eu j conhecia Dom Juan havia um ano quando ele afinal resolveu confiar em mim. Um dia ele me explicou que possua um certo conhecimento, que aprendera com 
um mestre, um "benfeitor", como ele dizia, que o dirigira numa espcie de aprendizagem. Dom Juan, por sua vez, me escolhera para servir de seu aprendiz, mas ele 
me avisou que eu teria de assumir um compromisso muito srio e de que o treinamento seria longo e rduo.
        Ao descrever seu mestre, Dom Juan usou a palavra diablero. Mais tarde eu soube que diablero  um termo usado somente pelos ndios sonoras. Refere-se a uma 
pessoa perversa que pratica a magia negra e  capaz de se transformar num animal - um pssaro, um co, um coiote ou qualquer outra criatura. Em uma de minhas idas 
a Sonora eu tive uma experincia estranha, que ilustra as reaes dos ndios para com os diableros. Eu estava dirigindo de noite em companhia de dois amigos ndios 
quando vi um animal que parecia ser um co atravesando a estrada. Um de meus companheiros disse que no era um co, e sim um enorme coiote. Diminu a marcha e parei         
margem da estrada para olhar bem para o animal.        Ele ficou focalizado pelas luzes dos faris mais uns segundos e depois correu para o chaparral. No havia 
dvida de que era um coiote, mas era o dobro do tamanho normal. Falando muito agitados, meus amigos concordaram que era animal muito singular e um deles sugeriu 
que podia ser diablero. Resolvi utilizar uma verso dessa experincia para interrogar os ndios daquela regio a respeito de suas crenas na existncia de diableros. 
Conversei com muita gente, contando a histria e fazendo perguntas. As trs conversas que se seguem indicam o que eles sentiam.

        - Voc acha que foi um coiote, Choy? - perguntei a um rapazinho, depois de ele ouvir a histria.
        - Quem sabe? Um co, sem dvida. Grande demais para um coiote.
        - Acha que pode ter sido um diablero?
        - Isso  tudo besteira. No existem essas coisas.
        - Por que diz isso, Choy?
        - As pessoas imaginam coisas. Aposto que, se voc tivesse pegado aquele animal, teria visto que era um cachorro. Caos vez eu tinha negcios em outra cidade 
e me levantei de aceda e arreei um cavalo. Quando eu estava saindo, vi na estrada uma sombra escura, que parecia um animal imenso. Meu cavalo empinou, lanando-me 
fora da sela. Tambm bem assustado, mas, quando fui ver, a sombra era uma mulher caminhando para a cidade.
        - Quer dizer, Choy, que voc no acredita que existem diablero?
       - Diableros! O que  um diablero? Diga-me o que  um diablero!
       - No sei, Choy. Manuel, que estava comigo naquela noite, dissse que o coiote podia se um diablero. Talvez possa que  um diablero?
        - Dizem que um diablero  um brujo que se transforma em qualquer forma que ele queira adotar. Mas todo mundo sabe que isso  besteira pura. Os velhos daqui 
esto cheios de histrias de diableros. Voc no encontra essas coisas entre ns jovens.
        - Que tipo de animal acha que foi, Dona Luz? - perguntei a uma mulher de meia-idade.
        - S Deus pode saber ao certo, mas no creio que tenha sido um coiote. H coisas que parecem ser coiote, mas no so. O coiote estava correndo, ou estava 
comendo?
        - Estava parado de p, a maior parte do tempo, mas quando eu o vi, logo no comeo, acho que estava comendo alguma coisa.
        - Tem certeza de que no estava carregando nada na boca?
        - Talvez estivesse. Mas diga-me, isso faria alguma diferena?
        - Faria, sim. Se estivesse carregando alguma coisa na boca, no era um coiote.
        - O que era, ento?
        - Um homem ou uma mulher.
        - Como  que a senhora chama essas pessoas, Dona Luz?
        No respondeu. Continuei a lhe fazer perguntas, mas sem nada conseguir. Por fim ela disse que no sabia. Perguntei-lhe se essas pessoas eram chamadas diableros 
e ela respondeu que diablero era um dos nomes que lhes eram dados.
        - Conhece algum diablero? - perguntei
        - Conheci uma mulher - respondeu ela. - Foi morta. Aconteceu quando eu era menininha. Dizem que a mulher se transformava numa cadela. E uma vez um cachorro 
entrou na casa de um homem branco, para roubar queijo. O homem matou o co com uma espingarda, e no mesmo momento em que o cachorro morreu na casa do branco a mulher 
morria na sua cabana. Os parentes dela se reuniram e foram ao branco, pedir indenizao. O homem pagou um bom dinheiro por t-la matado.
        - Como  que eles puderam pedir indenizao se ele s matou um cachorro?
        - Disseram que o branco sabia que no era um co, pois havia outras pessoas com ele e todos viram que o co se punha de p nas patas traseiras como um homem, 
para alcanar o queijo, que estava numa bandeja pendurada do teto. Os homens estavam esperando o ladro porque o queijo do branco roubado todas as noites. E assim 
o homem matou o ladro sabendo que no era um cachorro.
        - E hoje existem diableros, Dona Luz?
        Essas coisas so muito misteriosas. Dizem que no h mais diableros, mas eu duvido, pois um membro da famlia de um diablero tem de aprender o que o diablero 
sabe. Os diableros tm suas prprias leis, e uma delas  que o diablero tece de ensinar seus segredos a um membro de sua famlia.

        - O que acha que era o animal, Genaro? - perguntei s um homem muito velho.
        - Um cachorro de um dos ranchos da regio. Que mais havia da ser?
        - Podia ser um diablero!
        - Um diablero? Voc est maluco? No existem diableros.
       - Quer dizer que no existem hoje, ou que nunca existiram?
        - Antigamente existiam, sim. Todo mundo sabe disso. Mas as pessoas tinham muito medo deles e os mataram a todos.
        - Quem os matou, Genaro?
        - Todos os membros da tribo. O ltimo diablero de que tive notcia foi S . . . Ele matou dzias, talvez at centenas de pessoas com sua feitiaria. No podamos 
suportar aquilo e o pessoal se juntou e o pegou de surpresa uma noite e o queimou.
        - H quanto tempo foi isso, Genaro?
        - Em 1942.
        - Voc o viu com seus olhos?
        - No, mas as pessoas ainda falam disso. Dizem que no restaram cinzas, embora a fogueira fosse feita de madeira troe. No fim sobrou apenas uma grande poa 
de gordura.

       Embora Dom Juan classificasse seu benfeitor como um diablero nunca mencionou o local onde adquirira seu conhecimento, nem identificou seu mestre. Na verdade, 
Dom Juan revelou muito pouco acerca de sua vida pessoal. Ele s contou que tinha nascido no Sudoeste, em 1891; que tinha passado quase toda a vida no Mxico; que 
em 1900 sua famlia fora exilada pelo governo mexicano para o Mxico Central, junto com milhares de outros ndios sonoras, e que viveu no Mxico Central e do Sul 
at 1940. Assim, como Dom Juan viajou muito, sua sabedoria pode ter sido o resultado de muitas influncias. E embora ele se considerasse um ndio de Sonora, eu no 
tinha certeza se devia situar o contexto de seus conhecimentos inteiramente na cultura dos ndios sonoras. Mas no pretendo aqui determinar seu meio cultural preciso.
        Comecei meu aprendizado com Dom Juan em junho de 1961. Antes disso eu o vira em vrias ocasies, mas sempre como observador antropolgico. Durante essas 
primeiras conversas, eu tomava notas de maneira disfarada. Depois, de memria, eu reconstrua a conversa toda. Quando comecei a participar como aprendiz, porm, 
esse mtodo de tomar notas tornou-se muito difcil, pois nossa conversa versava sobre muitos assuntos diferentes. Ento, Dom Juan - sob fortes protestos - permitiu 
que eu registrasse abertamente tudo o que fosse dito. Eu tambm queria tirar fotografias e gravar coisas, mas ele no o permitiu.
        Fiz meu aprendizado primeiro no Arizona e depois em Sonora, pois Dom Juan se mudou para o Mxico, durante meu treinamento. O mtodo que eu usava era estar 
com ele por alguns dias, de vez em quando. Minhas visitas se tornaram mais freqentes e duraram mais tempo nos meses do vero de 1961, 1962, 1963 e 1964. Em retrospecto, 
acho que esse mtodo de aprendizado impediu que o treinamento tivesse xito, pois retardou o advento do comprometimento total que eu precisava para me tornar um 
feiticeiro. No entanto, o mtodo foi benfico de meu ponto de vista pessoal, pois me permitiu um certo alheamento, o que por sua vez provocava um senso de exame 
crtico que seria impossvel de conseguir se eu tivesse participado continuamente, sem interrupo. Em setembro de 1965, voluntariamente parei com o aprendizado.

        Vrios meses depois de me retirar, pensei pela primeira vez na possibilidade de organizar minhas anotaes de campo de maneira sistemtica. Como os dados 
que eu coligira eram muito volumosos e incluam muitas informaes variadas, comecei tentando fazer um sistema de classificao. Dividi os dados em setores de conceitos 
e mtodos relacionados e arrumei os setores hierarquicamente de acordo com sua importncia subjetiva - isto , em termos do impacto que cada qual teve sobre mim. 
Desse modo cheguei  seguinte classificao: alucingenas; processos e frmulas utilizados na feitiaria; aquisio e manipulao de objetos de poder; de plantas 
medicinais; canes e lendas.
       Refletindo sobre os fenmenos que eu experimentara, verifiquei que minha tentativa de classificao no produzira mais do que um inventrio de categorias; 
e qualquer tentativa de refinar meu plano, portanto, s redundaria num inventrio mais complexo. No era isso que eu queria. Nos meses que se seguiram  minha retirada 
do aprendizado, precisei compreender o que experimentara, e o que experimentara era o ensinamento de um sistema coerente de crenas por meio de um mtodo pragmtico 
e experimental. Fora bvio para mim desde a primeira sesso de que participei que os ensinamentos de Dom Juan possuam uma coeso interna. Uma vez que resolveu definitivamente 
comunicar-me seu conhecimento, passou a apresentar suas explicaes em gradaes ordenadas. Descobrir essa ordem e compreend-la foi para mim uma tarefa muito difcil.

Minha incapacidade de chegar a uma compreenso parece dever-se ao fato de que, depois de quatro anos de aprendizado, eu era ainda um principiante. Era claro que 
o conhecimento de Dom Juan e seu mtodo de transmiti-lo eram os de seu benfeitor assim, minhas dificuldades em compreender os ensinamentos dele devem ter sido anlogas 
s que ele mesmo tinha encontrado. Dom Juan aludiu  nossa semelhana como principiantes por comentrios ocasionais sobre sua incapacidade de compreender seu mestre 
durante sua prpria aprendizagem. Esses comentrios me levaram a crer que, para qualquer principiante, ndio ou no-ndio, o conhecimento da feitiaria se tornava 
incompreensvel devido s caractersticas extraordinrias dos fenmenos que ele experimentava. Pessoalmente, como ocidental, achava essas caractersticas to fantsticas 
que era impossvel explic-las em termos de minha prpria vida duna, e fui forado a concluir que qualquer tentativa de classificar meus dados de campo em meus prprios 
termos seria intil.
Assim, tornou-se bvio para mim que os conhecimentos de Dom Juan tinham de ser examinados em termos de como ele mesmo os compreendia; e s nesses termos  que poderiam 
tornar-se evidentes e convincentes. Tentando conciliar meus pontos de vista com os de Dom Juan, porm, verifiquei que, sempre que ele procurava explicar-me seus 
conhecimentos, usava conceitos que tornassem as coisas "inteligveis" para ele. Como esses conceitos me eram estranhos, minhas tentativas de compreender sua sabedoria 
da maneira como ele a compreendia me colocaram em outra posio insustentvel. Portanto, meu primeiro trabalho foi conceituao dele. Trabalhando nesse sentido,verifiquei 
que Dom Juan dava nfase especial a um certo setor de seus ensinamentos - para ser preciso, as utilizaes das plantas alucingenas. Baseando-me nisso, repassei 
todo o meu esquema de categorias.

        Dom Juan utilizava, separadamente e em ocasies diferentes, trs plantas alucingenas: o peiote (Lophophora williamsii), a datura (Datura inoxia syn. D. 
meteloides) e um cogumelo (possivelmente Psilocybe mexicana). Desde antes de seu contato com os europeus, os ndios americanos j conheciam as propriedades alucingenas 
dessas trs plantas. Devido a suas propriedades, elas tm sido vastamente empregadas para o prazer, para curas, para a feitiaria e para atingir um estado de xtase. 
No contexto especfico de seus ensinamentos, Dom Juan associava o uso da Datura inoxia e da Psilocybe mexicana para a aquisio do poder, um poder que ele denominava 
"aliado". Associava o uso da Lophophora williamsii  aquisio da sabedoria, ou o conhecimento da maneira certa de viver.

        Para Dom Juan, a importncia dessas plantas residia em sua capacidade de provocar estados de uma percepo especial num ser humano. Assim, ele me levou a 
experimentar uma srie desses estados com o objetivo de expor e dar validez a seu conhecimento. Eu os denominei "estados de realidade no comum", significando uma 
realidade incomum, ao contrrio da realidade da vida de todo dia. A distino baseia-se no significado inerente dos estados da realidade no comum. No contexto do 
conhecimento de Dom Juan eram considerados reais, embora sua realidade fosse diferenciada da realidade comum.
        Dom Juan acreditava que os estados de realidade no comum eram a nica forma de aprendizagem pragmtica e o nico meio de se adquirir o poder. Transmitia 
a impresso de que os outros ramos de seus ensinamentos eram secundrios, diante da aquisio do poder. Este ponto de vista penetrava a atitude de Dom Juan em tudo 
o que no se relacionasse diretamente com os estados de realidade no comum. Espalhadas em minhas anotaes de campo h referncias esparsas ao modo de sentir de 
Dom Juan. Por exemplo, em uma conversa com ele sugeriu que h alguns objetos que possuem um certo poder em si mesmos. Embora ele em pessoa no tivesse considerao 
por objetos de poder, disse que eram muitas vezes utilizados como apoios por brujos menos experientes. Muitas vezes lhe perguntei a respeito desses objetos, mas 
ele parecia inteiramente desinteressado de falar sobre eles. Mas quando o assunto surgiu novamente em outra ocasio, ele consentiu, com relutncia em falar a respeito.
        - Existem certos objetos que so imbudos do poder - disse ele. - H dezenas desses objetos, que so criados por homens poderosos, com o auxilio de espritos 
benignos. Esses objetos so ferramentas... no ferramentas comuns, mas sim ferramentas da morte. No entanto, so apenas instrumentos; no tm o poder de ensinar. 
A falar a verdade, so do reino de objetos de guerra, destinados  luta: so feitos para matar, para serem lanados.
        - Que tipo de objetos so eles, Dom Juan?
       - No so propriamente objetos; so, antes, tipos de poder.
       - Como se pode obter esses tipos de poder, Dom Juan?
        - Isso depende do tipo de objeto que voc queira.
        - Quantos tipos existem?
        - Como j disse, h dezenas de vezes. Qualquer coisa pode ser um objeto de poder.
        - Bem, ento, quais so os mais poderosos?
        - O poder de um objeto depende de seu possuidor, do tipo de homem que ele . Um objeto de poder criado por um brujo sem importncia  quase uma brincadeira; 
por outro lado, um brujo forte e poderoso empresta sua fora a suas ferramentas.
        - Ento, quais so os objetos de poder mais comuns? Quais os que a maioria dos brujos prefere?
       - No h preferncias. So todos objetos de poder, igualmente.
       - Possui algum deles, Dom Juan?
        - No respondeu; ficou olhando para mim e riu. Permaneceu calado muito tempo e eu achei que minhas perguntas o estavam aborrecendo.
        - H limites para esses tipos de poder - continuou ele. - Mas estou certo de que isso lhe seria incompreensvel. Levei quase uma vida para entender que, 
sozinho, um aliado pode revelar todos os segredos desses poderes secundrios, tornando-os meio infantis. Tive dessas ferramentas um dia, quando era muito jovem.

        - Que objetos de poder voc tinha?
        - Maz-pinto, cristais e penas.
        - O que  maz-pinto, Dom Juan?
        -  um grozinho de milho que tem um trao vermelho no meio.
        -  um gro s?
        - No. Um brujo possui 48 gros.
        - O que fazem os gros, Dom Juan?
        - Cada um deles pode matar um homem se entrar no corpo dele.
        - E como  que um gro entra num corpo humano?
        -  um objeto de poder e seu poder consiste, entre outras coisas, em entrar no corpo.
        - O que  que faz quando entra no corpo?
        - Ele se embebe no corpo; instala-se no peito, ou nos intestinos. O homem fica doente, e a no ser que o homem que o esteja curando seja mais forte do que 
o feiticeiro, ele morre dentro de trs meses depois que o gro lhe penetrou no corpo.
        - Existe alguma maneira de cur-lo?
        - O nico meio  chupar para fazer sair o gro, mas h muito poucos brejos que ousariam fazer isso. Um brejo poder chupar e fazer o gro sair, mas a no 
ser que ele seja suficientemente forte para repeli-lo, o gro entra no corpo dele e o mata.
        - Mas como  que um gro consegue entrar no corpo de algum?
        - Para explicar isso, preciso contar-lhe a respeito da feitiaria do milho, que  uma das mais poderosas feitiarias que conheo. O feitio  feito por dois 
gros. Um deles  colocado dentro do broto de uma flor amarela. A flor ento  colocada num lugar em que entre em contato com a vtima: a estrada em que ela anda 
todo dia, ou qualquer lugar em que esteja habitualmente. Assim que a vtima pisa no gro, ou o toca de alguma maneira, o feitio est feito. O gro embebe-se no 
seu corpo.
        - O que acontece com o gro depois que o homem o tocou?
        - Todo seu poder entra dentro do homem, e o gro fica livre. Torna-se apenas mais um gro. Pode ser deixado no local do feitio, ou pode ser varrido dali; 
no importa.  melhor varr-lo para o mato rasteiro, onde ser comido por um pssaro.
        - Os pssaros no o comem antes de o homem toc-lo? 
       - No. Nenhum pssaro  assim to burro eu lhe asseguro. Os pssaros no chegam perto dele.
        Dom Juan ento descreveu um processo muito complexo, pelo qual esses gros de poder podem ser obtidos.
        - Deve ter em mente que maf-pinto  um simples instrumento, no um aliado - disse ele. - Depois que estabelecer essa diferena, no ter mais problema. 
Mas se considerar que esses instrumentos so supremos, ser um tolo.
        - Os objetos de poder so to poderosos quanto um aliado? - perguntei.
        Dom Juan riu com desprezo antes de responder. Parecia que ele estava-se esforando muito para ser paciente comigo.
        - Maz-pinto, cristais e penas so simples brinquedos, comparados com um aliado - disse ele. - Esses objetos de por s so necessrios quando o homem no 
tem um aliado.  uma perda de tempo procur-los, especialmente no seu caso. Voc devia estar procurando arranjar um aliado; quando o conseguir, h de compreender 
o que lhe digo agora. Os objetos de poder so como uma brincadeira de criana.
        - No me interprete mal, Dom Juan - protestei eu. - Quero ter um aliado, mas tambm desejo saber tudo o que puder. Voc mesmo j disse que saber  poder.
        - No! - disse ele, com nfase. - O poder reside no tipo do poder que a gente tem. De que adianta saber coisas inteis?
        No sistema de crenas de Dom Juan, a aquisio de um aliado significava exclusivamente a explorao dos estados de no comum que ele produzia em mim pela 
utilizao de plantas alucingenas. Ele acreditava que, concentrando-me nesses estados e omitindo outros aspectos do conhecimento que ele ensinava, eu chegaria a 
uma viso coerente dos fenmenos que eu experimentara.
        Por isso, dividi este livro em duas partes. Na primeira, apresento passagens de minhas anotaes de campo que tratam dos estados de realidade no comum que 
experimentei em meu aprendizado. Como dispus minhas notas para servirem  continuidade da narrao, elas nem sempre esto em ordem cronolgica. Sempre escrevi minha 
descrio de um estado de realidade no comum vrios dias depois de o ter experimentado, esperando at ser capaz de trat-lo calma e objetivamente. Mas as minhas 
conversas com Dom Juan eram anotadas assim que ocorriam, logo aps cada estado de realidade no comum. Portanto, minhas descries dessas conversas precedem a plena 
descrio de uma experincia.
        Minhas anotaes de campo revelam a verso subjetiva do que eu percebia enquanto tinha a experincia. Essa verso  apresentada aqui assim como eu a narrava 
a Dom Juan, que exigia uma rememorao completa e fiel de todos os detalhes e a narrao completa de cada experincia. No momento de anotar essas experincias, acrescentei 
detalhes secundrios, para procurar retratar o ambiente total de cada estado de realidade no comum. Queria descrever o impacto emocional que experimentara o mais 
completamente possvel.
        Minhas anotaes de campo revelam ainda o contedo do sistema de crenas de Dom Juan. Condensei longas pginas de perguntas e respostas entre Dom Juan e 
eu, a fim de no ter de reproduzir as repeties das conversas. Mas tambm desejo refletir com preciso o estado de esprito feral de nossas conversas, e por isso 
s suprimi os dilogos que em nada contribuam para minha compreenso do seu mtodo de conhecimento. As informaes que Dom Juan me dava sobre seu mtodo de conhecimento 
eram sempre espordicas, e para cada explicao da parte dele havia sempre horas de perguntas de minha parte. No obstante, houve inmeras ocasies em que ele exps 
seu conhecimento livremente.
        Na segunda parte deste livro, apresento uma anlise estrutural baseada exclusivamente sobre os dados expostos na primeira parte. Em minha anlise, procuro 
justificar as seguintes premissas: (1) Dom Juan apresentava seus ensinamentos como um sistema de pensamento lgico; (2) o sistema s fazia sentido quando examinado 
 luz de suas unidades estruturais; e (3) o sistema era concebido para dirige um aprendiz a um nvel de conceituao que explicava a ordem dos fenmenos que ele 
experimentava.

Parte Um
Os Ensinamentos
1
        As anotaes sobre minha primeira sesso com Dom Juan so datadas de 23 de junho de 1961. Foi nessa ocasio que comearam os ensinamentos. Eu j tinha estado 
com ele vrias vezes antes disso, apenas como observador. Em todas as oportunidades, pedia-lhe que me falasse a respeito do peiote. Todas as vezes ele no fazia 
caso de meu pedido, mas nunca deixava o assunto inteiramente de lado, e interpretei a hesitao dele como sendo uma possibilidade de poder falar a respeito de seus 
conhecimentos com um pouco-mais de insistncia.
        Naquela determinada sesso, ele me mostrou claramente que poderia atender  minha solicitao desde que eu possusse a necessria clareza de esprito e de 
propsito com relao ao que lhe perguntara. Era-me impossvel satisfazer essa condio, pois eu s lhe pedira para me falar sobre o peiote como um meio de estabelecer 
uma comunicao com ele. Pensei que seu conhecimento do assunto poderia torn-lo mais disposto a falar e mais aberto, possibilitando-me assim uma entrada em seu 
conhecimento sobre as propriedades das plantas. Mas ele interpretou meu pedido ao p da letra, e estava preocupado com meus objetivos ao querer saber acerca do peiote.

Sexta-feira, 23 de junho de 1961

        - Quer-me ensinar alguma coisa a respeito do peiote, Dom Juan?
        - Por que quer saber disso?
        - Eu queria mesmo saber a respeito. S querer saber no basta como motivo?
        - No! Tem de procurar em seu ntimo para saber por que um rapaz como voc quer empreender essa tarefa de aprendizagem.
        - Por que voc mesmo aprendeu sobre isso, Dom Juan?
        - Por que quer saber?
        - Talvez ns dois tenhamos os mesmos motivos.
        - Duvido. Sou ndio. No temos os mesmos caminhos.
        - O nico motivo que tenho  que desejo saber a respeito, s para aprender. Mas asseguro-lhe, Dom Juan, no tenho ms intenes.
       - Acredito em voc. J o fumeguei. 
       - Perdo?
       - No importa agora. Sei quais so suas intenes. 
       - Quer dizer que leu meus pensamentos?
       - Poda ser.
       - Ento quer-me ensinar? 
       - No!
       - Por eu no ser ndio?
        - No. Porque voc no conhece seu ntimo. O importante  voc saber exatamente por que quer envolver-se. Aprender a respeito de Mescalito  uma coisa muito 
sria. Se voc fosse ndio, s o seu desejo seria suficiente. Muito poucos ndios tm esse desejo.

Domingo, 25 de junho de 1961

        Fiquei com Dom Juan a tarde toda na sexta-feira. Eu ia partir por volta das sete da noite. Estvamos sentados na varanda em frente da casa dele e eu resolvi 
perguntar-lhe mais uma vez sobre os ensinamentos. Era quase uma pergunta de rotina e eu j estava quase esperando que ele tornasse a recusar-se. Perguntei-lhe se 
havia um jeito de ele aceitar apenas o meu desejo de aprender, como se eu fosse um ndio. Ele custou muito a responder. Fui obrigado a esperar, pois ele parecia 
estar procurando resolver alguma coisa.
        Por fim ele me disse que havia um meio, e passou  expor um problema. Disse que eu estava muito cansado de ficar sentado no cho e que o que eu devia fazer 
era encontrar um ponto (sitio) no cho em que eu pudesse sentar-me sem me
cansar. Eu estava sentado com os joelhos levantados, de encontro ao peito, e os braos tranados em volta das pernas. Quando ele disse que eu estava cansado, percebi 
que minhas costas estavam doendo e que eu estava quase exausto.
        Esperei que ele explicasse o que queria dizer um "ponto", mas ele no procurou elucidar isso abertamente. Pensei que talvez ele quisesse dizer que eu devia 
mudar de posio, de modo que me levantei e sentei mais perto dele. Protestou contra meu movimento e frisou claramente que um ponto significava um lugar em que a 
pessoa se sentisse naturalmente feliz e forte. Mostrou o lugar em que estava sentado e disse que era o ponto dele, acrescentando que tinha proposto um enigma que 
eu teria de resolver sozinho, sem mais conversas.
        O que ele tinha proposto como um problema a ser resolvido era certamente um enigma. No tinha idia de como comear, nem mesmo do que ele teria em mente. 
Vrias vezes pedi uma indicao, ou pelo menos uma sugesto, sobre como proceder para encontrar um ponto em que me sentisse feliz e forte. Insisti e argumentei, 
dizendo que eu no tinha idia do que ele realmente queria dizer porque no podia conceber o problema. Ele sugeriu que eu andasse pela varanda at encontrar o ponto.
        Levantei-me e comecei a andar pelo cho. Senti que estava fazendo papel de bobo e sentei-me diante dele.
        Ele ficou muito aborrecido comigo e me acusou de no prestar ateno e disse que talvez eu no quisesse aprender. Depois de algum tempo, acalmou-se e explicou 
que nem todos os lugares eram bons de se sentar ou estar, e que dentro dos limites da varanda havia um ponto que era nico, um ponto em que eu estaria em minha melhor 
forma. Cabia a mim distingui-lo de todos os outros lugares. A idia geral era que eu teria de "sentir" todos os pontos possveis que me fossem acessveis, at poder 
estabelecer, sem dvida, qual o certo.
        Argumentei que, embora a varanda no fosse muito grande (2,5 por 3,Sm), o nmero de pontos possveis era imenso e eu levaria muito tempo para verificar todos, 
e como ele no tinha especificado o tamanho do ponto, as possibilidades podiam ser infinitas. Meus argumentos foram em vo. Levantou-se e me avisou muito severamente 
de que eu poderia levar dias para resolver aquilo, mas que, se no resolvesse o problema, mais valia eu partir, pois ele no teria mais nada a me dizer: Frisou que 
sabia onde ficava meu ponto, e que, portanto, eu no lhe poderia mentir; disse que aquele era o nico meio pelo qual ele poderia aceitar meu desejo de aprender a 
respeito de Mescalito como motivo vlido. Acrescentou que no mundo dele, nada era dado de presente, e que tudo o que se tinha de aprender tinha de ser aprendido 
com dificuldade.
        Deu a volta  casa e foi ao chaparral, urinar. Depois, entrou em casa diretamente pelos fundos.
        Achei que a tarefa de encontrar o suposto ponto de felicidade era sua maneira de me despachar, mas levantei-me e comecei a andar de um lado para outro. O 
cu estava azul. Eu via tudo o que havia na varanda e perto dela. Devo ter andado por uma hora ou mais, mas nada aconteceu para revelar a posio do ponto. Fiquei 
cansado de andar e sentei-me; depois de alguns momentos, sentei-me em outro lugar, e depois em outro, at ter percorrido todo o cho de maneira semi-sistemtica. 
Propositadamente, procurei "sentir" diferenas entre os lugares, mas faltava-me o critrio para a diferenciao. Senti que estava perdendo meu tempo, mas fiquei 
ali. Raciocinei que tinha vindo de muito longe s para ver Dom Juan, e no tinha mesmo mais nada para fazer.
        Deitei-me de costas e pus as mos debaixo da nuca, como um travesseiro. Depois, rolei e fiquei deitado de bruos um pouco. Repeti esse processo de rolar 
no cho todo. Pela primeira vez, achei que tinha encontrado um vago critrio. Sentia-me mais quente quando me deitava de costas.
        Tornei a rolar, dessa vez na direo oposta e voltei a percorrer todo o cho, ficando de bruos em todos os lugares em que tinha ficado da costas em minha 
primeira volta rolada. Experimentei as mesmas sensaes de frio e calor, dependendo de minha posio, mas no havia diferena entre os pontos.
        Ento, ocorreu-me uma idia que me pareceu brilhante: o ponto de Dom Juan! Fiquei ali sentado, depois deitei-me, primeiro de bruos e depois de costas, mas 
o lugar era igual a todos os outros. Levantei-me. J bastava. Eu queria despedir-me de Dom Juan, mas no queria acord-lo. Olhei para meu relgio. Eram duas horas 
da madrugada! Eu estava rolando havia seis horas.
        Naquele momento, Dom Juan saiu da casa e foi para o chaparral. Depois voltou e ficou junto da porta. Sentia-me completamente rejeitado e queria dizer-lhe 
alguma coisa desagradvel e ir embora. Mas percebi que no era culpa dele; que eu mesmo  quem tinha querido passar por toda aquela tolice. Disse-lhe que tinha fracassado; 
tinha passado a noite no cho da sua casa e ainda no conseguia entender o enigma dele.
        Riu e disse que aquilo no o surpreendia porque eu no agido direito. No tinha usado os olhos. Era verdade, o no entanto eu tinha muita certeza de que ele 
dissera que eu tinha de sentir a diferena. Expus esse argumento, mas ele que a gente pode sentir com os olhos, quando estes no olhando diretamente dentro das coisas. 
Quanto a mim, disse ele, no tinha outro meio de resolver esse problema a no fiado tudo o que eu tinha - meus olhos.
        Foi para dentro. Eu tinha certeza de que ele me tinha atado observando. Achei que no havia outro jeito de ele saber que eu no tinha usado os olhos.
        Recomecei a rolar, pois era esse o sistema mais cmodo. Dessa vez, porm, coloquei o queixo nas mos e olhei pata todos os detalhes.
        Depois de um intervalo, a escurido em volta de mim mudou. Quando me concentrava no ponto bem defronte de mim, toda a periferia de meu campo de viso tornava-se 
brilhantemente colorida com um amarelo-esverdeado homogneo. O efeito era impressionante. Mantive os olhos fixos no ponto diante de mim e comecei a rastejar de lado 
sobre a barriga, um pouquinho de cada vez.
        De repente, num ponto perto do meio do cho, verifiquei outra modificao de tonalidade. Num lugar  minha direita, ainda na periferia de meu campo de viso, 
o amarelo-esverdeado tornava-se intensamente roxo. Concentrei minha ateno nele. O roso desmaiou para uma cor plida, mas ainda brilhante que se manteve constante 
enquanto eu concentrava a ateno nela.
        Marquei o local com meu palet e chamei Dom Juan. Ele saiu para a varanda. Eu estava muito emocionado; tinha realmente visto a mudana nas tonalidades. Ele 
no pareceu impressionar-se, e disse-me que me sentasse no lugar e lhe que sensaes tinha.
        Sentei-me e depois deitei-me de costas. Ele ficou de p a meu lado e me perguntou vrias vezes como eu me sentia; mas no senti nada de diferente. Por uns 
quinze minutos Procurei sentir ou ver alguma diferena, enquanto Dom Juan fiava pacientemente a meu lado. Eu estava aborrecido. Tinha um gosto de metal na boca. 
De repente, tive dor de cabea. Tulha nsias de vmito. A idia de minhas tentativas idiotas me irritava a ponto de me enfurecer. Levantei-me.
       Dom Juan deve ter observado a minha profunda frustrao.
        No riu; e muito srio, declarou que eu tinha de ser inflexvel comigo mesmo, se quisesse aprender. Eu s tinha duas opes, disse ele: desistir e ir para 
casa, e nesse caso eu nunca havia de aprender; ou decifrar o enigma.
        Tornou a entrar em casa. Eu queria sair logo, mas estava muito cansado para dirigir; alm disso, o fato de eu ter percebido as cores era to impressionante 
que eu estava certo de ser um critrio qualquer, e talvez houvesse outras modificaes a serem percebidas. De qualquer forma, era muito tarde para partir. Por isso, 
sentei-me, estiquei as pernas e recomecei tudo.
        Dessa vez eu me movi rapidamente por cada lugar, passando pelo ponto de Dom Juan, at o fim da varanda e depois virei-me para cobrir a extremidade externa. 
Quando cheguei ao centro, vi que estava havendo outra modificao de colorao em meu campo de viso. O verde-amarelado uniforme que eu via em todo o setor transformava-se, 
em um ponto  minha direita, num verde forte. Ficou assim por um momento e depois metamorfoseou-se em outro tom constante, diferente do outro que eu tinha visto 
antes. Tirei um de meus sapatos e marquei o ponto, continuando a rolar at ter coberto o cho em todas as direes possveis. No se deu nenhuma outra mudana de 
colorao.
        Voltei ao ponto marcado pelo meu sapato e examinei-o. Ficava a mais ou menos 1,50m do ponto marcado pelo meu palet, numa direo sudeste. Perto dele havia 
uma pedra grande. Fiquei ali deitado por algum tempo, procurando descobrir alguma pista, olhando para todos os detalhes, mas no senti nada de diferente.
        Resolvi tentar o outro ponto. Rodopiei depressa nos joelhos e j ia deitando no palet quando senti uma apreenso anormal. Era mais como uma sensao fsica 
de alguma coisa me empurrando no estmago. Dei um salto e recuei num movimento s. Os cabelos de minha nuca se eriaram. As pernas estavam levemente arqueadas, o 
tronco debruado para a frente, e os braos esticados na mesma posio, rigidamente, com os dedos contrados como garras. Reparei em minha estranha posio e assustei-me 
ainda mais.
        Sem querer, andei para trs e sentei-me na pedra junto de meu sapato. Da pedra passei para o cho. Tentei imaginar o que teria acontecido para me assustar 
assim. Achei que devia ser o cansao que estava sentindo. J era quase dia. Sentia-me tolo e encabulado. No entanto, no tinha jeito de saber o que me assustara, 
nem tinha descoberto o que era que Dom Juan queria.
        Resolvi fazer uma ltima tentativa. Levantei-me e, devagar aproximei-me do lugar marcado pelo palet e tornei a sentir a mesma apreenso. Dessa vez, fiz 
um grande esforo para me controlar. Sentei-me e depois ajoelhei-me para deitar de bruos, mas, a despeito de minha vontade, no consegui deitar-me. Pus as mos 
no cho em frente de mim. Minha respirao estava ofegante; meu estmago estava embrulhado. Tive uma ntida sensao de pnico, e lutei para no fugir. Pensei que 
talvez Dom Juan me estivesse vigiando. Devagar, rastejei at o outro ponto e encostei as costas na pedra. Queria repousar um pouco para arrumar as idias, mas adormeci.
        Ouvi Dom Juan falando e rindo por cima de minha cabea. Acordei.
        - Voc encontrou o ponto - disse ele.
        A principio, no entendi, mas ele me garantiu de novo que o lugar em que eu adormecera era o ponto certo. Tornou a me perguntar como  que eu me sentia deitado 
ali. Respondi que realmente no notava nenhuma diferena.
        Disse-me que comparasse minhas sensaes daquele momento com o que eu tinha sentido deitado no outro ponto. Pela primeira vez, ocorreu-me que eu no poderia 
explicar minha apreenso da noite. Incitou-me, numa espcie de desafio, a me sentar no outro ponto. Por algum motivo inexplicvel eu chegava a ter medo do outro 
lugar, e no me sentei l. Declarou que s um tolo podia deixar de perceber a diferena.
        Perguntei-lhe se cada um dos dois pontos tinha um nome especial. Ele disse que o bom era chamado o sitio e o mau o inimigo: disse que os dois lugares eram 
a chave do bem-estar do homem, especialmente para uma pessoa que buscava o conhecimento. O simples ato de sentar no ponto da gente criava uma fora superior; por 
outro lado, o inimigo enfraquecia a pessoa e podia at provocar a sua morte. Ele disse que eu tinha refeito a minha energia, que tinha gasto muito na noite anterior, 
dormindo um pouco no meu ponto.
        Disse ainda que as cores que eu tinha visto, associadas a cada ponto especial, tinham o mesmo efeito geral, de dar ou de roubar a fora.
        Perguntei-lhe se para mim haveria outros pontos como os dois que eu encontrara, e como deveria proceder para descobri-los. Respondeu que muitos lugares no 
mundo seriam comparveis queles dois, e que o melhor meio de descobri-los seria verificar suas cores respectivas.
        Eu no sabia bem se tinha ou no resolvido o problema, e nem estava mesmo convencido de que tinha havido um problema: no podia deixar de sentir que toda 
aquela experincia era forada e arbitrria. Tinha certeza de que Dom Juan me vigiara a noite toda e depois quisera agradar-me, dizendo que o local em que eu adormecera 
era o lugar que eu procurava. No entanto, eu no via um motivo lgico para isso, e quando ele me desafiou a sentar-me no outro ponto, no consegui faz-lo. Havia 
uma estranha diviso entre a minha experincia pragmtica de recear o "outro ponto" e minhas deliberaes racionais sobre o caso todo.
        Dom Juan, por outro lado, estava muito certo de meu sucesso, e, agindo de acordo com isso, disse-me que me ia ensinar a respeito do peiote.
        - Voc me pediu que lhe falasse sobre Mescalito disse ele. - Queria descobrir se tinha bastante fibra para encontr-lo cara a cara. Mescalito no  brincadeira. 
Voc tem de ter domnio sobre si. Agora, sei que posso admitir o seu simples desejo como um bom motivo para aprender.
        - Vai mesmo ensinar-me a respeito do peiote?
        - Prefiro cham-lo Mescalito. Faa o mesmo.
Quando vai comear?
        No  assim to simples. Primeiro, voc tem de estar pronto.
        Creio que estou pronto.
        Isso no  brincadeira. Voc tem de esperar at no haver nenhuma dvida, e ento o encontrar.
       - Tenho de preparar-me?
        - No. S tem de esperar. Pode desistir de tudo, depois de algum tempo. Voc se cansa facilmente. Ontem, voc queria desistir assim que ficou difcil. Mescalito 
exige um propsito muito srio.

Segunda-feira, 7 de agosto de 1961

        Cheguei  casa de Dom Juan no Arizona por volta das sete horas da noite de sexta-feira. Havia mais cinco ndios sentados com ele na varanda da casa. Cumprimentei-o 
e esperei que eles dissessem alguma coisa. Depois de um silncio formal, um dos homens levantou-se, chegou perto de mim e disse "Buenas noches". Levantei-me e disse 
"Buenas noches". Depois todos os outros homens se levantaram e se aproximaram de mim e ns todos murmuramos "buenas noches" e nos apertamos as mos, mal tocando 
uns nos dedos dos outros ou pegando a mo por um instante e largando-a abruptamente.
        Ns todos nos sentamos outra vez. Eles pareciam meio encabulados, sem saber o que dizer, embora todos falassem espanhol.
        Deviam ser umas sete e meia quando todos se levantaram de repente e foram para os fundos da casa. Ningum dizia uma palavra, fazia tempo. Dom Juan me fez 
sinal para acompanh-los e ns todos entramos numa velha camioneta estacionada l. Sentei-me atrs com Dom Juan e mais dois rapazes mais moos. No havia almofadas 
nem bancos e o cho de metal era duro de doer, especialmente quando samos da estrada pavimentada e passamos para uma de terra. Dom Juan cochichou-me que amos  
casa de um amigo dele, que tinha sete mescalitos para mim.
        - No tem nenhum, Dom Juan? - perguntei-lhe.
        - Tenho, mas no podia oferec-los a voc. Entende,  outra pessoa que tem de fazer isso.
       - Pode dizer-me por qu?
        - Talvez voc no seja agradvel a "ele" e "ele" no goste de voc, e ento nunca poder conhec-lo com afeto, como se deve; e nossa amizade ficar estragada.
        - Por que ele no havia de gostar de mim? Nunca lhe fiz nada.
        - No precisa fazer nada para ele gostar de voc ou no. Ou ele o recebe ou o joga fora.
        - Mas se ele no me receber, no h alguma coisa que eu possa fazer para obrig-lo a gostar de mim?
        Os dois outros homens pareceram ouvir minha pergunta e riram.
        - No! No sei de nada que se possa fazer - disse Dom Juan.
        Virou-se meio de lado e no pude mais falar-lhe.
        Devemos ter viajado pelo menos por uma hora antes de parar diante de uma casinha. Estava bem escuro e depois que o motorista desligou os faris eu s conseguia 
distinguir a silhueta vaga do prdio.
        Uma moa, mexicana, a julgar pelo sotaque, estava gritando com um co para ele parar de latir. Saltamos do caminho e entramos na casa. Os homens resmungaram 
"Buenas noches" ao passarem pela moa. Ela os cumprimentou e continuou a gritar com o co.
        A sala era grande e amontoada de um mundo de coisas. Uma luz fraca de uma lmpada eltrica muito pequenina tornava a cena muito, lgubre. Havia vrias cadeiras 
de pernas quebradas e assentos cados encostadas s paredes. Trs dos homens sentaram-se num sof, que era o mvel maior da sala. Era muito velho e estava apoiado 
no cho;  luz fraca parecia ser vermelho e sujo. Ns outros nos sentamos nas cadeiras. Permanecemos calados por muito tempo.
        De repente, um dos homens levantou-se e foi para outra sala. Tinha talvez uns 50 e poucos anos, e era moreno, alto e forte. Um momento depois voltou com 
um vidro de caf. Abriu a tampa e entregou-me o vidro: dentro havia sete artigos de aparncia estranha. Eram de tamanhos e consistncia variados. Uns eram quase 
redondos, outros alongados. Ao tato, pareciam a polpa de nozes ou a superfcie da cortia. Sua cor acastanhada os fazia parecer cascas de nozes duras e secas. Peguei 
nelas, esfregando sua superfcie por algum tempo.
        - Isso  para mascar (esto se masca) - cochichou Dom Juan.
        No tinha percebido que se havia sentado junto de mim, at ele falar. Olhei para os outros homens, mas ningum estava olhando para mim; estavam conversando 
entre si, em voz baixa. Foi um momento de grande indeciso e medo. Sentia-me quase incapaz de me controlar.
        - Tenho de ir ao banheiro - disse-lhe eu. - Vou at l fora, dar uma volta.
        Entregou-me o vidro de caf e eu coloquei os botes de peiote ali. J ia saindo da sala, quando o homem que me dera o vidro se aproximou de mim e disse que 
tinha uma privada no outro aposento.
        O vaso ficava quase junto da porta. Junto dela, quase encostada ao vaso, havia uma grande cama, ocupando mais da metade do quarto. A mulher estava ali dormindo. 
Fiquei parado junto da porta um pouco e depois voltei  sala onde estavam os outros homens. O dono da casa falou-me em ingls:
       - Dom Juan disse que voc  da Amrica do Sul. L existe mescal?
        Respondi-lhe que nunca tinha ouvido falar nisso.
        Pareceram estar interessados na Amrica do Sul e conversamos um pouco sobre os ndios. Neste momento, um dos homens me perguntou por que eu queria comer 
peiote. Eu disse que queria saber como era. Todos riram, encabulados. Dom Juan me disse baixinho:
        - Masque, masque (masca, masca).
        Minhas mos estavam midas e meu estmago, contrado. O vidro com os botes de peiote estava no cho ao lado de minha cadeira. Abaixei-me, peguei um ao acaso 
e o pus na boca. Tinha um gosto de coisa velha. Mordi, dividindo-o em dois, e comecei a mastigar um dos pedaos. Senti um amargo forte e pungente; num momento, toda 
minha boca estava dormente. O amargo aumentava enquanto eu mascava, forando urna salivao incrvel. Minhas gengivas e a parte interna de minha boca estavam como 
se eu tivesse comido carne-seca ou peixe salgados, parecendo obrigar-me a mascar mais. Pouco depois, masquei o outro pedao, e minha boca estava to amortecida que 
eu nem sentia mais o amargor. O boto de peiote tinha uma penca de fibras, como a parte fibrosa da laranja ou da cana, e eu no sabia se devia engoli-Ia ou cuspi-Ia. 
Naquele momento, o dono da casa levantou-se e convidou a todos Para sarem para a varanda.
        Samos e ficamos sentados no escuro. Estava bastante agradvel l fora e o anfitrio trouxe uma garrafa de tequila.
        Os homens estavam sentados numa fileira, encostados  parede. Eu estava  extrema direita da fila. Dom Juan, que continuava a meu lado, colocou o vidro com 
os botes de peiote entre as minhas pernas. Depois, passou-me a garrafa, que tinha vindo pela fila, e disse-me que bebesse um pouco de tequila para tirar o amargor.
        Cuspi os fiapos do primeiro boto e tomei um gole. Ele me disse que no  engolisse, mas apenas bochechasse para fazer parar a salivao. No adiantou muito 
para a saliva, mas certamente ajudou a tirar um pouco do amargo.
        Dom Juan deu-me um pedao de damasco seco, ou talvez fosse um figo seco - eu no conseguia ver no escuro, nem sentir o gosto - e disse-me que o mastigasse 
bastante e devagar, sem me apressar. Tive dificuldade em engoli-lo; parecia que no queria descer.
        Depois de um curto intervalo a garrafa foi novamente passada. Dom Juan deu-me um pedao de carne-seca. Disse-lhe que no estava com vontade de comer.
        - Isto no  comer - falou ele, com firmeza.
        A funo repetiu-se seis vezes. Lembro-me de j ter mascado seis botes de peiote, quando a conversa ficou muito animada: embora eu no conseguisse distinguir 
que lngua estavam falando, o tema da conversa, da qual todos participavam, era muito interessante, e eu procurei ouvir atentamente para tambm poder participar. 
Mas quando tentei falar, vi que no conseguia; as palavras passeavam a esmo pela minha cabea.
        Fiquei sentado, encostado  parede, escutando o que os homens falavam. Estavam falando italiano e repetiam continuamente uma frase a respeito da estupidez 
dos tubares. Achei que era um assunto lgico e coerente. Eu havia contado a Dom Juan que o rio Colorado no Arizona fora chamado pelos primeiros espanhis de "el 
rio de los tizones" (rio dos ties); e que algum tinha escrito errado ou entendido errado a palavra tizones e o rio foi chamado "el rio de los tiburones" (rio 
dos tubares). Eu tinha certeza de que estavam comentando essa histria, mas no me ocorreu pensar que nenhum deles sabia falar italiano.
        Estava com muita vontade de vomitar, mas no me lembro se o fiz, de fato. Perguntei se algum poderia arranjar-me gua. Estava com uma sede insuportvel.
        Dom Juan me trouxe uma panela grande. Colocou-a no cho junto da parede. Trouxe tambm uma canequinha. Mergulhou-a na panela e deu-a a mim, dizendo que eu 
no podia beber, mas que devia apenas refrescar minha boca com ela.
        A gua tinha um aspecto estranho, reluzente, como um verniz grosso. Quis perguntar a Dom Juan a respeito e com dificuldade tentei formular meus pensamentos 
em ingls, mas depois pensei que ele no sabia falar ingls. Houve um momento de muita confuso e tive noo do fato de que, embora tivesse um pensamento claro em 
minha cabea, eu no podia falar. Queria comentar sobre o. estranho aspecto da gua, mas o que se seguiu no foi fala: era a sensao de meus pensamentos no falados 
saindo de minha boca em forma lquida. Era uma sensao fcil de vmito sem as contraes do diafragma. Era um agradvel fluxo de palavras lquidas.
        Bebi. E a sensao de estar vomitando passou. A essa altura todos os sons haviam desaparecido e vi que tinha dificuldade em focalizar os olhos. Procurei 
Dom Juan e ao virar a cabea notei que meu campo de viso tinha-se reduzido a uma rea circular defronte de meus olhos. Essa sensao no era nem assustadora nem 
incmoda, ao contrrio, era uma novidade; eu podia praticamente varrer o solo, focalizando um ponto e depois movendo minha cabea devagar em qualquer direo. Quando 
eu havia sado para a varanda, tinha reparado que estava toda no escuro, a no ser a luminosidade distante das luzes da cidade. No entanto, dentro da rea circular 
de minha viso, tudo era claro. Esqueci-me de minha preocupao com Dom Juan e os outros homens e entreguei-me totalmente a explorar o terreno com minha viso aguada.
        Vi a juno do cho da varanda com a parede. Virei minha cabea lentamente para a direita, seguindo a parede, e vi Dom Juan sentado de encontro a ela. Movi 
a cabea para a esquerda para focalizar a gua. Encontrei o fundo da panela; ergui minha cabea ligeiramente e vi um co preto de tamanho mdio aproximando-se. Notei 
que ele vinha em direo  gua. O co comeou a beber. Levantei a mo para espant-lo da minha gua; focalizei minha vista no co para executar o movimento e de 
repente eu vi que ele se tornava transparente. A gua era um lquido brilhante e viscoso. Eu a vi descendo pela garganta do cachorro e entrando no corpo dele. Eu 
a vi percorrendo todo o corpo dele e depois saindo por cada um dos plos. Vi o fluido iridescente passando por cada plo individual e depois projetando-se dos plos 
para formar uma juba longa, branca e sedosa.
        Naquele momento, tive a sensao de convulses intensas e em poucos instantes formou-se em volta de mim um tnel, muito baixo e estreito, duro e estranhamente 
frio. Quando o toquei, parecia uma parede de folha slida. Vi que eu estava sentado no cho do tnel. Tentei levantar-me, mas dei com a cabea no teto de metal e 
o tnel contraiu-se at estar-me sufocando. Lembro-me de que tive de arrastar-me at uma espcie de curva onde acabava o tnel; quando finalmente cheguei l, se 
 que cheguei, eu tinha esquecido completamente o co, Dom Juan e a mim mesmo. Estava exausto. Minhas roupas estavam ensopadas, de um liquido frio e viscoso. Eu 
rolava para diante e para trs, procurando encontrar uma posio para descansar, uma posio em que meu corao no batesse to forte. Num desses movimentos, tornei 
a ver o co.
        Todas as recordaes me voltaram de repente, e tudo ficou claro em minha mente. Virei-me para procurar Dom Juan, mas no conseguia distinguir nada nem ningum. 
Eu s conseguia ver o co ficando iridescente; uma luz intensa se irradiava de seu corpo. Torneia ver a gua fluindo atravs dele, acendendo-o como a uma fogueira. 
Cheguei at  gua, afundei meu rosto na panela e bebi com ele. Minhas mos estavam diante de mim no cho e, enquanto eu bebia, vi o fluido correndo por minhas veias 
e criando tonalidades de vermelho, amarelo e verde. Bebi mais e mais. Bebi at estar todo em fogo; eu estava todo aceso. Bebi at que o liquido saiu de meu corpo 
por todos os poros, projetando-se para fora como fibras de seda, e eu tambm adquiri uma juba comprida, lustrosa e iridescente. Olhei para o cachorro e a juba dele 
era igual  minha. Uma felicidade suprema me encheu o corpo todo e corremos juntos para uma espcie de calor amarelo que vinha de algum lugar indefinido. E ali brincamos. 
Brincamos e lutamos at eu saber os desejos dele e ele saber os meus. Cada um manipulava o outro  maneira dos teatros de fantoches. E o fazia mexer as pernas quando 
torcia meus dedos dos ps e cada vez que ele batia a cabea, eu sentia um desejo irresistvel de saltar. Mas a maior travessura dele era fazer com que eu coasse 
minha cabea com o p enquanto estava sentado, o que conseguia abanando as orelhas de. um lado para outro. Isso para mim era inteira e insuportavelmente engraado. 
Uma tal graa e ironia; tanto domnio, pensei. A euforia que se apossou de mim era indescritvel. Eu ria at quase no poder respirar.
        Tinha a sensao ntida de no conseguir abrir os olhos; eu estava olhando por um tanque de gua. Era um estado longo e muito doloroso, cheio da ansiedade 
de no poder despertar, e no entanto de sentir-me acordado. Ento, de repente, o mundo ficou claro e em foco. Meu campo de viso tornou-se novamente muito redondo 
e amplo, e com isso surgiu um ato consciente comum, que foi o de virar-me e procurar aquele ser maravilhoso. Nesse ponto, encontrei a transio mais difcil. A passagem 
de meu estado normal se dera quase sem eu sentir: eu tinha conscincia; meus pensamentos e sentimentos eram um corolrio dessa conscincia; e a passagem foi clara 
e suave. Mas essa segunda modificao, o despertar para uma conscincia clara e sbria, foi verdadeiramente chocante. Eu tinha esquecido que era homem! A tristeza 
de uma situao to irreconcilivel foi to intensa que eu chorei.

Sbado, S de agosto de 1961

        Mais tarde naquela manh, depois de tomar o caf, o dono da casa, Dom Juan e eu voltamos para a casa do segundo. Eu estava muito cansado, mas no consegui 
dormir na camioneta. S depois que o homem se foi  que eu adormeci, na varanda da casa de Dom Juan.
        Quando acordei j estava escuro; Dom Juan me cobrira com uma manta. Eu o procurei, mas ele no estava em casa. Depois apareceu, trazendo uma panela de feijo 
frito e um monte de tortillas. Eu estava com muita fome.
        Depois de comermos, descansamos, e ele me pediu que lhe contasse tudo o que me acontecera na vspera. Narrei minha experincia com muitos detalhes e o mais 
precisamente possvel. Quando terminei, ele meneou a cabea e disse:
        - Acho que voc est bem. B difcil explicar agora como e por qu. Mas creio que as coisas foram bem para voc. Sabe, s vezes ele  brincalho, como uma 
criana; outras vezes  terrvel e temvel. Ou ele brinca, ou fica muito srio.  impossvel saber de antemo como  que ele vai ser com outra pessoa. No entanto, 
quando a gente o conhece bem. . . s vezes. Voc brincou com ele hoje. E a nica pessoa que eu conheo que tenha tido um encontro desses.
        - De que modo a minha experincia  diferente da dos outros?
        - Voc no  ndio; por isso  difcil calcular o que  que h. No entanto, ele ou aceita as pessoas ou as rejeita, no importando que sejam ndias ou no. 
Isso eu sei. J vi muitas. Sei tambm que ele brinca, que faz umas pessoas rirem, mas nunca o vi brincar com ningum.
        - Pode dizer-me agora, Dom Juan, como  que o peiote protege. . .
        No me deixou terminar. Apertou meu ombro com fora.
        - Nunca se refira a ele por esse nome. Voc ainda no o viu o suficiente para conhec-lo.
        - Como  que Mescalito protege as pessoas?
        - Ele aconselha. Responde a todas as perguntas que voc fizer.
        - Ento Mescalito  real? Quero dizer,  uma coisa que se possa ver?
        Pareceu ficar confuso com minha pergunta. Ficou olhando para mim com uma expresso vazia.
        - O que quero dizer  que Mescalito . . .
        - Eu ouvi o que voc falou. Voc no o viu ontem?
        Eu queria dizer que s tinha visto um cachorro, mas reparei que ele estava com um ar intrigado.
        - Ento voc acha que o que eu vi ontem foi ele?
        Olhou para mim com desprezo. Riu, sacudiu a cabea como se no pudesse acreditar e, num tom de voz muito truculento, acrescentou:
        - A poco crees que era tu... mam (No me diga que acreditas que era tua... mame?)
        Ele parou antes de dizer mam porque o que ele queria dizer era "tu chingada madre", expresso idiomtica usada como aluso desrespeitosa  me do outro. 
A palavra mam ficou to disparatada que ns dois nos rimos muito.
        Depois, percebi que ele tinha adormecido sem responder  minha pergunta.

Domingo, 6 de agosto de 1961

        Levei Dom Juan de carro  casa onde eu tinha tomado peiote. No caminho, ele me disse que o nome do homem que me "oferecera a Mescalito" era John. Quando 
chegamos  casa, encontramos John sentado na varanda com dois rapazes. Todos estavam muito alegres. Riam e conversavam livremente. Os trs falavam ingls com perfeio. 
Eu disse a John que tinha ido agradecer-lhe por me ter ajudado.
        Eu queria ter as impresses deles sobre meu comportamento durante a experincia alucingena, e disse-lhes que tinha estado procurando pensar no que eu tinha 
feito naquela noite, e que no conseguia lembrar-me. Eles riram e mostraram relutncia em falar a respeito. Pareciam estar-se controlando por causa de Dom Juan. 
Todos olharam para ele, como que esperando permisso para continuar. Dom Juan deve ter dado alguma indicao, embora eu no notasse nada, pois, de repente, John 
comeou a me contar o que eu tinha feito naquela noite.
        Ele disse que sabia que eu tinha sido "aceito" quando me ouviu vomitando. Ele calculou que eu devia ter vomitado umas 30 vezes. Dom Juan corrigiu-o, dizendo 
que foram s dez vezes.
        - Depois ns todos fomos para junto de voc - continuou John. - Estava duro e com convulses. Por muito tempo, ficou deitado de costas, mexendo com a boca, 
como se estivesse falando. Em seguida, comeou a bater com a cabea no cho e Dom Juan ps um chapu velho na sua cabea e voc parou. Tremeu e gemeu durante vrias 
horas, deitado no cho. Acho que nessa altura todos adormeceram; mas eu 0 ouvia bufando e gemendo, enquanto dormia. Depois, eu o ouvi gritar e acordei. Vi voc dando 
saltos no ar, berrando. Depois, deu uma corrida at  gua, derrubou a panela e comeou a nadar na poa d'gua.
        "Dom Juan lhe trouxe mais gua. Voc ficou sentado quieto diante da panela. Em seguida, voc se levantou de um salto e tirou toda a roupa. Estava, de joelhos 
diante da gua, bebendo em grandes goles. Depois, ficou ali sentado, olhando pata o vazio. Pensamos que voc ia ficar ali para sempre. Quase todos estavam dormindo, 
inclusive Dom Juan, quando, de repente, voc tornou a dar um pulo, uivando e foi atrs do co. O animal se assustou e uivou tambm, correndo para os fundos da casa. 
Neste momento todos acordaram.
        "Ns todos nos levantamos. Voc voltou pelo outro lado, ainda perseguindo o co, que estava correndo na sua frente, latindo e uivando. Acho que voc deve 
ter dado umas 20 voltas ao redor da casa, correndo em crculos, latindo como um cachorro. Fiquei com medo de que as pessoas ficassem curiosas. No h vizinhos por 
perto, mas seus uivos eram to altos que podiam ser ouvidos a quilmetros.
Um dos rapazes acrescentou:
        - Voc pegou o cachorro e o trouxe para a varanda no colo.
        - Ento, comeou a brincar com o co - continuou John. - Lutou com ele, e voc e o co se mordiam e brincavam. Achei que isso era engraado. Normalmente, 
meu cachorro no brinca. Mas dessa vez, voc e o co rolavam um por cima do outro.
        - Correu para a gua e o cachorro bebeu com voc disse o rapaz. - Correu umas cinco ou seis vezes para a gua com o co.
        - Quanto tempo durou isso? - perguntei.
        - Horas - disse John. - A um dado momento, perdemos os dois de vista. Acho que devem ter corrido para os fundos. S ouvamos vocs latindo e grunhindo. Voc 
fazia rudos to semelhantes aos do cachorro que no podamos distinguir os dois.
        - Talvez fosse s o co - disse eu.
        Eles riram, e John disse:
        - Era voc que estava latindo, rapaz!
        - E depois, o que aconteceu?
        Os trs homens se entreolharam e demonstraram ter dificuldade em resolver o que tinha acontecido depois. Por fim, o rapaz que ainda no tinha dito nada falou.
        - Ele se engasgou - disse ele, olhando para John.
        - Sim, voc certamente se engasgou. Comeou a chorar de maneira muito estranha e depois caiu no cho. Pensamos que estivesse mordendo a lngua; Dom Juan 
abriu seus maxilares e despejou gua no seu rosto. Ento, voc comeou a tremer e a ter convulses de novo. Ficou imvel por muito tempo. Dom Juan disse que estava 
tudo acabado. Nesta altura, j era de manh, de modo que o cobrimos com uma manta e o deixamos dormindo na varanda.

        Parou e olhou para os outros, que obviamente procuravam no rir. Virou-se para Dom Juan e perguntou alguma coisa. Dom Juan sorriu e respondeu  pergunta. 
John virou-se para mim e disse:
        - Ns o deixamos aqui na varanda porque estvamos com medo de que voc fosse urinar nos quartos todos.
        Todos riram muito.
        - O que aconteceu comigo? - perguntei. - Eu...
        - Se voc . . . ? - John parecia estar-me imitando. No amos falar disso, mas Dom Juan disse que no faz mal. Voc urinou por cima do meu cachorro!
        - O que foi que eu fiz?
        - Voc no pensa que o cachorro estivesse correndo porque estava com medo de voc, no ? O co corria porque voc estava mijando nele.
        A essa altura todos riram muito. Tentei fazer perguntas a um dos rapazes, mas estavam todos rindo e ele no me ouviu. John continuou:
        - Mas meu cachorro se desforrou; ele tambm mijou em voc!
        Essa declarao aparentemente era muito engraada, pois eles todos morreram de rir, inclusive Dom Juan. Depois que todos se aquietaram, perguntei muito srio:
        -  mesmo verdade? Isso aconteceu mesmo?
        - Juro que meu co realmente mijou em voc - respondeu John, ainda rindo.
        Quando estvamos voltando para a casa de Dom Juan, perguntei-lhe:
        - Tudo aquilo aconteceu mesmo, Dom Juan?
        - Sim. Mas eles no sabem o que voc viu. No compreendem que voc estava brincando com "ele". Foi por isso que eu no o interrompi.
        - Mas esse negcio do co e eu urinando um ao outro  verdade?
        - No era um co! Quantas vezes tenho de lhe dizer isso?  o nico jeito de compreend-lo. O nico jeito! Foi "ele" que brincou com voc.
        - Voc sabia que tudo isso estava acontecendo antes de eu lhe contar?
        Vacilou um momento antes de responder.
        - No, depois que voc me contou eu me lembrei de como voc estava estranho. Eu desconfiava de que voc estava bem porque voc no parecia assustado.
        - O co brincou mesmo comigo como eles dizem?
        - Que diabo! No era um co)

Quinta-feira, 17 de agosto de 1961

        Contei a Dom Juan o que eu sentia a respeito de minha experincia. Do ponto de vista de meu pretenso trabalho, tinha sido uma coisa desastrosa. Disse que 
no estava interessado em outro "encontro" desses com Mescalito. Concordei que tudo o que me acontecera fora para l de interessante, mas acrescentei que nada daquilo 
poderia realmente me levar a procur-lo outra vez. Eu acreditava seriamente que no era feito para esse tipo de esforo. O peiote provocara em mim, como reao posterior, 
uma estranha sensao de desconforto fsico. Era um medo ou infelicidade indefinidos; uma melancolia de algum tipo, que eu no podia definir exatamente. E eu no 
considerava esse estado nobre, de maneira alguma. Dom Juan riu e disse:
       - Voc est comeando a aprender.
       - Esse tipo de aprendizagem no me serve. No fui feito para isso, Dom Juan.
        - Voc sempre exagera.
       - No  exagero.
       - , sim. O problema com voc  que voc s exagera os pontos maus.
       - No h pontos bons, a meu ver. S sei  que isso me amedronta.
       - No h nada de mau em se sentir medo. Quando se tem medo, v-se as coisas de modo diferente.
        - Mas no gosto de ver as coisas de modo diferente,        Dom Juan. Acho que vou deixar de lado a aprendizagem de Mescalito. No estou preparado para isso, 
Dom Juan. Esta situao  mesmo ruim para mim.
       - Claro que  ruim        at para mim. Voc no  o nico que est confuso.
       - Por que voc havia de estar confuso, Dom Juan?
       - Estive pensando no que vi na outra noite. Mescalito        essa chegou a brincar com voc. Isso me deixou confuso, porque foi um indcio (agouro).
       - Que tipo de indcio, Dom Juan?
       - Mescalito estava indicando voc para mim.
       - Para qu?
- No estava claro para mim ento, mas agora est. Ele queria dizer que voc era o "homem escolhido" (escogido). Mescalito me mostrou voc e, fazendo isso, me disse 
que voc era o escolhido.
       - Quer dizer que eu fui escolhido entre outros para alguma tarefa, coisa assim?
       - No. O que quero dizer  que Mescalito me disse que voc podia ser o homem que estou procurando.
        - Quando foi que ele lhe disse isso, Dom Juan?
       - Brincando com voc, ele me disse isso. Isso faz de voc o homem escolhido para mim.
       - O que significa ser o homem escolhido?
       - H alguns segredos que conheo (Tengo secretos). Tenho segredos que no poderei revelar a ningum, a no ser que encontre o meu homem escolhido. Na outra 
noite, quando eu o vi brincando com Mescalito, ficou claro para mim que voc era esse homem. Mas voc no  ndio. Que estranho!
       - Mas o que isso significa para mim, Dom Juan. O que tenho de fazer?
        - J resolvi e vou ensinar-lhe os segredos que constituem o todo de um homem de sabedoria.
        - Quer dizer os segredos sobre Mescalito?
        - Sim, mas no so s esses os segredos que conheo. H outros, de um tipo diferente, que eu gostaria de dar a algum. Eu tambm tive um mestre, o meu benfeitor, 
e tambm me tornei um homem escolhido ao executar certa faanha. Ele me ensinou tudo o que sei.
        Tornei a perguntar-lhe o que esse novo papel exigiria de mim; ele disse que a nica coisa necessria era aprender, aprender no sentido do que eu tinha experimentado 
nas duas sesses com ele.
        O modo como se modificara a situao era bem estranho. Eu tinha resolvido dizer a ele que ia desistir da idia de aprender a respeito do peiote, e ento, 
antes de eu poder faz-lo entender,.ele me oferecia para ensinar-me o seu "conhecimento". No sabia o que ele queria dizer com isso, mas senti que reviravolta repentina 
era muito sria. Argumentei que no uma qualificaes para essa tarefa, pois ela exigia um tipo raro de coragem que eu no possua. Disse-lhe que minha natureza 
era mais de comentar os atos praticados por outros. Queria saber das opinies dele sobre tudo. Disse-lhe que ficaria feliz se pudesse ficar ali sentado e ouvi-lo 
falar por dias e dias. Para mim, isso seria aprender.
        Escutou sem interromper. Falei muito tempo. Ento, ele disse:
        - Tudo isso  muito fcil de entender. O medo  o primeiro inimigo natural que o homem tem de vencer em seu         caminho para o conhecimento. Alm disso, 
voc  curioso. Isso acerta as coisas. E h de aprendera despeito de voc mesmo,  esta a regra.
        Ainda protestei um pouco, procurando dissuadi-lo. Mas ele parecia estar convencido de que no havia nada que eu pudesse fazer seno aprender.
        - Voc no est pensando na ordem certa - disse ele. - Mescalito chegou a brincar com voc.  nisso que tem de pensar. Por que no medita sobre isso, em 
vez de no seu medo?
        - Foi assim to raro?
        - Foi a nica pessoa que j vi brincar com ele. Voc no est habituado com este tipo de vida; portanto as indicaes (agouros) lhe passam despercebidas. 
No entanto,  uma pessoa sria, mas sua seriedade est ligada ao que voc faz, no ao que se passa fora de voc. Preocupa-se muito com voc.  este o problema. E 
isso d um cansao horrvel.
        - Mas o que mais se pode fazer, Dom Juan?
        - Procure e veja as maravilhas em volta de voc.
        Est cansado de olhar s para si, e essa fadiga o torna surdo e cego para todo o resto.
        - Tem razo, Dom Juan, mas como posso modificar-me?
        - Pense na maravilha de Mescalito brincando com voc. No pense em mais nada o resto vir por si.

Domingo, 20 de agosto de 1961

        Ontem  noite Dom Juan comeou a me conduzir ao reino de seu conhecimento. Ficamos sentados defronte da casa dele, no escuro. De repente, depois de um longo 
silncio, ele comeou a falar. Disse que ia aconselhar-me com as mesmas palavras que o benfeitor dele usara no primeiro dia em que o recebeu como aprendiz. Parece 
que Dom Juan tinha decorado as palavras, pois ele as repetiu vrias vezes, para ter a certeza de que eu no perdia nenhuma:
        - Um homem vai para o conhecimento como vai para a guerra, bem desperto, com medo, com respeito e com uma segurana absoluta. Ir para o conhecimento ou ir 
para a guerra de qualquer outra maneira  um erro, e quem o cometer h de se arrepender.
        Perguntei-lhe por que era isso e ele disse que, quando o homem preenche esses quatro requisitos, no h erros que ele tenha de explicar; nessas condies, 
seus atos perdem a qualidade desastrada dos atos de um tolo. Se um homem desses ter, ou sofrer uma derrota, ter perdido apenas uma fia, e no haver remorsos tristes 
por isso.
        Depois ele disse que pretendia ensinar-me a respeito de um "aliado", da mesmssima maneira que seu benfeitor lhe Vista. Frisou bem a expresso "mesmssima", 
repetindo-a vrias vezes.
        Um "aliado", disse ele,  um poder que um homem pode introduzir em sua vida para ajud-lo, aconselh-lo e dar-lhe a fora necessria para executar atos, 
grandes ou pequenos, certos ou errados. Este aliado  necessrio para realar a vida de um homem, orientar suas aes e aumentar seus conhecimentos. De fato, um 
aliado  o auxiliar indispensvel do conhecimento. Dom Juan falou isso com muita convico e fora. Pareceu escolher as palavras com cuidado. Repetiu a seguinte 
frase quatro vezes:
        - Um aliado o far ver e compreender coisas a respeito das quais nenhum ser humano poderia esclarec-lo.
        - Um aliado  assim como um anjo da guarda?
        - No  guarda nem anjo. E um auxiliar.
        - Mescalito  seu aliado?
        - No! Mescalito  outro tipo de poder. Um poder raro! Um protetor, um mestre.
        - O que torna Mescalito diferente de um aliado?
        - No pode ser domesticado e usado como se pode fazer com um aliado. Mescalito est fora da gente. Ele resolve mostrar-se em muitas formas para quem estiver 
defronte dele, no importando que essa pessoa seja um brujo ou um peo de fazenda.
        Dom Juan falava com grande fervor de Mescalito ser o mestre da maneira certa de se viver. Perguntei-lhe como  que Mescalito ensinava a "maneira certa de 
viver" e Dom Juan respondeu que Mescalito mostrava como se deve viver.
        - Como  que ele mostra? - perguntei.
        - Ele tem muitas maneiras de mostrar. As vezes, mostra por sua mo, ou nas pedras, ou nas rvores, ou apenas diante de voc.
        - E como um quadro diante da gente?
        - No. B um ensinamento diante de voc.
        - Mescalito fala com a pessoa?
        - Sim. Mas no por palavras.
        - Como  que ele fala, ento?
       - Fala de maneira diferente com cada homem.
        Senti que minhas perguntas o aborreciam. No perguntei mais nada. Ele continuou a explicar que no havia passos precisos para se conhecer Mescalito; por 
isso, ningum podia ensinar a respeito dele, a no ser o prprio Mescalito. Essa qualidade tornava-o um poder nico; no era o mesmo para todos os homens.
        Por outro lado, para se adquirir um aliado era necessrio, disse Dom Juan; o ensinamento mais preciso e que se seguisse estgios ou passos sem um nico desvio. 
Existem muitos desses poderes aliados no mundo, falou, mas ele s conhecia de perto dois. E pretendia conduzir-me a eles e seus segredos, mas cabia a mim escolher 
um deles, pois eu s poderia ter um. d aliado do benfeitor dele estava na yerba del dublo (erva-do-diabo), mas ele pessoalmente no gostava dela, embora seu benfeitor 
lhe tivesse ensinado seus segredos. Seu prprio aliado estava no humito (fuminho), falou Dom Juan, mas ele no explicou a natureza do fumo.
        Perguntei-lhe a respeito. Ficou calado. Depois de uma longa pausa, perguntei-lhe:
        - Que tipo de poder tem um aliado?
        - E um auxlio. J lhe disse.
        - Como  que auxilia?
        - Um aliado  um poder capaz de transportar o homem alm dos limites dele mesmo.  assim que um aliado pode revelar assuntos que nenhum ser humano poderia 
revelar.
        - Mas Mescalito tambm leva a pessoa alm dos seus limites. Isso no faz dele um aliado?
        - No. Mescalito tira a pessoa dela mesma para ensinar-lhe. Um aliado a tira para lhe dar poder.
        Pedi-lhe que me explicasse esse ponto mais detalhadamente, ou que me descrevesse a diferena em efeitos entre os dois. Ele me olhou por muito tempo e riu. 
Disse que aprender por conversas era no s uma perda de tempo, como ainda era estupidez, pois aprender era a tarefa mais difcil que o homem poderia empreender. 
Pediu-me para lembrar-me da ocasio em que tentei encontrar meu ponto e como eu queria encontr-lo sem trabalho, pois eu esperava que ele me fornecesse todas as 
informaes. Se ele tivesse feito isso, disse ele, eu nunca teria aprendido. Mas saber como era difcil encontrar meu ponto e, acima de tudo, saber que ele existia, 
darme-ia um raro senso de confiana. Disse que, enquanto eu ficasse agarrado a meu "ponto bom", nada me poderia causar um m fsico, pois eu tinha a segurana de 
que, naquele deter ponto, eu estava no meu mximo. Tinha o poder de me livrar de tudo quanto pudesse prejudicar-me. Contudo, se ele me tivesse contado onde ele ficava, 
eu nunca teria tido a confiana necessria para considerar aquilo o verdadeiro conhecimento. Assim, saber era realmente poder.
        Depois, Dom Juan disse que cada vez que o homem resolve aprender, ele tem de trabalhar duro como eu trabalhei para encontrar aquele ponto, e os limites de 
sua aprendizagem so determinados por sua prpria natureza. Assim, ele no via vantagem em falar sobre o conhecimento. Disse que certos tipos de conhecimento eram 
poderosos demais para a fora que eu possua, e que falar sobre eles s me faria mal. Parece que achava que no havia mais nada a dizer. Levantou-se e foi para casa. 
Falei-lhe que a situao me confundia. No era o que ou imaginara ou queria que fosse.
        Respondeu que os temores so naturais, que todos ns os sentimos e que no h nada a fazer a respeito. Porm, por outro lado, por mais aterrador que seja 
o conhecimento,  mais terrvel ainda pensar num homem sem um aliado, ou sem o conhecimento.

3
        Durante o espao de mais de dois anos que se passou entre o momento em que Dom Juan resolveu ensinar-me a respeito dos poderes dos aliados e o momento em 
que ele achou que eu estava preparado para aprender a respeito deles pragmaticamente, da forma participante que ele considerava como aprendizagem, ele aos poucos 
definiu as caractersticas gerais dos dois aliados em pauta. Preparou-me para o corolrio indispensvel de todas as verbalizaes e a consolidao de todos os ensinamentos, 
os estados de realidade no comum.
        A princpio, ele falou sobre os poderes aliados de maneira muito normal. As primeiras referncias que tenho em minhas anotaes esto intercaladas com outros 
temas de conversas.

Quarta-feira, 23 de agosto de 1961
        - A erva-do-diabo (o estramnio) era aliada de meu benfeitor. Tambm poderia ter sido minha, mas eu no gostava dela.
       - Por que no gostava da erva-do-diabo, Dom Juan?
       - Tinha um grave inconveniente.
       -  inferior aos outros poderes aliados?
        - No. No me interprete mal. Ela  to poderosa quanto os melhores aliados, mas h nela alguma coisa de que eu, pessoalmente, no gosto.
        - Pode dizer-me o que ?
        - Ela modifica os homens. D-lhes um gosto do poder cedo demais, sem lhes fortificar os coraes, tornando-os dominadores e imprevisveis. Ela os torna fracos, 
no meio de grande poder.
        - E no h um meio de evitar-se isso?
        - H um meio de se vencer isso, mas no de evit-lo. Quem quer que se torne aliado da erva tem de pagar esse preo.
       - Como se pode vencer esse efeito, Dom Juan?
        - A erva-do-diabo tem quatro cabeas; a raiz, a haste e as folhas, as flores e as sementes. Cada qual  diferente, e quem a tornar sua aliada tem de aprender 
a respeito delas nessa ordem. A cabea mais importante est nas razes. O poder da erva-do-diabo  conquistado por meio de suas razes. A haste e as folhas so a 
cabea que cura as molstias; usada direito, essa cabea  uma ddiva para a humanidade. A terceira cabea fica nas flores e  usada para tornar as pessoas malucas 
ou para faz-las obedientes, ou para mat-las. O homem que tem a erva por aliada nunca absorve as flores, nem meio a haste e as folhas, a no ser no caso de ele 
mesmo estar doente; mas as razes e as sementes so sempre absorvidas; especialmente as sementes, que so a quarta cabea da erva-do-diabo e a mais poderosa das 
quatro.
        - Meu benfeitor dizia que as sementes so a "cabea sbria". . , a nica parte que poderia fortalecer o corao do homem. A erva-do-diabo  dura com seus 
protegidos, dizia ele, porque pretende mat-los depressa, coisa que geralmente consegue antes de eles descobrirem os segredos da "cabea sbria". Existem, porm, 
histrias sobre homens que desvendaram os segredos da cabea sbria. Que desafio para um homem de sabedoria!
        - Seu benfeitor desvendou esses segredos?
        - No.
        - Conhece algum que o tenha feito?
        - No. Mas houve poca em que esse conhecimento era importante.
       - Conhece algum que tenha conhecido esses homens? - No conheo, no.
       - O seu benfeitor conhecia?
       - Sim.
       - Por que ele no desvendou os segredos da cabea sbria?
        - Domesticar a erva-do-diabo para torn-la uma aliada  uma das tarefas mais difceis que conheo. Por exemplo, ela nunca se tornou minha aliada, talvez 
porque eu nunca tivesse gostado dela.
        - E pode us-la como aliada a despeito de no gostar dela?
        - Posso; no obstante, prefiro no o fazer. Talvez seja diferente com voc.
        - Por que tem o nome de erva-do-diabo?
        Dom Juan esboou um gesto de indiferena, deu de ombros e ficou calado por algum tempo. Por fim, disse que "ervado-diabo" era seu nome provisrio (su nombre 
de feche). Disse ainda que havia outros nomes para erva-do-diabo, mas que no deviam ser usados, pois o uso de um nome era coisa sria, especialmente quando se est 
aprendendo a domesticar um poder aliado. Perguntei-lhe por que usar um nome era coisa to grave. Ele disse que os nomes eram reservados para serem utilizados s 
quando se pede socorro, em momentos de grande necessidade e tenso, e assegurou-me que esses momentos ocorrem sempre, mais cedo ou mais tarde, nas vidas dos que 
procuram o conhecimento.

Domingo, 3 de setembro de 1961
        Hoje  tarde Dom Juan apanhou duas plantas de Datura do campo.
        Inesperadamente, ele abordou o assunto da erva-do-diabo em nossa conversa e depois convidou-me a ir com ele procurar uma nos morros.
        Tomamos o carro e fomos para as montanhas prximas. Peguei uma p da mala e fomos para uma das gargantas. Caminhamos por algum tempo, abrindo caminho pelo 
chaparral, que era espesso na terra macia e arenosa. Ele parou junto de uma plantinha de folhas verde-escuro e flores grandes, brancas, em forma de sino.
        - Esta aqui - disse ele.
        E comeou logo a cavar. Quis ajud-lo, mas ele recusou, sacudindo a cabea energicamente, e continuou a cavar um buraco circular em volta da planta: um buraco 
em forma de cone, fundo nas beiradas e formando um montinho no centro do crculo. Quando ele parou de cavar, ajoelhou-se junto da haste e com os dedos limpou a terra 
macia em volta dela, descobrindo uns dez centmetros de uma raiz grande, tuberosa e em forquilha, cuja espessura formava um contraste marcante com a espessura da 
haste, que era frgil, em comparao.
        Dom Juan olhou para mim e disse que a planta era masculina, porque a raiz se bifurcava no ponto exato onde encontrava a haste. Depois, levantou-se e se afastou, 
procurando algema coisa.
        - O que est procurando, Dom Juan?
        - Quero encontrar um pau.
        Comecei a procurar, mas ele me impediu.
        - Voc no! Sente-se ali. - Ele apontou para umas pedras, a uns seis metros de distncia. - Eu o encontrei.
        Dali a pouco ele voltou com um galho comprido e seco. Usando-o como enxada, ele soltou com cuidado a terra ao longo dos dois ramos da raiz. Limpou-os at 
uma profundidade de mais ou menos 60 centmetros. Ento, a terra ficou to compacta que era impossvel penetrar mais fundo com o pau.
        Parou e sentou-se para respirar. Sentei-me ao lado dele. Ficamos calados por algum tempo.
        - Por que no cava com a p? - perguntei.
        - Podia cortar e machucar a planta. Eu tinha de arranjar um pau que pertencesse a essa regio para que, se batesse na raiz, o dano no fosse to srio quanto 
o que fosse causado por uma p ou outro objeto estranho.
        - Que tipo de pau pegou?
        - Qualquer galho seco da rvore paloverde serviria. Se no houver galhos secos, voc tem de cortar um.
        - Pode-se usar os galhos de outras rvores?
        - J lhe disse, s o paloverde, nenhuma outra.
        - Por que isso, Dom Juan?
        - Porque a erva-do-diabo tem muito poucos amigos, e o paloverde nessa regio  a nica rvore que se d com ela. . . a nica coisa que se agarra a ela (lo 
nico que prende). Se voc danificar a raiz com uma p, ela no vai crescer para voc quando a replantar, mas se voc a danificar com um pau desses, o provvel  
que a planta nem o sentir.
        - O que voc vai fazer com a raiz agora?
        - Vou cort-la. Voc tem de ir embora daqui. V procurar outra planta e espere at que o chame.
        - No quer que eu o ajude?
       - S pode ajudar-me se eu lhe pedir!
        Afastei-me e comecei a procurar outra planta, para combater o forte desejo de me virar e espi-lo. Depois de algum tempo ele se juntou a mim.
        - Agora, deixe eu procurar a fmea - disse ele.
        - Como  que se distingue os dois?
        - A fmea  mais alta e cresce acima do solo, de modo que parece uma arvorezinha. O macho  grande e se espalha perto do solo, parecendo mais um arbusto 
cerrado. Depois de cavarmos a fmea, voc ver que ela tem uma nica raiz que se estende por um pedao, at se ramificar. O macho, por outro lado, tem uma raiz 
ramificada junto da haste.
        Olhamos juntos pelo campo de Daturas. Depois, apontando para uma planta, ele disse:
        - Aquela  uma fmea. - E passou a cav-la, como tinha feito com a outra planta. Assim que ele limpou a raiz eu pude ver que esta correspondia a sua previso. 
Tornei a deix-lo quando ele ia cortar a raiz.
        Quando chegamos em casa ele abriu o embrulho em que tinha colocado as plantas de Datura. Primeiro, pegou a maior, a masculina, e lavou-a numa grande bandeja 
de metal. Com muito cuidado, esfregou toda a terra da raiz, haste e folhas. Depois dessa limpeza meticulosa, separou a haste da raiz, fazendo uma inciso superficial 
em volta de sua juno com uma faquinha serrilhada e partindo as duas. Pegou a haste e separou dela todas as partes, fazendo montinhos individuais das folhas, flores 
e sementes espinhosas. Jogou fora tudo 0 que estava seco ou que tinha sido estragado pelos bichos, guardando somente as partes intatas. Amarrou os dois ramos da 
raiz com pedaos de barbante, partiu-os em dois depois de fazer um corte superficial na juno, e conseguiu dois pedaos de raiz de tamanhos iguais.
        Depois, pegou um pano grosseiro e colocou nele primeiro os dois pedaos de raiz atados juntos; por cima disso colocou as folhas, num apanhado arrumado, e 
em seguida as flores, as sementes e a haste. Dobrou o pano e deu um n nos cantos.
        Repetiu exatamente o mesmo processo com a outra planta, a feminina, s que quando chegou  raiz, em vez de corta-la, deixou a forquilha intata, como a letra 
Y invertida. Depois, colocou todas as partes em outro embrulho de pano. Quando acabou, j estava quase escuro.

Quarta-feira, 6 de setembro de 1961

        Hoje, no fim da tarde, voltamos a falar sobre a erva-dodiabo.
        - Acho que devemos recomear a tratar daquela erva - disse Dom Juan de repente.
        Depois de um silncio corts, perguntei:
        - O que vai fazer com as plantas?
        - As plantas que eu cavei e cortei so minhas - disse ele. -  como se fosse eu mesmo; com elas, vou ensinar-lhe o meio de domesticar a erva-do-diabo.
        - Como vai fazer isso?
        - A erva-do-diabo  dividida em pores (partes) . Cada uma dessas pores  diferente; cada qual tem sua finalidade e servios especiais.
        Ele abriu a mo esquerda e mediu no cho uma distncia desde a ponta do polegar at  ponta de seu quarto dedo.
        - Esta  a minha poro. Voc vai medir a sua com sua prpria mo. Agora, para ter domnio sobre a erva-dodiabo, tem de comear tomando a primeira poro 
da raiz. Mas como eu o levei at ela, voc tem de tomar a primeira poro da raiz de minha planta. Medi-a para voc, de modo que, na verdade,  a minha poro que 
voc deve tomar a princpio.
        Ele entrou na casa e pegou um dos embrulhos de pano. Sentou-se e abriu-o. Notei que era a planta masculina. Reparei ainda que s havia um pedao de raiz. 
Ele pegou o pedao que restava dos dois e segurou-o diante de meu rosto.
        - Esta  a sua primeira poro - disse ele. - Eu a dou a voc. Eu mesmo a cortei para voc. Medi-a como minha, agora eu a dou a voc.
        Por um momento, passou-me pela cabea a idia de que eu teria de mastig-la como uma cenoura, mas ele a colocou num saquinho de algodo branco.
        Em seguida, foi at os fundos da casa. Ficou ali sentado no cho, de pernas cruzadas, e com um mano redondo comeou a amassar a raiz dentro do saco. Trabalhava 
sobre uma pedra chata que servia de almofariz. De vez em quando ele lavava as duas pedras com gua de uma baciazinha chata, de madeira.
        Enquanto amassava, entoava um cntico ininteligvel, muito baixinho e montono. Depois de ter reduzido a raiz dentro do saco a uma polpa macia, colocou-a 
na bacia de madeira. Tornou a pr o pilo e o almofariz de pedra na bacia, encheu-a de gua e depois levou-a a uma espcie de cocho de porcos triangular, encostado 
 cerca dos fundos.
        Disse que a raiz tinha de ficar de molho a noite toda e permanecer do lado de fora da casa para apanhar sereno.
        - Se amanh for um dia quente, de sol, ser um excelente augrio - disse ele.

Domingo, 10 de setembro de 1961

        A quinta-feira, dia 7 de setembro, foi um dia muito lmpido e quente. Dom Juan pareceu estar muito satisfeito com o bom pressgio e repetiu vrias vezes 
que a erva-do-diabo provavelmente tinha gostado de mim. A raiz tinha ficado de molho a noite toda e, por volta das dez da manh, fomos at os fundos da casa. Ele 
pegou a bacia do cocho, colocou-a no cho e sentou-se ao lado dela. Pegou o saco e esfregou-o no fundo da bacia. Segurou-o a alguns centmetros acima da gua e espremeu 
o contedo, depois deixou o saco cair na gua de novo. Repetiu isso mais trs vezes, depois largou o saco, jogando-o no cocho, e deixou a bacia ao sol quente.
        Duas horas depois ns voltamos l. Ele trouxe consigo uma chaleira mdia com gua fervendo, amarelada. Inclinou a bacia com muito cuidado e despejou a gua 
de cima, conservando o depsito grosso que se acumulara no fundo. Despejou a gua fervendo no depsito e tornou a deixar a bacia ao sol.
        Essa seqncia foi repetida mais trs vezes, a intervalos de mais de uma hora. Por fim, ele despejou a maior parte da gua da bacia, inclinou-a para apanhar 
o sol do fim da tarde e largou-a.
        Quando voltamos, horas depois, j estava escuro. No fundo da bacia havia uma camada de uma substncia pegajosa. Parecia amido mal cozido, esbranquiado ou 
cinza-claro. Havia talvez uma colher de ch daquilo. Levou a -bacia para dentro da casa e, enquanto punha gua para ferver, eu tirei pedaos de sujeira que o vento 
tinha soprado para o depsito. Ele riu de mim.
        - Esse pingo de sujeira no vai fazer mal a ningum.
        Depois que a gua ferveu, ele despejou mais ou menos uma xcara na bacia. Era a mesma gua amarelada que ele j usara antes. Aquilo dissolveu o depsito, 
formando uma espcie de substncia leitosa.
       - Que tipo de gua  essa, Dom Juan?

       - gua de frutas e flores da garganta.
        Ele despejou o contedo da bacia numa velha caneca de barro que parecia um jarro de flores. Ainda estava muito quente, de modo que ele soprou para esfri-la. 
Tomou um gole e entregou-me a caneca.
        - Beba agora! - disse ele.
        Peguei-a automaticamente e, sem refletir, bebi a gua toda. Tinha um gosto meio amargo, embora esse amargo quase no se percebesse. O que era marcante era 
o odor pungente da gua. Tinha cheiro de barata.
        Quase imediatamente comecei a transpirar. Fiquei com muito calor e o sangue me afluiu aos ouvidos. Vi um ponto vermelho em frente dos olhos e os msculos 
de meu estmago comearam a contrair-se em cibras dolorosas. Depois, embora eu no sentisse mais dores, comecei a ficar frio e ensopado de suor.
        Dom Juan perguntou-me se eu estava vendo tudo escuro, ou se tinha pontos pretos em frente dos olhos. Disse-lhe que estava vendo tudo vermelho.
        Meus dentes batiam por causa de um nervoso incontrolvel que me inundava, em ondas, como que se irradiando do meio de meu peito.
        Depois, perguntou-me se eu estava com medo. Suas perguntas me pareceram sem sentido. Respondi que obviamente eu estava com medo, mas ele tornou a me perguntar 
se eu estava com medo dela. No entendi o que ele dizia e respondi que sim. Ele riu e disse que eu no estava realmente com medo. Perguntou se eu continuava a ver 
vermelho. Tudo o que eu via era um imenso ponto vermelho diante dos olhos.
        Depois de algum tempo, senti-me melhor. Aos poucos os espasmos nervosos desapareceram, deixando apenas um cansao dolorido e agradvel e um forte desejo 
de dormir. No conseguia manter os olhos abertos, embora continuasse a ouvir a voz de Dom Juan. Adormeci. Mas a sensao de estar imerso num vermelho profundo continuou 
a noite toda. At sonhei em vermelho.
        Acordei no domingo, por volta das trs da tarde. Tinha dormido quase dois dias. Estava com uma ligeira dor de cabea e meu estmago estava embrulhado e sentia 
dores muito agudas e intermitentes nos intestinos. A no ser isso, tudo foi como num despertar comum. Vi que Dom Juan estava sentado defronte de sua casa, cochilando. 
Ele me sorriu.
        - Tudo foi bem, na outra noite - disse ele. - Voc viu vermelho e isso  o importante.
        - O que aconteceria se eu no visse vermelho?
        - Teria visto preto, e isso seria mau sinal.
        - Por qu?
        - Quando uma pessoa v preto, isso significa que ela no foi feita para a erva-do-diabo e ela vomita a alma, tudo verde e preto.
        - E morreria?
        - No creio que algum morresse, mas ficaria doente por muito tempo.
        - O que acontece com aqueles que vem vermelho?
        - No vomitam, e a raiz lhes proporciona um efeito de prazer, o que significa que eles so fortes e de natureza violenta... coisa de que a erva gosta. L 
assim que ela atrai. A nica desvantagem  que os homens acabam escravos da ervado-diabo, em retribuio ao poder que ela lhes d. Mas isso so coisas sobre as quais 
no temos controle. O homem s vive para aprender. E se aprende  porque  essa a natureza de seu destino, para melhor ou para pior.
        - O que fao agora, Dom Juan?
        - Agora voc tem de plantar um broto que eu cortei da outra metade da primeira poro de raiz. Tomou a metade na outra noite, e agora a outra metade tem 
de ser posta na terra. Tem de crescer e germinar antes que voc possa empreender o verdadeiro trabalho de domesticar a planta.
        - Como vou domestic-la?
        - A erva-do-diabo  domesticada por meio da raiz. Passo a passo, voc deve aprender os segredos de cada poro da raiz. Deve absorv-los a fim de aprender 
os. segredos e conquistar o poder.
        - As pores diferentes so preparadas da mesma maneira que voc preparou a primeira?
        - No, cada poro  diferente.
        - Quais os efeitos especficos de cada poro?
        - J disse, cada qual ensina um tipo diferente de poder. O que voc tomou a outra noite ainda no  nada. Qualquer pessoa pode fazer isso. Mas s o brujo 
pode tomar as pores profundas. No lhe posso dizer o que provocam porque ainda no sei se ela o receber. Temos de esperar.
       - Ento quando me dir?
       - Quando a sua planta tiver crescido e germinado.
       - Se a primeira poro pode ser tomada por qualquer para que  usada?
        - De forma diluda,  boa para tudo o que se refere  virilidade, gente velha que perdeu o vigor, ou rapazes em busca de aventuras, ou mesmo mulheres que 
desejam a paixo.
        - Voc disse que a raiz s  usada para o poder, mas arejo que  tambm usada para outros uns, alm do poder. Estou cesto?
        Ficou-me olhando muito tempo, com um olhar firme que me encabulou. Senti que minha pergunta o irritara, mas no podia entender por qu.
        - Essa erva s  usada para o poder - disse ele por fim, num tom seco e severo. - O homem que quer de volta asa vigor, os jovens que procuram suportar a 
fadiga e a fome, o homem que quer matar outro homem, uma mulher que quer ser fogosa... todos desejam o poder. E a erva lhes dar o poder! Acha que gosta dela? - 
perguntou, depois de uma pausa.
        - Sinto um estranho vigor - disse eu, e era verdade. Eu o tinha observado ao acordar e sentia-o naquele momento. Era uma sensao muito especial de desconforto 
ou de frustrao; todo meu corpo se movia e estendia com uma leveza e fora desusadas. Meus braos e pernas comichavam. Meus ombros pareciam estar inchados; os msculos 
de minhas costas e de meu pescoo me davam vontade de me encostar ou me esfregar contra as rvores. Parecia-me que eu poderia demolir um muro, se me atirasse de 
encontro a ele.
        No falamos mais nada. Ficamos sentados na varanda, Por algum tempo. Reparei que Dom Juan estava adormecendo; de bateu a cabea algumas vezes e depois simplesmente 
esticou as pernas, deitou-se no cho com as mos por trs da cabea e dormiu. Levantei-me e fui para o quintal, onde consumi minha energia fsica exagerada limpando 
o terreno; lembrei-me de que ele tinha dito que gostaria que eu ajudasse a Um a limpeza nos fundos da casa.
        Mais tarde, quando ele acordou e foi l para os fundos, eu j catava mais descansado.
        Sentamo-nos para comer e, durante a refeio perguntou-me trs vezes como me sentia. Como isso era raro, anal eu falei:
        - Por que est preocupado com o que estou sentindo, Dom Juan? Espera que eu tenha uma m reao por ter bebido o suco?
        Ele riu. Pareceu-me que estava agindo como um menino levado que fez uma travessura e est verificando os resultados de vez em quando. Ainda rindo, ele disse:
        - Voc no me parece doente. Ainda h pouco voc at falou grosso comigo.
        - No falei, no, Dom Juan - protestei. - No me lembro de ter jamais falado assim com voc. - Eu fazia muita questo disso, pois no me lembrava de ter 
alguma vez ficado zangado com ele.
        - Voc a defendeu - disse ele.
        - Defendi quem?
        - Voc estava defendendo a erva-do-diabo. J parecia um amante.
        Eu ia protestar ainda com maior vigor, mas me contive.
        - No percebi que a estava defendendo.
        - Claro que no. Nem se lembra do que disse, no ?
        - No me lembro, no. Tenho de confess-lo.
        - Est vendo? A erva-do-diabo  assim. Ela se insinua em voc como uma mulher. Voc nem toma conhecimento. S o que lhe interessa  que ela o faz sentir-se 
bem e poderoso: os msculos intumescidos de fora, os punhos comichando, as solas dos ps ardendo para derrubar algum. Quando o homem a conhece, ele fica mesmo 
cheio de desejos. Meu benfeitor costumava dizer que a erva-do-diabo conserva os homens que querem o poder e livra-se dos que no o sabem usar. Mas naquele tempo 
o poder era mais comum; era procurado mais avidamente. Meu benfeitor era um homem poderoso e, segundo o que ele me disse, o benfeitor dele, por sua vez, era ainda 
mais dado  busca do poder. Mas naqueles tempos havia bons motivos para se ser poderoso.
        - Voc acha que hoje no h mais motivo para o poder?
        - O poder  bom para voc agora.  jovem. No  ndio. Talvez a erva-do-diabo fosse boa em suas mos. Parece que voc gostou dela. Ela o fez sentir-se forte. 
Eu tambm j senti tudo isso. E, no entanto, no gostei.
        - Pode dizer-me por qu, Dom Juan?
        - No gosto do poder dela! No h mais utilidade para ele. Antigamente, como nos dias de que falava meu benfeitor, teia motivos para se buscar o poder. Os 
homens realizavam lhas fenomenais e eram admirados por sua fora e temidos e respeitados por sua sabedoria. Meu benfeitor me contou histrias de feitos verdadeiramente 
fenomenais que eram realizados h muito, muito tempo. Mas agora, ns, os ndios, no mais esse poder. Hoje, os ndios usam a erva para se esfregarem. Usam as folhas 
e flores para outros fins; dizem at que curam seus furnculos. Mas no buscam seu poder, um poder que age como um m, mais poderoso e mais perigo de se usar  
medida que a raiz se aprofunda na terra. Quando se chega a uma profundidade de quatro metros - e dizem que j chegaram - encontra-se o centro do poder permanente, 
poder sem fim. Poucos seres humanos j conseguiram isso no passado, e ningum nos dias de hoje. Estou-lhe dizendo, o poder da erva-do-diabo no nos  mais necessrio, 
a ns ndios. Pouco a pouco, acho que perdemos o interesse e agora o poder no importa mais. Eu prprio no o procuro e, no entanto, quando era da sua idade, tambm 
o senti inchando dentro de mim. Senti-me como voc hoje, s que 500 vezes mais fortemente. Matei um homem com um s golpe de meu brao. Eu lanava pedras, pedras 
imensas que nem vinte homens conseguiam mover. Uma vez, saltei to alto que citei as folhas das rvores mais altas. Mas tudo em vo! A nica coisa que fiz foi assustar 
os ndios... s os ndios. Os outros, que no sabiam nada daquilo, no acreditavam. Ou viam um ndio doido, ou alguma coisa se mexendo em cima das rvores.
        Ficamos calados por muito tempo. Eu tinha de dizer alguma coisa.
        - Era diferente quando havia no mundo pessoas continuou ele - pessoas que sabiam que um homem podia formar-se numa ona ou num passarinho ou que o homem 
podia voar. Por isso no uso mais a erva-do-diabo. Para qu? Para assustar os ndios? (Para que? Para assustar a lo indios?).
        E eu vi que ele estava triste e senti uma profunda empatia. Queria dizer-lhe alguma coisa, mesmo que fosse uma banalidade.
        - Talvez, Dom Juan, seja essa a sorte de todos os homens que desejam saber.
       - Talvez - disse ele, muito quieto.

Quinta-feira, 23 de novembro de 1961

        No vi Dom Juan sentado em sua varanda, quando cheguei. Achei aquilo estranho. Chamei-o em voz alta e a nora dele saiu da casa.
        - Ele est l dentro - disse ela.
        Descobri que ele tinha torcido o tornozelo havia vrias semanas. Tinha feito seu prprio aparelho molhando tiras de pano numa papa feita de cacto e farinha 
de ossos. As tiras, amarradas apertadas em volta do tornozelo, secaram, formando um aparelho leve e aerodinmico. Tinha a dureza do gesso mas no seu volume.
        - Como foi que aconteceu? - perguntei.
        A nora de Dom Juan, mexicana de Iucat, que estava cuidando dele, respondeu-me.
        - Foi um acidente! Ele caiu e quase quebrou o p!
        Dom Juan riu e esperou at a mulher sair da casa antes de responder.
        - Acidente, o qu! Tenho um inimigo aqui perto. Uma mulher. "La Catalina!" Ela me empurrou num momento de fraqueza e eu ca.
        - Por que essa mulher fez isso?
        - Queria matar-me, s isso.
        - Ela estava aqui com voc?
        - Estava!
        - Por que a deixou entrar?
        - No deixei. Ela entrou voando.
        - Perdo?
        - Ela  um melro (chanate). E muito eficiente, at. Fui apanhado de surpresa. H muito tempo que ela tenta liquidar-me. Dessa vez, quase conseguiu.
       - Voc disse que ela  um melro? Quero dizer, um pssaro?
        - L vem voc de novo com suas perguntas. Ela  um melro! Assim como eu sou um corvo. Sou um homem ou um pssaro? Sou um homem que sabe tornar-se pssaro. 
Mas voltando a "la Catalina", ela  uma bruxa endiabrada! Seu desejo de me matar  to forte que mal posso combat-la. O melro entrou pela minha casa adentro e eu 
no consegui impedi-lo.
        - Voc pode transformar-se em pssaro, Dom Juan?
       - Posso! Mas isso  coisa de que vamos tratar depois.
       - Por que ela quer mat-lo?
       - Ah,  um velho problema entre ns. Descontrolou-se e agora parece que eu terei de liquid-la antes que ela me liquide.
       - Voc vai usar feitiaria? - perguntei, com muitas esperanas.
       - No seja tolo. Nenhum feitio teria efeito sobre ela. Tenho outros planos! Um dia lhe contarei a respeito. 
       - O seu aliado pode proteg-lo contra ela?
        - No! O fuminho s me diz o que devo fazer. Ento, de me proteger sozinho.
        - E Mescalito? Ele no o pode proteger dela?
       - No! Mescalito  um mestre, no um poder a ser por motivos pessoais. 
       - E a erva-do-diabo?
       - J disse que preciso proteger-me, eu mesmo, seguindo as intrues de meu aliado, o fumo. E, ao que eu saiba, o fumo consegue fazer qualquer negcio. Se 
voc quiser saber a respeito de qualquer coisa, o fumo lhe dir. E ele lhe dar mente o conhecimento, como tambm os meios de agir.  o aliado mais maravilhoso que 
o homem pode ter.
       - O fumo  o melhor aliado para todos?
        - No  o mesmo para todos. H muitos que o temem a mo chegam perto dele. O fumo  como tudo o mais: no foi feito para todos ns.
       - Que tipo de fumo , Dom Juan? 
       - O fumo dos adivinhos!
       Em sua voz havia um marcado tom de venerao, coisa que eu nunca tinha notado antes.
       - Vou comear contando-lhe exatamente o que meu benfeitor me disse quando comeou a me ensinar a respeito. Muito embora naquela poca, como voc agora, eu 
no poderia ter compreendido. "A erva-do-diabo  para aqueles que querem o poder. O fumo  para aqueles que desejam contemplar e ver." E, em minha opinio, o fumo 
no tem igual. Uma vez um homem entre em seus domnios, todos os outros poderes esto a seu comando. E magnfico! Naturalmente, leva tida. Leva anos s para a pessoa 
se familiarizar com suas partes vitais: o cachimbo e a mistura do fumo. O Ido me foi dado por meu benfeitor e, depois de tantos anos de mexer com ele, tornou-se 
meu. Cresceu em minhas mos. Pass-lo a suas mos, por exemplo, ser uma tarefa de verdade para mim, e um grande feito para voc. . . se conseguirmos! O cachimbo 
sentir a tenso de ser manuseado por outra pessoa; e se algum de ns cometer um erro, no haver meio de impedir que o cachimbo estoure por sua prpria fora, ou 
que caia de nossas mos para se espatifar, mesmo que caia num monte de palha. Se isso acontecer, seria o nosso fim. Especialmente de mim. O fumo se voltaria contra 
mim de maneiras incrveis.
       - Como poderia voltar-se contra voc se  seu aliado?
        Minha pergunta pareceu desviar seus pensamentos. Ele ficou calado um tempo.
        - A dificuldade dos ingredientes - continuou ele, de repente - torna a mistura uma das substncias mais perigosas que conheo. Ningum pode prepar-la sem 
ser ensinado. p um veneno mortal para todos a no ser o protegido do fumo! O cachimbo e a mistura devem ser tratados com um cuidado ntimo. E o homem que quiser 
aprender deve preparar-se levando uma vida sossegada e dura. Seus efeitos so to tremendos que s os homens mais fortes podem suportar a mais leve fumarada. Tudo 
 aterrador e confuso a princpio, mas cada nova baforada torna as coisas mais precisas. E de repente o mundo se abre de novo! Inimaginvel! Quando isso acontece, 
o fumo torna-se nosso aliado e resolve qualquer problema permitindo-nos a entrada em mundos inconcebveis. p esta a maior propriedade do fumo, seu maior dom. E realiza 
sua funo sem prejudicar em nada. Considero o fumo um verdadeiro aliado!
        Como sempre, estvamos sentados em frente da casa dele, onde o cho de terra  sempre limpo e batido; de repente, levantou-se e entrou em casa. Depois de 
alguns momentos, voltou com um embrulhinho e tornou a sentar-se.
        - Este  o meu cachimbo - disse ele.
        Inclinou-se para mim e mostrou-me um cachimbo que tirou de uma capa de lona verde. Devia ter seus 25 centmetros de comprimento. A haste era de madeira avermelhada; 
era simples, sem nenhum enfeite. O fornilho tambm parecia ser feito de madeira, mas era meio volumoso, comparado com a haste fina. Tinha um acabamento lisa e era 
cinza-escuro, quase cor de carvo.
        Ele segurou o cachimbo em frente de meu rosto. Pensei que o estivesse entregando a mim. Estendi a mo para peg-lo, mas ele o puxou depressa.
       - Este cachimbo me foi dado pelo meu benfeitor - disse ele. - Eu, por minha vez, o passarei a voc. Mas primeiro tem de vir a conhec-lo. Cada vez que vier 
aqui, eu o darei a voc. Comece por toc-lo. A princpio, segure-o s um pouquinho, at que voc e o cachimbo se acostumem um a outro. Depois, ponha-o no bolso, 
ou talvez dentro da E por fim ponha-o na boca. Tudo isso deve ser feito aos pouquinhos e de modo vagaroso e cuidadoso. Depois de estabelecida a ligao (Ia amistad 
esto hecha), voc fumar nele. Se seguir meu conselho e no se precipitar, o fumo tambm poder vir a ser seu aliado preferido.
       - Entregou-me o cachimbo, mas sem o largar. Estendi meu brao direito para toc-lo.
       - Com ambas as mos - disse ele.
       - Toquei o cachimbo com as duas mos por um instante. No me estendeu totalmente o objeto, de modo que eu o pudesse agarrar, mas s o suficiente para eu poder 
toc-lo. Depois, puxou-o de volta.
       - O primeiro passo  gostar do cachimbo. Isso leva tempo!
        - O cachimbo pode no gostar de mim?
        - No. O cachimbo no pode ter averso por voc, mas tem de aprender a gostar dele a fim de que, quando chegar o momento de fumar, o cachimbo ajude voc 
a no ter medo.
        - O que voc fuma, Dom Juan?
        - Isto!
        Ele abriu o colarinho e mostrou um saquinho que usava por baixo da camisa, dependurado do pescoo como um medalho. Tirou-o, desamarrou a ponta e, com muito 
cuidado, um pouco do contedo na palma da mo.
       Pelo que pude ver, a mistura parecia folhas de ch cortadas bem fino, variando em cor do marrom-escuro ao verde-claro, com uns pontinhos de amarelo-vivo.
       Ps a mistura de volta no saquinho, fechou-o, amarrou-o cordo de couro e tornou a p-lo por baixo da camisa.
       - Que tipo de mistura  essa?
       - H muitas coisas nela. Conseguir todos os ingredientes  uma tarefa muito difcil.  preciso viajar longe. Os cogumelozinhos (los honguitos) necessrios 
para preparar a mistura em certas pocas do ano e em determinados lugares.
       - Voc usa uma mistura diferente para cada tipo de auxlio de que precisa?
       - No! S h um fumo, e no h nenhum outro como ele.
        Apontou para o saquinho em seu peito e levantou o cachimbo que estava entre suas pernas.
        - Estes dois so um s! Um no pode passar sem o outro. Este cachimbo e o segredo dessa mistura pertenciam a meu benfeitor. Foram passados a ele da mesma 
maneira que o meu benfeitor os deu a mim. A mistura, embora difcil de preparar,  possvel de ser reposta. Seu segredo reside em seus ingredientes e na maneira 
de eles serem tratados e misturados. O cachimbo, por sua vez,  coisa de toda uma vida. Deve ser tratado com o mximo cuidado.  resistente e forte, mas nunca se 
deve bater nem esbarrar nele. Deve ser manuseado com mos secas, nunca quando as mos esto suadas, e s deve ser usado quando se est s. E ningum, ningum absolutamente, 
deve v-lo, a no ser que voc pretenda d-lo a algum. Foi isso o que o meu benfeitor me ensinou, e foi assim que cuidei de meu cachimbo a vida toda.
        - O que aconteceria se voc perdesse ou quebrasse o cachimbo?
        Ele sacudiu a cabea, muito devagar, e olhou-me.
        - Eu morreria!
        - Todos os cachimbos dos feiticeiros so como o seu?
        - Nem todos tm cachimbos como o meu. Mas conheo alguns homens que tm.
        - Sabe fazer um cachimbo como este, Dom Juan? insisti. - Digamos que voc no possusse um, como  que poderia dar-me um se quisesse faz-lo?
        - Seu eu no tivesse o cachimbo, no poderia nem haveria de querer dar um cachimbo. Dar-lhe-ia outra coisa.
        Pareceu estar meio zangado comigo. Guardou o cachimbo com muito cuidado na capa, que devia ser forrada com um material macio, pois o cachimbo, que cabia 
ali apertado, entrou facilmente. Dom Juan retornou  casa para guardar o cachimbo.
        - Est zangado comigo, Dom Juan? - perguntei, quando ele voltou. Pareceu ficar espantado com a minha pergunta.
        - No! Nunca me zango! Nenhum ser humano pode fazer alguma coisa to importante que merea isso. A gente se zanga, com as pessoas quando acha que seus atos 
so importantes. No sinto mais isso.

26 de dezembro de 1961

       A ocasio especfica para replantar o "broto", como Dom Juan chamava a raiz, no estava marcada, embora devesse seguinte na domesticao do poder da planta.
       Cheguei  casa de Dom Juan no sbado, 23 de dezembro, da tarde. Ficamos calados por algum tempo, Arte. O dia estava quente e nublado. Havia meses me tinha 
dado a primeira poro.
       Est na hora de devolver a erva  terra - disse ele de repente, - Mas primeiro vou arrumar uma proteo para voc. Guarda-la- e a vigiar, e s deve ser 
vista por seus olhos. Como vou arrum-la, eu tambm vou v-Ia. Isso no  com, pois, como j lhe disse, no gosto da erva-do-diabo. No somos um s. Mas minha memria 
no vai durar muito; sou velho demais. Porm, voc tem de resguard-la dos olhos dos outros, pois, enquanto durar a recordao de eles a terem o poder da proteo 
estar prejudicado.
       Foi ao quarto dele e puxou trs embrulhos de pano de debaixo uma velha esteira. Depois, voltou  varanda e sentou-se.
       Depois de um longo silncio, abriu um dos embrulhos. Era Datara fmea que ele apanhara comigo; todas as folhas, e sementes que arrumara estavam secas. Pegou 
o comprido pedao de raiz em forma de Y e tornou a amarrar o embrulho.
       A raiz tinha secado e murchado e os galhos da forquilha mais separados e contorcidos. Colocou a raiz no colo, abriu sua bolsa de couro e puxou de sua faca. 
Segurou a raiz seca diante de mim.
       - Esta parte  para a cabea - disse ele, e fez a primeira inciso na cauda do Y, que, em posio invertida, asse-se  forma de um homem de pernas abertas. 
- Esta o corao - continuou, e cortou perto da juno do Y. Depois, cortou as pontas da raiz, deixando uns sete centmetros de madeira em cada ramo do Y. Ento, 
devagar e pacincia, esculpiu a forma de um homem.
       A raiz era seca e fibrosa. A fim de esculpi-Ia, Dom Juan fez duas incises e descascou as fibras entre elas at  profundidade dos cortes. Mas quando chegou 
aos detalhes, ele cinzelou a madeira, como ao fazer os braos e as mos. O resultado final foi uma figurinha vigorosa de um homem, de braos cruzados no peito e 
as mos entrelaadas.
        Dom Juan levantou-se e foi at junto de uma agave azul que crescia em frente da casa, junto da varanda. Pegou o espinho duro de uma das folhas do centro, 
polpudas, dobrou-o e girou-o trs ou quatro vezes. O movimento circular quase o destacou da folha; ele ficou pendurado. Dom Juan mordeu-o, ou melhor, prendeu-o entre 
os dentes e puxou-o. O espinho saiu da polpa, levando consigo um punhado de fibras compridas, como fios, presas  parte lenhosa como uma cauda branca, de uns 60 
centmetros de comprimento. Ainda com o espinho preso nos dentes, ele torceu as fibras entre as palmas das mos e fez um cordo, que embrulhou nas pernas da figurinha, 
para junt-las. Em seguida, envolveu a parte inferior do corpo, at usar todo o cordo; com muita habilidade, trabalhou o espinho como um furador por dentro da parte 
dianteira do corpo, por baixo dos braos cruzados, at que a ponta aguada aparecesse como que saindo das mos da estatueta. Tornou a usar os dentes e, puxando de 
leve, fez o espinho sair quase todo. Parecia uma comprida lana saindo do peito da estatueta. Sem olhar mais para ela, Dom Juan colocou-a dentro de sua bolsa de 
couro. Parecia estar exausto do esforo. Deitou-se no cho e adormeceu.
        Estava quase escuro quando ele acordou. Comemos os mantimentos que eu lhe trouxera e ficamos sentados na varanda mais um bocado. Depois, Dom Juan foi para 
os fundos da casa, levando os trs embrulhos de pano. Cortou galhos e ramos secos e fez uma fogueira. Ficamos sentados diante dela,  vontade, e ele abriu os trs 
embrulhos. Alm do que continha as partes secas da planta fmea, havia outro com o que sobrara da planta masculina, e um terceiro, volumoso, contendo pedaos verdes, 
recm-cortados, de Datura.
        Dom Juan foi at ao cocho dos porcos e voltou com um almofariz de pedra, muito fundo, que mais parecia uma panela com o fundo arredondado. Fez um buraco 
raso e colocou o almofariz firmemente no cho. Colocou mais galhos secos na fogueira e depois pegou os dois embrulhos com os pedaos secos de plantas masculina e 
feminina e esvaziou-os todos de uma vez no almofariz. Sacudiu o pano para verificar se todos os pedaos tinham cado no almofariz. Do terceiro embrulho, pegou dois 
pedaos frescos de raiz de Datura.
        - Vou prepar-los s para voc - disse ele.
        - Que tipo de preparao  essa, Dom Juan?
       - Um desses pedaos vem de uma planta masculina, o outro de uma planta feminina. Esta  a nica ocasio em que as duas plantas devem ser colocadas juntas. 
Os pedaos vem de uma profundidade de um metro. 
       Amassou-os dentro do almofariz         com movimentos regulares do pilo. Enquanto o fazia, entoava em voz baixa, parecendo cantarolar monotonamente e sem 
ritmo. As palavras para mim. Ele estava absorto em seu trabalho.
       Depois de completamente amassadas as razes, ele pegou Olhas de Datura do embrulho. Estavam limpas e tinham sido apanhadas havia pouco e todas estavam isentas 
de bichos e de cortes. Colocou-as no almofariz, uma a uma. Pegou um punhado de flores de Datura e tambm as colocou no almofariz, do mesmo modo paciente. Contei 
14 de cada. Depois, pegou um punhado de sementes frescas e verdes com todas as suas espigas e ainda fechadas. No pude conta-las, pois ele as jogou no almofariz 
todas de uma vez, mas supus que tambm houvesse 14 delas. Juntou trs hastes de Datura, sem as folhas. Eram vermelhas, escuras, e limpas, e pareciam vir de plantas 
grandes, a julgar por suas mltiplas ramificaes.
       Depois de colocadas todas essas coisas no almofariz, reduziu-as a uma polpa com os mesmos movimentos regulares. Em dado momento, inclinou o almofariz e com 
a mo raspou finta para uma panela velha. Dom Juan me estendeu a mo, e eu pensei que ele queria que a enxugasse. Mas, em vez disso pegou minha mo esquerda e, com 
um movimento muito rpido, separou o mais que pde os dedos do meio e o quarto. Depois, com a ponta da faca, feriu-me entre os dois dedos, cortando a pele do quarto 
dedo. Agiu com tanta habilidade e rapidez que, quando puxei a mo, estava com um corte profundo, e o sangue jorrava em profuso. Tornou a agarrar minha mo, colocou-a 
sobre a panela e apertou-a para forar a sada de mais sangue.
       Meu brao ficou dormente. Eu estava em estado de choque, estranhamente frio e rgido, com uma sensao de opresso em meu peito e ouvidos. Senti que estava 
escorregando no assento. Eu estava desmaiando! Dom Juan largou minha mo e mexeu o contedo da panela. Quando voltei a mim do choque, fiquei realmente zangado com 
ele. Levei algum tempo para me controlar.
        Ele arrumou trs pedras em volta da fogueira e colocou a panela em cima delas. A todos os ingredientes, acrescentou uma coisa que me pareceu ser um pedao 
grande de cola de marceneiro e uma chaleira de gua, deixando tudo aquilo a ferver. As plantas de Datura, por si, j tm um cheiro muito especial. Combinadas com 
a cola de marceneiro, que exalou um cheiro forte quando a mistura comeou a ferver, formavam um vapor to intenso que tive de fazer fora para no vomitar.
        A mistura ferveu muito tempo, enquanto ficvamos sentados ali imveis, diante dela. As vezes, quando o vento soprava o vapor em minha direo, o fedor me 
envolvia e eu prendia a respirao, procurando evit-lo.
        Dom Juan abriu a bolsa de couro e tirou a estatueta, ele a entregou a mim com cuidado e disse-me que a colocasse dentro da panela, sem queimar os dedos. 
Levei-a com cuidado para a papa fervente. Ele pegou a faca e, por um instante, pensei que ia tornar a me cortar; em vez disso, empurrou a figurinha com a ponta da 
faca e a afundou.
        Ficou olhando a papa ferver por mais um momento e depois comeou a limpar o almofariz. Ajudei-o. Quando terminamos, ele colocou o almofariz e o pilo junto 
da cerca. Entramos em casa e a panela ficou nas pedras a noite toda.
        No dia seguinte, de madrugada, Dom Juan mandou que eu tirasse a estatueta da cola e a dependurasse no telhado, de frente para o leste, para secar ao sol. 
Ao meio-dia estava dura como arame. O calor tinha soldado a cola e o verde das folhas se misturara a ela. A estatueta tinha um acabamento lustroso e estranho. 
        Dom Juan pediu-me que pegasse a estatueta. Em seguida, deu-me uma bolsa de couro que havia feito de um velho casaco de camura que eu lhe dera havia tempos. 
A bolsa parecia com a dele, sendo a nica diferena que a dele era feita de um couro marrom macio.
        - Ponha sua "imagem" dentro da bolsa e feche-a disse ele.
        Dom Juan no olhou para m:m, propositadamente mantendo a cabea virada. Depois que guardei a estatueta dentro da bolsa, ele me deu uma sacola de linha e 
disse-me que pusesse a panela de barro dentro dela.
        Foi at meu carro, pegou a sacola de minhas mos e prendeu-a ao porta-luvas, que estava aberto.
       - Venha comigo - disse ele.
        Acompanhei-o. Deu a volta  casa, fazendo um crculo completo, no sentido dos ponteiros do relgio. Parou na varanda e tornou a dar volta  casa, dessa vez 
em sentido contrrio e voltando de novo  varanda. Ficou parado um pouco e depois sentou-se.
        Eu estava condicionado a crer que tudo o que ele fazia tinha algum significado. Estava pensando no significado dos crculos em volta da casa, quando ele 
disse:
        - Ei! Esqueci onde o coloquei.
        Perguntei-lhe o que  que ele estava procurando. Respondeu que se tinha esquecido de onde colocara o broto que eu tinha de replantar. Tornamos a andar em 
volta da casa antes de ele se lembrar onde estava.
        Mostrou-me um potinho de vidro num pedao de tbua pregado  parede debaixo do telhado. O pote continha a outra metade da primeira poro da raiz de Datura. 
O broto tinha umas folhinhas crescendo em sua extremidade superior. O pote tinha um pouquinho de gua, mas no tinha terra.
        - Por que no tem terra? - perguntei.
        - Nem todos os solos so iguais, e a erva-do-diabo s deve conhecer o solo em que h de viver e crescer. E agora est na hora de ela voltar  terra, antes 
que os bichos a estraguem.
        - Podemos plant-la aqui perto da casa? - perguntei.
        - No! No! Aqui no. Ela deve voltar a um lugar de seu gosto.
        - Mas onde posso encontrar um lugar de meu gosto?
        - No sei. Pode tornar a plant-la onde quiser. Mas ela tem de ser cultivada e cuidada, pois tem de viver para voc ter o poder que precisa. Se ela morrer, 
isso quer dizer que no o quer, e voc no deve perturb-la mais. Quer dizer que voc no ter poder sobre ela. Portanto, precisa cuidar e tratar dela, para que 
cresa. Mas no deve mim-la.
        - Por que no?
        - Porque, se no for vontade dela crescer, no adianta agrad-la. Mas, por outro lado, voc tem de provar que gosta dela. Livre-a dos bichos e d-lhe gua 
quando a visitar. Isso deve ser feito com regularidade, at ela germinar. Depois de germinar a primeira semente, teremos certeza de que o deseja.
        - Mas, Dom Juan, no me  possvel cuidar da raiz como voc quer.
        - Se quiser o poder dela, tem de faz-lo! No h outro meio!
        - No pode cuidar dela quando eu no estiver aqui, Dom Juan?
        - No! Eu no! No posso fazer isso! Cada um tem de nutrir seu prprio broto. Tive o meu. Agora, voc tem de ter o seu. E s depois de ele germinar, como 
j lhe disse,  que voc pode considerar-se pronto para aprender.
        - Onde acha que eu devo plant-la?
        - Isso s voc pode decidir! E ningum pode saber do lugar, nem mesmo eu!  assim que a replanta tem de ser feita. Ningum, mas ningum mesmo, pode saber 
onde est sua planta. Se um estranho o acompanhar, ou o vir, pegue a raiz e corra para outro lugar. Ele lhe poderia causar males incrveis, manipulando o broto. 
Poderia aleij-lo ou mat-lo.  por isso que nem eu posso saber onde est sua planta. Leve-o agora. - E entregou-me o potinho com o broto.
        Peguei-o. Ento, ele quase me arrastou para meu carro.
        - Agora voc tem de ir. V e escolha o lugar onde vai replantar  broto. Cave um buraco fundo, na terra fofa, junto de um lugar com gua. Lembre-se, ele 
tem de estar perto da gua para poder crescer. Cave o buraco s com suas mos, mesmo que elas sangrem. Coloque o broto no centro do buraco e faa um montinho (piln) 
em volta dele. Depois, ensope-o de gua. Quando esta se infiltrar, encha a cova com terra fofa. Depois, escolha um lugar a dois passos do broto, naquela direo 
(apontou para sudeste). Cave ali outro buraco fundo, tambm com as mos e jogue ali o que est na panela. Depois, quebre-a e enterre-a em outro lugar, longe de onde 
est seu broto. Aps enterrar a panela, volte a seu broto e torne a reg-lo. Em seguida, pegue a sua estatueta, segure-a entre os dedos onde est a sua ferida e, 
de p no local onde voc sepultou a cola, toque de leve no broto com a agulha. D a volta ao broto quatro vezes, parando cada vez no mesmo lugar para toc-lo.
        - Tenho de seguir uma direo especial, quando der a volta ao broto?
        - Qualquer direo serve. Mas tem sempre de se lembrar em que direo voc enterrou a cola, e que direo tomou ao andar em volta do broto. Toque de leve 
no broto em todas as vezes menos na ltima; ento, empurre fundo. Mas faa-o com cuidado; ajoelhe-se para ter a mo mais firme, pois no deve quebrar a ponta dentro 
do broto. Se quebrar, est liquidado. A raiz no lhe servir de nada.
        - Tenho de pronunciar alguma palavra, enquanto ando em volta do broto?
        - No. Farei isso por voc.

Sbado, 27 de janeiro de 1962

        Assim que cheguei  casa dele hoje de manh, Dom Juan me disse que me ia ensinar a preparar a mistura do fumo. Fomos para os morros e entramos bem longe 
em' uma das gargantas. Ele parou perto de um arbusto alto e esguio, cuja cor formava um contraste marcante com a vegetao em volta. O chaparral ao redor do arbusto 
era amarelado, mas este era de um verde-vivo.
        - Desta arvorezinha voc tem de levar as folhas e as flores - disse ele. - A poca propcia para apanh-las  o Dia de Finados (el da de las nimas).
        Pegou sua faca e cortou a extremidade de um ramo fino. Escolheu outro ramo semelhante e tambm cortou a ponta. Repetiu essa operao at ter um punhado de 
pontas de ramos. Depois, sentou-se no cho.
        - Olhe aqui - disse ele. - Cortei todos os galhos acima da forquilha formada por duas ou mais folhas e a haste. Est vendo? So todos iguais. S usei a ponta 
de cada galho, onde as folhas so frescas e tenras. Agora, temos de procurar um lugar de sombra.
        Caminhamos at ele demonstrar haver encontrado o que procurava. Pegou um cordo comprido do bolso e amarrou-o ao trunco e aos galhos mais baixos de dois 
arbustos, fazendo uma espcie de varal, onde ele pendurou os galhos, com as pontas para baixo. Arrumou-os pelo cordo em ordem; enganchados pela forquilha entre 
as folhas e a haste, eles pareciam uma longa fileira de cavaleiros verdes.
        - E preciso que as folhas sequem  sombra - disse Dom Juan. - O lugar deve ser isolado e de difcil acesso. Assim, as folhas ficam protegidas. Devem ser 
deixadas para secar num lugar onde seja quase impossvel encontr-las. Depois de secas, devem ser postas num embrulho e lacradas.
        Apanhou as folhas do cordo e atirou-as nos arbustos Prximos. Parecia que s pretendia ensinar-me o processo.
        Continuamos a caminhar e ele escolheu trs flores diferentes, dizendo que eram parte dos ingredientes e que deviam ser colhidas ao mesmo tempo. Mas as flores 
tinham de ser colocadas em potes de barro separados e postas para secar no escuro; era preciso pr uma tampa em cada pote para as flores mofarem l dentro. Ele disse 
que a funo das folhas e das flores era adocicar a mistura do fumo.
        Samos da garganta e caminhamos para o leito do rio. Depois de uma volta grande, voltamos para a casa dele. Tarde da noite, ficamos sentados no seu quarto, 
coisa que ele raramente me permitia fazer, ocasio em que me contou a respeito do ltimo ingrediente; os cogumelos.
        - O verdadeiro segredo da mistura reside nos cogumelos - disse ele. - So o ingrediente mais difcil de colher. A ida ao lugar onde crescem  longa e perigosa, 
e escolher a qualidade certa  ainda mais arriscado. H outros tipos de cogumelos que crescem juntos deles, e que no valem nada; estragariam os bons se fossem secados 
juntos. Leva tempo para se conhecer bem os cogumelos, e no se errar. Srios males podem resultar, se se usar o tipo errado - mal para o homem e para o cachimbo. 
Conheo homens que caram mortos por terem usado um mau fumo. Assim que os cogumelos so colhidos, devem ser colocados numa cabaa, de modo que no h meio de verific-los 
novamente. Entende, eles tm de ser estraalhados para poderem passar pelo gargalo estreito da cabaa.
        - Como se pode evitar o erro?
        - Tendo cuidado e sabendo como escolher. J lhe disse que  difcil. Nem todos podem domesticar o fumo; a maior parte das pessoas nem tenta.
        - Por quanto tempo voc guarda os cogumelos dentro da cabaa?
        - Por um ano. Todos os outros ingredientes tambm so lacrados por um ano. Ento, partes iguais deles so medidas e modas separadamente num p muito fino. 
Os cogumelozinhos no tm de ser modos porque j por si tornam-se um p fininho; basta amassar os pedaos. Quatro partes de cogumelos so acrescentadas a uma parte 
de todos os outros ingredientes juntos. Depois, so todos misturados e colocados numa bolsa como a minha. - Apontou para o saquinho pendurado debaixo de sua camisa. 
- Em seguida, todos os ingredientes so novamente colhidos e depois de postos para secar voc est pronto para fumar a mistura que acabou de preparar. No seu caso, 
vai fumar no ano que vem. E no ano posterior, a mistura ser toda sua, pois voc a ter colhido sozinho. Da primeira vez que voc fumar, acenderei seu cachimbo. 
Vai fumar toda a mistura no fornilho e vai esperar. A fumaa vir. Voc a sentir. Ela o libertar para ver tudo o que quiser ver. A bem dizer,  um aliado incomparvel. 
Mas quem o procurar tem de ter um propsito e uma vontade irrepreensveis. Ele precisa disso porque tem de pretender e querer sua volta, do contrrio o fumo no 
o deixar voltar. Em segundo lugar, ele tem de pretender e querer lembrar-se de tudo o que o fumo lhe permitiu ver, do contrrio tudo no passar de uma neblina 
em sua mente.

Sbado, 8 de abril de 1962

        Em nossas conversas, Dom Juan sempre usava ou se referia  expresso "homem de conhecimento", mas nunca explicava o que queria dizer com isso. Perguntei-lhe 
a respeito.
        - Um homem de conhecimento  aquele que seguiu honestamente as dificuldades da aprendizagem - disse ele. Um homem que, sem se precipitar nem hesitar, foi 
to longe quanto pde para desvendar os segredos do poder e da sabedoria.
- Qualquer pessoa pode ser um homem de conhecimento?
        - No; no qualquer pessoa.
        - Ento o que  preciso fazer para se tornar um homem de conhecimento?
        - O homem tem de desafiar e vencer seus quatro inimigos naturais.
        - Ele ser um homem de conhecimento depois de vencer esses quatro inimigos?
        - Sim. Um homem pode chamar-se um homem de conhecimento somente se for capaz de vencer os quatro.
        - Ento, qualquer pessoa que conseguir vencer esses inimigos pode ser um homem de conhecimento?
        - Qualquer pessoa que os vencer torna-se um homem de conhecimento.
        - Mas h algum requisito especial que o homem tenha de atender antes de lutar contra esses inimigos?
        - No. Qualquer pessoa pode tentar tornar-se um homem de conhecimento; muito poucos homens o conseguem, realmente, mas isso  natural. Os inimigos que um 
indivduo encontra no caminho do saber para tornar-se um homem de conhecimento so realmente formidveis; a maioria dos homens sucumbe a eles.
        - Que tipos de inimigos so, Dom Juan?
        Recusou-se a falar sobre os inimigos. Disse que se passaria muito tempo at que o assunto fizesse sentido para mim. Procurei manter a conversa e perguntei-lhe 
se ele achava que eu poderia tornar-me um homem de conhecimento. Respondeu que ningum poderia dizer isso ao certo. Mas eu insisti para saber se havia algum indcio 
que ele pudesse usar para saber se eu tinha ou no possibilidade de me tornar um homem de conhecimento. Falou que dependia de minha luta contra os quatro inimigos 
- se eu conseguiria derrot-los ou ser derrotado por eles - mas que era impossvel prever o resultado dessa luta.
        Perguntei-lhe se ele podia usar feitios ou adivinhao para ver o resultado da luta. Declarou claramente que os resultados da luta no poderiam ser previstos 
por meio algum, porque tornar-se um homem de conhecimento era uma coisa temporria. Quando pedi que ele explicasse isto, respondeu:
        - Ser um homem de conhecimento no tem permanncia. Nunca se  um homem de conhecimento, no de verdade. Ou antes, a pessoa se torna um homem de conhecimento 
por um instante muito breve, depois de derrotar os quatro inimigos naturais.
        - Voc tem de me dizer, Dom Juan, que tipo de inimigos eles so.
        No respondeu. Tornei a insistir, mas ele mudou de assunto e comeou a falar sobre outra coisa.

Domingo 15 de abril de 1962

        Quando eu estava me preparando para partir, tornei a lhe perguntar acerca dos inimigos do homem de conhecimento. Argumentei que ia passar algum tempo sem 
voltar, e que seria uma boa idia escrever as coisas que ele tivesse a dizer e pensar a respeito enquanto estivesse fora. Hesitou um pouco, mas depois comeou a 
falar:
        - Quando um homem comea a, aprender, ele nunca sabe muito claramente quais seus objetivos. Seu propsito  fumo; sua inteno, vaga. Espera recompensas 
que nunca se materializaro, pois no conhece nada das dificuldades da aprendizagem.
        "Devagar, ele comea a aprender... a princpio, pouco a pouco, e depois em pores grandes. E logo seus pensamentos entram em choque. O que aprende nunca 
 o que ele imaginava, de modo que comea a ter medo. Aprender nunca  o que se espera. Cada passo da aprendizagem  uma nova tarefa, e o medo que o homem sente 
comea a crescer impiedosamente, sem ceder. Seu propsito torna-se um campo de >batalha.
        "E assim ele se deparou com o primeiro de seus inimigos naturais: o Medo! Um inimigo terrvel, traioeiro, e difcil de vencer. Permanece oculto em todas 
as voltas do caminho, rondando,  espreita. E se o homem, apavorado com sua presena, foge, seu inimigo ter posto um fim  sua busca.
        - O que acontece com o homem se ele fugir com medo?
        - Nada lhe acontece, a no ser que nunca aprender. Nunca se tornar um homem de conhecimento. Talvez se torne um tirano, ou um pobre homem apavorado e inofensivo; 
de qualquer forma, ser um homem vencido. Seu primeiro inimigo ter posto um fim a seus desejos.
        - E o que pode ele fazer para vencer o medo?
        - A resposta  muito simples. No deve fugir. Deve desafiar o medo, e, a despeito dele, deve dar o passo seguinte na aprendizagem, e o seguinte, e o seguinte. 
Deve ter medo, mente, e no entanto no deve parar.  esta a regra! E o momento chegar em que seu primeiro inimigo recua. O homem comea a se sentir seguro de si. 
Seu propsito torna-se mais forte. Aprender no  mais uma tarefa aterradora. Quando cesse momento feliz, o homem pode dizer sem hesitar que derrotou seu primeiro 
inimigo natural.
        - Isso acontece de uma vez, Dom Juan, ou aos poucos?
        - Acontece aos poucos e no entanto o medo  vencido da repente e depressa.
       - Mas o homem no ter medo outra vez, se lhe acontecer alguma coisa nova?
       - No. Uma vez que o homem venceu o medo, fica livre dele o resto da vida, porque, em vez do medo, ele adquiriu a clareza de esprito que apaga o medo. Ento, 
o homem j conhece seus desejos; sabe como satisfaz-los. Pode antecipar os novos passos na aprendizagem e uma clareza viva cerca tudo. O homem sente que nada se 
lhe oculta.
        "E assim ele encontra seu segundo inimigo: a Clareza! Essa clareza de esprito, que  to difcil de obter, elimina o medo, mas tambm cega.
        "Obriga o homem a nunca duvidar de si. D-lhe a segurana de que ele pode fazer o que bem entender, pois ele v tudo claramente. E ele  corajoso porque 
 claro e no pra diante de nada porque  claro. Mas tudo isso  um engano;  como uma coisa incompleta. Se o homem sucumbir a esse poder de faz-de-conta, sucumbiu 
a seu segundo inimigo e tatear com a aprendizagem. Vai precipitar-se quando devia ser paciente, ou vai ser paciente quando devia precipitar-se. E tatear com a 
aprendizagem at acabar incapaz de aprender mais qualquer coisa.
        - O que acontece com um homem que  derrotado assim, Dom Juan? Ele morre por isso?
        - No, no morre. Seu inimigo acaba de impedi-lo de se tornar um homem de conhecimento; em vez disso, o homem pode tornar-se um guerreiro valente, ou um 
palhao. No entanto, a clareza, pela qual ele pagou to caro, nunca mais se transformar de novo em trevas ou medo. Ser claro enquanto viver, mas no aprender 
nem desejar nada.
        - Mas o que tem de fazer para no ser vencido?
        - Tem de fazer o que fez com o medo: tem de desafiar sua clareza e us-la s para ver, e esperar com pacincia e medir com cuidado antes de dar novos passos; 
deve pensar, acima de tudo, que sua clareza  quase um erro. E vir um momento em que ele compreender que sua clareza era apenas um ponto diante de sua vista. E 
assim ele ter vencido seu segundo inimigo, e estar numa posio em que nada mais poder prejudic-lo. Isso no ser um engano. No ser um ponto diante da vista. 
Ser o verdadeiro poder.
        "Ele saber a essa altura que o poder que vem buscando h tanto tempo  seu, por fim. Pode fazer o que quiser com ele. Seu aliado est s suas ordens. Seu 
desejo  a ordem. V tudo o que est em volta. Mas tambm encontrou seu terceiro inimigo: o Poder!
        "O poder  o mais forte de todos os inimigos. E naturalmente a coisa mais fcil  ceder; afinal de contas, o homem  realmente invencvel. Ele comanda; comea 
correndo riscos calculados e termina estabelecendo regras, porque  um senhor.
        "Um homem nesse estgio quase nem nota seu terceiro inimigo se aproximando. E de repente, sem saber, certamente ter perdido a batalha. Seu inimigo o ter 
transformado num cruel e caprichoso.
       - E ele perder o poder?
       - No, ele nunca perder sua clareza nem seu poder.
       - Ento o que o distinguir de um homem de conhecimento?
        - Um homem que  derrotado pelo poder morre sem mente saber manej-lo. O poder  apenas uma carga em 'ice destino. Um homem desses no tem domnio sobre 
si, e no sabe quando ou como usar seu poder.
        - A derrota por algum desses inimigos  uma derrota final?
       - Claro que  final. Uma vez que esses inimigos dominem o homem, no h nada que ele possa fazer.
        - Ser possvel, por exemplo, que o homem derrotado pelo poder veja seu erro e se emende?
        - No. Uma vez que o homem cede, est liquidado.
        - Mas, e se ele estiver temporariamente cego pelo podar, e depois v recusar?
        - Isso significa que a batalha continua. Isso significa que ele ainda est tentando ser um homem de conhecimento. O indivduo  derrotado quando no tenta 
mais e se abandona.
        - Mas ento, Dom Juan, ser possvel que um homem se entregue ao medo durante anos, mas que no fim ele o vena.
        - No, isso no  verdade. Se ele ceder ao medo, nunca o vencer porque se desviar do conhecimento e nunca mais ter. Mas s procurar aprender durante anos 
no meio de i!s medo, acabar dominando-o, porque nunca se entregou realmente a ele.
       - E como o homem pode vencer seu terceiro inimigo, Dom Juan?
       - Tambm tem de desafi-lo, propositadamente. Tem de vir a compreender que o poder que parece ter adquirido, na nunca  seu. Deve controlar-se em todas as 
ocasies, Com cuidado e lealdade tudo o que aprendeu. Se conseguir ver que a clareza e o poder, sem seu controle sobre si, so piores do que os erros, ele chegar 
a um ponto em que lado. Ento, saber quando e como usar seu poder. E assim ter derrotado seu terceiro inimigo.
       "O homem estar, ento, no fim de sua jornada do saber, e quase sem perceber encontrar seu ltimo inimigo: a Velhice! Este inimigo  o mais cruel de todos, 
o nico que ele no conseguir derrotar completamente, mas apenas afastar.
        " o momento em que o homem no tem mais receios, no tem mais impacincias de clareza de esprito... um momento em que todo seu poder est controlado, mas 
tambm o momento em que ele sente um desejo irresistvel de descansar. Se ele ceder completamente a seu desejo de se deitar e esquecer, se ele se afundar na fadiga, 
ter perdido o ltimo round, e seu inimigo o reduzir a uma criatura velha e dbil. Seu desejo de se retirar dominar toda sua clareza, seu poder e sabedoria.
        "Mas se o homem sacode sua fadiga, e vive seu destino completamente, ento poder ser chamado de um homem de conhecimento, nem que seja no breve momento 
em que ele consegue lutar contra o seu ltimo inimigo invencvel. Esse momento de clareza, poder e conhecimento  o suficiente.

4
        Era raro Dom Juan falar abertamente sobre Mescalito. Sempre que eu indagava sobre o assunto, ele se recusava a falar, mas sempre dizia o suficiente para 
criar uma impresso a respeito de Mescalito, uma impresso que era sempre antropomrfica. Mescalito era masculino, no s por causa da regra gramatical que d  
palavra o gnero masculino, mas tambm devido a suas qualidades constantes de protetor e meie. Dom Juan reiterava essas caractersticas de vrios motes, sempre que 
conversvamos.

Domingo, 24 de dezembro de 1961

        - A erva-do-diabo nunca protegeu ningum. S serve pua dar poder. J Mescalito, por outro lado,  delicado como um beb.
       - Mas voc disse que por vezes Mescalito  assustador. 
       - Claro que  assustador, mas depois que voc passa a conhece-lo,  delicado e bom.
       - Como mostra sua bondade?
       -  protetor e mestre.
       - Como ele protege?
        -Voc o pode conservar consigo sempre e ele velar pira que nada de mau lhe acontea.
       - Como se pode conserv-lo sempre?
       - Numa bolsinha, preso debaixo do brao ou pendurado no pescoo por um cordo.
       - Voc o tem com voc?
       - No, porque tenho um aliado. Mas outras pessoas o tm.
        O que ele ensina? 
       - Ensina a viver direito. 
       - Como ele ensina? 
       - Mostra coisas e diz o que so (enzea las cosas te dice lo que son).
       - Como?
       - Voc ter de ver por si.

Tera-feira, 30 de janeiro de 1962

        - O que voc v quando Mescalito o leva com ele, Dom Juan?
        - No se pode falar dessas coisas. No lhe posso dizer.
        - Se dissesse, alguma coisa m lhe aconteceria?
        - Mescalito  um protetor, um protetor bom e delicado; mas isso no significa que se possa caoar dele. Como  um protetor bom, tambm pode ser um horror 
em si com aqueles de quem no gosta.
        - No pretendo caoar dele. S quero saber o que faz os outros executarem ou verem. Descrevi-lhe tudo o que Mescalito me fez ver, Dom Juan.
        - Com voc  diferente, talvez porque no conhea os costumes dele. Tem de aprender os costumes dele como uma criana aprende a caminhar.
        - Por quanto tempo ainda tenho de aprender?
        - At que ele prprio comece a fazer sentido para voc.
        - E depois?
        - Ento, voc vai entender por si. No vai mais ter de contar nada.
        - Pode dizer-me onde  que Mescalito o leva?
        - No posso falar disso.
        - S quero saber  se existe um outro mundo ao qual ele leva as pessoas.
        - Existe.
        -  o cu?
        - Ele o leva pelo cu.
        - Quero dizer,  o cu onde Deus est?
        - Agora voc est sendo burro. No sei onde Deus est.
        - Mescalito  Deus? O nico Deus? Ou  um dos deuses?
       - Ele  apenas um protetor e mestre.  um poder.
       -  um poder dentro de ns?
       - No. Mescalito no tem nada a ver conosco. Ele est fora de ns.
       - Ento, todos os que tomam Mescalito devem v-lo da mesma forma.
       - No, nada disso. Ele no  o mesmo para todos.

Quinta-feira, 12 de abril de 1962

       - Por que no me conta mais a respeito de Mescalito, Dom Juan?
       - No h nada a contar.
        .- Deve haver milhares de coisas que eu deva saber antes  tornar a encontr-lo.
        - No. Talvez para voc no haja nada que tenha de
Como j lhe disse, ele no  o mesmo para todos.
        - Sei, mas assim mesmo eu gostaria de saber como  que os outros se sentem a respeito dele.
       - A opinio daqueles que gostam de falar a respeito dele no vale grande coisa. Voc ver. Provavelmente, vai y' dele at certo ponto, e da em diante nunca 
mais o far.
       - Pode contar-me a respeito de sua primeira experincia?
       - Para qu?
       - Dessa forma, saberei como agir com Mescalito.
       - Voc j sabe mais do que eu. Chegou a brincar com ele. Um dia ver como o protetor foi bondoso para com voc. Daquela primeira vez, estou certo de que ele 
lhe disse muitas e muitas coisas, mas voc estava surdo e cego.

Sbado, 14 de abril de 1962
       - Mescalito assume alguma forma, quando se revela?
       - Sim, qualquer forma.
       - Ento, quais so as formas mais comuns que voc conhece?
       - No h formas comuns.
       - Quer dizer, Dom Juan, que ele aparece sob qualquer forma, mesmo para homens que o conhecem bem?
        - No. Ele aparece em qualquer forma para aqueles que s o conhecem um pouco, mas para aqueles que o conhecem bem,  sempre constante.
        - Como  que ele  constante?
        - Ele lhes aparece, s vezes, como homem, como ns, ou como uma luz. Apenas uma luz.
        - Mescalito muda sua forma permanente com aqueles que o conhecem bem?
        - No que eu saiba.

Sexta-feira, 6 de julho de 1962

        Dom Juan e eu samos numa viagem na tarde de sbado, dia 23 de junho. Ele disse que amos procurar honguitos (cogumelos) no Estado de Chihuahua. Falou que 
ia ser uma viagem demorada e difcil. E tinha razo. Chegamos a uma cidadezinha de minerao no norte de Chihuahua s dez da noite da quarta-feira, 27 de junho. 
Estacionei o carro nos arredores da cidade e caminhamos para a casa dos amigos dele, um ndio tarahumara e a mulher. Dormimos l.
        No dia seguinte, o homem nos acordou por volta das cinco horas. Trouxe-nos uma papa e feijo. Sentou-se e conversou com Dom Juan enquanto comamos, mas no 
disse nada a respeito de nossa viagem.
        Depois de comermos, o homem ps gua em meu cantil e dois pezinhos na mochila. Dom Juan entregou-me o cantil, prendeu a mochila com uma cordilha nos seus 
ombros, agradeceu ao homem suas gentilezas e, virando-se para mim, disse:
        - Est na hora de irmos.
        Caminhamos pela estrada de terra por um quilmetro e meio. Dali, cortamos caminho pelos campos e dentro de duas horas estvamos ao p dos morros ao sul da 
cidade. Subimos as encostas suaves em direo ao sudoeste. Quando chegamos s encostas mais ngremes, Dom Juan mudou de direo e seguimos um vale alto para leste. 
Apesar de sua idade avanada, ele andava to incrivelmente depressa que, ao meio-dia, eu estava completamente exausto. Sentamo-nos e abrimos o saco de po.
        - Pode comer tudo, se quiser - disse ele.
        - E voc?
        - No estou com fome, e no vamos precisar dessa comida mais tarde.
        Estava muito cansado e com fome, e aceitei o oferecimento dele. Achei que seria uma boa ocasio para falar sobre o objetivo de nossa viagem, e perguntei, 
com naturalidade:
        - Acha que nos vamos demorar aqui?
        - Estamos aqui para colher um pouco de Mescalito. Vamos ficar at amanh.
        - Onde est Mescalito?
        - Em volta de ns.
        Cactos de muitas espcies cresciam em profuso em toda a regio, mas eu no conseguia distinguir o peiote entre eles.
        Recomeamos a andar e, s trs horas, chegamos a um vale comprido e estreito com morros ngremes dos lados. Sentia-me estranhamente excitado com a idia 
de encontrar o peiote, que eu nunca vira em seu ambiente natural. Entramos no vale e devemos ter caminhado uns 120 metros, quando, de repente, vi trs plantas que 
deviam ser, por certo, peiote. Estavam num feixe, poucos centmetros acima do solo, em frente a mim,  esquerda do caminho. Pareciam rosas verdes, redondas e polpudas. 
Corri para elas, mostrando-as a Dom Juan.
        Ele no fez caso de mim e propositadamente manteve-se de costas quando se afastou. Eu sabia que tinha cometido um erro, e o resto da tarde andamos em silncio, 
movendo-nos devagar pelo solo chato do vale, que era coberto de pedrinhas aguadas. Movamo-nos no meio dos cactos, perturbando muitos lagartos e, de vez em quando, 
um pssaro solitrio. E passei por montes de plantas de peiote sem dizer uma palavra.
        As seis horas, estvamos ao p das montanhas que marcavam o fim do vale. Subimos para uma salincia. Dom Juan deixou cair a mochila e sentou-se.
        Eu estava com fome outra vez, mas no tnhamos mais comida; sugeri que colhssemos Mescalito e voltssemos  cidade. Pareceu ficar aborrecido e estalou os 
lbios. Disse que amos passar a noite ali.
        Ficamos sentados, calados.  esquerda, havia uma parede de rochedos e,  direita, estava o vale que acabvamos de atravessar. Este se estendia por alguma 
distncia e parecia ser mais largo e no to plano quanto eu pensava. Visto do lugar onde eu estava, era cheio de morrinhos e protuberncias.
        - Amanh vamos comear a voltar - disse Dom Juan, sem olhar para mim, e apontando para o vale. - Vamos voltar e colh-lo quando atravessarmos o campo. Isto 
, s o apanharemos quando ele estiver no nosso caminho. Ele nos encontrar, e no vice-versa. Ele nos encontrar... se quiser.
        Dom Juan descansou as costas na parede de pedra e, com a cabea virada de lado, continuou a falar como se ali houvesse mais algum, alm de mim.
        - Mais uma coisa. S eu posso colh-lo. Voc talvez carregue o saco, ou ande adiante de mim... ainda no sei. Mas amanh voc no vai apontar para ele como 
fez hoje!
        - Desculpe-Dom Juan.
        - No tem importncia. Voc no sabia.
        - Seu benfeitor lhe ensinou tudo isso a respeito de Mescalito?
        - No! Ningum me ensinou sobre ele. O prprio protetor foi meu mestre.
        - Ento Mescalito  como uma pessoa, com quem se pode falar?
        - No , no.
        - Ento como  que ele ensina?
        Ele ficou calado por um instante. Depois, disse:
        - Lembra-se da vez que voc brincou com ele? Voc entendia o que ele queria dizer, no?
        - Entendia!
        -  assim que ele ensina. No sabia na ocasio, mas se lhe tivesse prestado ateno, ele lhe teria falado.
        - Quando?
        - Quando voc o viu pela primeira vez.
        Dom Juan pareceu estar muito aborrecido com minhas perguntas. Disse-lhe que tinha de fazer todas essas perguntas porque queria descobrir tudo o que pudesse.
        - No pergunte a mim! - Sorriu com malcia. - Pergunte a ele. Da prxima vez que o vir, pergunte tudo o que quer saber.
        - Ento Mescalito  mesmo uma pessoa com quem se pode falar...
        Ele no me deixou terminar. Virou-se de costas, pegou o cantil, desceu da salincia e desapareceu atrs do rochedo. Eu no queria ficar ali sozinho e, embora 
no me tivesse convidado para ir com ele, acompanhei-o. Andamos por uns 150 metros e chegamos a um riachinho. Lavou as mos e o rosto e encheu o cantil. Bochechou 
com a gua, mas no bebeu. Peguei gua nas mos em concha e bebi, mas ele me fez parar, dizendo que no era preciso beber.
        Entregou-me o cantil e comeou a voltar para a salincia. Quando chegamos l, tornamos a nos sentar de frente para o vale, de costas para a parede de rocha. 
Perguntei se podamos fazer uma fogueira. Dom Juan reagiu como se fosse inconcebvel fazer uma pergunta daquelas. Disse que naquela noite ramos hspedes de Mescalito 
e que ele nos aqueceria.
        J estava anoitecendo. Dom Juan tirou do saco duas mantas leves, de algodo, e jogou uma no meu colo; depois, sentou-se de pernas cruzadas com a outra sobre 
os ombros. Abaixo de ns o vale estava escuro, suas bordas j difusas na nvoa da noite.
        Dom Juan ficou sentado, imvel, olhando para o campo de peiote. Um vento constante soprava em meu rosto.
        - O crepsculo  a fresta entre os mundos - disse ele baixinho, sem se virar para mim.
        No perguntei o que ele queria dizer com isso. Meus olhos estavam cansados. De repente, senti-me exaltado; senti uma vontade estranha e avassaladora de chorar!
        Deitei-me de bruos; o cho de pedra era duro e incmodo e eu tinha de trocar de posio a cada instante. Por fim, sentei-me e cruzei as pernas, pondo a 
manta sobre os ombros. Para espanto meu, essa posio era extremamente cmoda, e eu adormeci.
        Quando acordei, ouvi Dom Juan falando comigo. Estava muito escuro. Eu no o via muito bem. No entendi o que ele dizia, mas acompanhei-o quando desceu da 
salincia. Andvamos com cuidado, ou pelo menos eu o fazia, por causa do escuro. Paramos na base do paredo de pedra. Dom Juan sentou-se e me fez sinal para sentar-me 
 sua esquerda. Abriu a camisa e tirou um saco de couro, que abriu e colocou no cho diante de si. Continha uma poro de botes de peiote secos.
        Depois de uma longa pausa, pegou um dos botes. Segurou-o em sua mo direita, esfregando-o vrias vezes entre o polegar e o indicador, enquanto entoava alguma 
coisa baixinho. De repente, soltou um grito tremendo.
        - Aiiii!
        Foi fantstico e inesperado. Fiquei apavorado. Vagamente, vi que ele punha o boto de peiote na boca e comeava a mastig-lo. Depois de um momento, pegou 
o saco todo, inclinou-se para mim e me disse, num cochicho, para pegar o saco, escolher um Mescalito, tornar a pr o saco defronte de ns e depois fazer exatamente 
o que ele fazia.
        Peguei um boto de peiote e esfreguei-o como Dom Juan tinha feito. Enquanto isso, ele cantarolava, balanando-se para frente e para trs. Tentei pr o boto 
em minha boca vrias vezes, mas estava encabulado para gritar. Ento, como que num sonho, um grito incrvel partiu de mim: Ahiiii! Por um momento, pensei que fosse 
outra pessoa. Tornei a sentir os efeitos de um choque em meu estmago. Estava caindo de costas. Estava desmaiando. Pus o boto de peiote na boca e mastiguei-o. Depois 
de algum tempo, Dom Juan pegou outro do saco. Fiquei aliviado ao ver que ele o punha na boca depois de um breve canto. Passou-me o saco e eu tornei a coloc-lo diante 
de ns, depois de ter pegado um boto. Este ciclo se repetiu cinco vezes, antes de eu reparar que estava com sede. Peguei o cantil para beber, mas Dom Juan me disse 
que lavasse a boca, sem beber, seno eu podia vomitar.
        Bochechei bem com a gua. Num certo ponto, beber foi uma tentao tremenda, e engoli um pouco de gua. Imediatamente, meu estmago comeou a contorcer-se. 
Esperava ter um fluxo indolor e sem esforo de liquido na boca, como acontecera em minha primeira experincia com o peiote, mas, para surpresa minha, s tive a sensao 
normal do vmito. Mas no durou muito.
        Dom Juan pegou outro boto e me entregou o saco, e o ciclo se renovou e repetiu at que eu tivesse mascado 14 botes. A essa altura, todas as minhas primeiras 
sensaes de sede, frio e desconforto tinham desaparecido. Em seu lugar, senti uma sensao estranha de calor e excitao. Peguei o cantil para refrescar minha boca, 
mas ele estava vazio.
        - Podemos ir ao riacho, Dom Juan?
        O som de minha voz no se projetou para fora, mas chocou-se com o cu de minha boca, voltou a minha garganta e ficou ressonando entre os dois. O eco era 
suave e musical e parecia ter asas, que batiam dentro de minha garganta. Aquele contato me aliviou. Acompanhei seus movimentos para diante e para trs at desaparecer. 
Repetia pergunta. Minha voz tinha o som como se eu estivesse falando dentro de uma tumba.
        Dom Juan no respondeu. Levantei-me e virei-me na direo do riacho. Olhei para ver se ele vinha, mas Dom Juan parecia estar ouvindo alguma coisa com ateno.
        Fez um gesto imperioso com a mo, indicando que eu ficasse quieto.
       - Abutho! (?) j est aqui! - disse ele.
        Nunca tinha ouvido aquela palavra e estava pensando se devia perguntar-lhe a respeito, quando percebi um barulho zunindo em meus ouvidos. O som foi ficando 
mais alto aos poucos, at tornar-se como a vibrao causada por um imenso rugido de touro. Durou s um momento e foi-se apagando at que tudo ficou quieto de novo. 
A violncia e a intensidade do rudo me aterraram. Tremia tanto que mal me sustentava em p, e, no entanto, estava perfeitamente lcido. Se tinha estado sonolento 
alguns minutos antes, essa sensao tinha desaparecido completamente, dando lugar a um estado de extrema lucidez. O barulho me fazia lembrar um filme de fico cientfica 
em que uma abelha gigantesca movia as asas, ao sair de uma zona de radiao atmica. Ri da idia. Vi Dom Juan voltando a sua posio relaxada. E de repente a imagem 
de uma abelha gigantesca tornou a ocorrer-me. Era mais real do que pensamentos normais. Estava sozinha, rodeada por uma claridade extraordinria. Tudo o mais foi 
expulso de minha mente. Esse estado de clareza mental, sem precedentes em minha vida, provocou outro momento de terror.
        Comecei a transpirar. Inclinei-me para Dom Juan para dizer-lhe que estava com medo. O rosto dele estava a alguns centmetros do meu. Estava olhando para 
mim, mas os olhos dele eram olhos de abelha. Pareciam vidros redondos, com uma luz prpria no escuro. Seus lbios estavam protuberantes e deles partia um barulho 
tamborilante: "Petuh-peh-tuhpet-tuh." Dei um salto para trs, quase batendo de encontro ao paredo de pedra. Por uns momentos aparentemente interminveis senti um 
medo insuportvel. Eu estava ofegante e gemendo. O suor tinha-se congelado em minha pele, dando-me uma rigidez desajeitada. Ento, ouvia voz de Dom Juan dizendo:
        - Levante-se! Mexa-se! Levante-se!
       A imagem desapareceu e eu torneia ver seu rosto conhecido.
        - Vou buscar um pouco de gua - disse eu, depois de outro momento interminvel. Minha voz parecia rachada. Mal podia articular as palavras. Dom Juan meneou 
a cabea concordando. Quando me afastei, percebi que meu medo tinha desaparecido to depressa e misteriosamente como tinha vindo.
        Quando me aproximei do riacho, reparei que via todos os objetos do caminho. Lembrei-me de que acabava de ver Dom Juan claramente, enquanto antes eu mal distinguia 
os contornos de seu vulto. Parei e olhei para longe, e at via do outro lado do vale. Umas pedras do outro lado tornaram-se perfeitamente visveis. Achei que devia 
ser de manh cedo, mas ocorreu-me que devia ter perdido noo do tempo. Olhei pesa o relgio. Eram dez para as doze! Verifiquei o relgio para ver se estava funcionando. 
No poma ser meio-dia; tinha de ser meia-noite! Pretendia dar uma corrida at  gua e voltar s pedras, mas vi Dom Juan descendo e esperei por ele. Disse-lhe que 
estava enxergando no escuro.
        Ele fitou-me por muito tempo, sem dizer nada; se falou, talvez eu no o tenha ouvido, pois estava-me concentrando na minha nova e rara faculdade de ver no 
escuro. Distinguia as pedrinhas diminutas na areia. Em certos momentos, as coisas todas estavam to claras que parecia que era de manh cedo. Em seguida, escurecia; 
depois, ficava claro de novo. Logo percebi que a claridade correspondia  distole de meu corao, e a escurido,  sua sstole. O mundo mudava do claro para o escuro 
e para o claro de novo com cada batida de meu corao.
        Estava absorto nessa descoberta, quando o mesmo som estranho que eu j tinha ouvido se fez ouvir de novo. Meus msculos enrijeceram.
        - Anuhctal (foi como entendi a palavra dessa vez) est aqui - disse dom Juan. Imaginei o rugido to trovejante, to avassalador, que nada mais importava. 
Depois que passou, percebi um sbito aumento no volume da gua. O riacho, que um minuto antes era de menos de 30 centmetros de largura, expandiu-se at tornar-se 
um lago imenso. Uma luz que parecia vir de cima dele tocava a superfcie, como se brilhasse atravs de uma folhagem espessa. De vez em quando a gua brilhava por 
um segundo, dourada e negra. Depois ficava escura, sem luz, quase desaparecendo de vista, e no entanto estranhamente presente.
        No me lembro por quanto tempo fiquei ali s olhando, agachado na margem do lago negro. Enquanto isso, o rugido deve ter passado, pois o que me, levou de 
volta ( realidade?) foi novamente um zunido tremendo. Virei-me para procurar Dom Juan. Eu o vi subindo na salincia da pedra e desaparecendo atrs dela. No entanto, 
a sensao de estar sozinho no me aborrecia em absoluto; fiquei ali agachado num estado de completa confiana e abandono. O rugido se fez ouvir outra vez; era muito 
intenso, como o rudo provocado por um vento forte. Escutando com a maior ateno, consegui distinguir uma melodia definida. Era uma miscelnea de sons agudos, como 
vozes humanas, acompanhada de um bombo profundo. Focalizei toda minha ateno na melodia, e tornei a reparar que a sstole e a distole de meu corao coincidiam 
com o som do bombo e com a msica.
        Levantei-me, e a melodia parou. Procurei ouvir a batida de meu corao, mas no consegui. Tornei a agachar-me, pensando que talvez a posio de meu corpo 
tivesse provocado os sons! Mas nada aconteceu! Nem um som! Nem mesmo 0 meu corao! Achei que bastava, mas quando me ia levantando para sair dali, senti a terra 
tremer. A terra debaixo de meus ps estava sacudindo. Eu estava perdendo o equilbrio. Ca para trs e fiquei deitado de costas, enquanto a terra tremia violentamente. 
Tentei segurar uma pedra ou uma planta, mas alguma coisa deslizava por baixo de mim. Levantei-me de um salto, fiquei de p por um momento, e depois tornei a cair. 
A terra em que eu estava sentado estava-se movendo, deslizando para dentro da gua como uma jangada. Fiquei imvel, paralisado por um terror que era, como tudo o 
mais, nico, ininterrupto e absoluto.
        Movia-me pela gua do lado negro empoleirado num torro de terra que parecia uma tora. Tinha a impresso de estar indo para o sul, transportado pela corrente. 
Via a gua se movendo e girando em volta. Estava fria, e estranhamente pesada ao tato. Imaginei que estivesse viva.
        No havia margens ou marcos visveis e no me lembro dos pensamentos nem das sensaes que devo ter tido durante essa viagem. Depois do que me pareceram 
horas de viajar, minha jangada deu uma guinada para a esquerda, para leste. Continuou a viajar na gua por um trecho curto e inesperadamente bateu de encontro a 
alguma coisa. O impacto me atirou para frente. Fechei os olhos e senti uma dor aguda quando meus joelhos e braos esticados bateram na terra. Depois de um momento, 
olhei para cima. Estava deitado no cho. Era como se meu toro de terra se tivesse fundido com o p. Sentei-me e olhei em volta. A gua estava recuando! Movia-se 
para trs, como uma onda recuando, at desaparecer.
        Fiquei ali sentado muito tempo, procurando compor as idias e juntar tudo o que acontecera numa unidade coerente. Estava com o corpo todo dolorido. Minha 
garganta parecia uma chaga aberta; eu tinha mordido os lbios quando "aterrei". Levantei-me. O vento me fez perceber que estava com frio. Minhas roupas estavam molhadas. 
As mos, queixo e joelhos tremiam to violentamente que tive de me deitar de novo. Gotas de transpirao caam em meus olhos e os faziam arder, at eu gritar de 
dor.
        Depois de algum tempo, recuperei um pouco de estabilidade e levantei-me. No lusco-fusco, a cena era muito clara. Dei alguns passos. Ouvi um som ntido de 
muitas vozes humanas. Pareciam estar falando alto. Acompanhei o som; andei uns 50 metros e parei de repente. Tinha chegado a um beco sem sada. O lugar em que eu 
estava era um curral formado por rochas imensas. Distinguia outra fileira delas, depois outra e mais outra, at se fundirem na montanha. Do meio delas vinha a msica 
mais suave. Era um fluxo fluido, ininterrupto e misterioso de sons.
        Ao p de um dos rochedos, vi um homem sentado no cho, o rosto virado quase de perfil. Aproximei-me dele at estar a uns trs metros de distncia; ele virou 
a cabea e olhou para mim. Parei. . . seus olhos eram a gua que eu acabava de ver! Tinham o mesmo volume enorme, o brilho de ouro e negro. A cabea dele era pontuda 
como um morango; sua pele era verde, cheia de muitas verrugas. A no ser a forma pontuda, a cabea dele era exatamente igual  superfcie da planta de peiote. Fiquei 
defronte dele, olhando; no conseguia afastar os olhos dele. Senti que ele estava propositadamente empurrando meu peito com o peso de seus olhos. Eu estava sufocando. 
Perdi o equilbrio e ca no cho. Desviou o olhar. Ouvi que falava comigo. A princpio, a voz dele era como 0 farfalhar de uma brisa suave. Depois a ouvi como uma 
msica - uma melodia de vozes - e "sabia" que estava dizendo: "O que quer?"
        Ajoelhei-me diante dele e falei sobre a minha vida e depois chorei. Tornou a olhar para mim. Senti que seus olhos me puxavam e pensei que aquele momento 
seria o momento de minha morte. Fez-me sinal para me aproximar. Vacilei por um momento antes de me adiantar um passo. Quando me aproximei, desviou os olhos de mim 
e mostrou-me as costas da mo. A melodia dizia: "Olhe!" Havia um furo redondo no meio da mo dele. "Olhe!", tornou a dizer a melodia. Olhei atravs do buraco e vi 
minha prpria imagem. Eu estava muito velho e fraco e estava correndo encurvado, com fascas brilhantes voando em volta de mim. Ento, trs das fagulhas me atingiram, 
duas na cabea e uma no ombro esquerdo. A figura, no buraco, ergueu-se por um momento, at estar inteiramente vertical, e depois desapareceu com o buraco.
        Mescalito voltou novamente seus olhos para mim. Estavam to perto de mim que eu os "ouvi" ribombar baixinho com aquele rudo especial que eu j ouvira tantas 
vezes naquela noite. Foram-se aquietando aos poucos, at se tornarem como uma lagoa tranqila, arrepiada por brilhos dourados e negros.
        Desviou o olhar de novo e saltou como um grilo por uns 50 metros. Pulou vrias vezes e depois desapareceu.
        Quando dei por mim de novo, comecei a andar. Muito racionalmente, procurei reconhecer certos pontos, como as montanhas  distncia, a fim de me orientar. 
Em toda a experincia, eu tinha estado obcecado com os pontos cardiais, e acreditava que o norte tinha de estar  minha esquerda. Caminhei naquela direo por algum 
tempo, antes de compreender que era dia, e que eu no estava mais usando minha "viso noturna". Lembrei-me de que tinha um relgio e olhei as horas. Marcava oito 
horas.
        Eram quase dez horas quando cheguei  salincia onde tinha estado na noite anterior. Dom Juan estava deitado no cho, dormindo.
        - Onde voc esteve? - perguntou ele.
        Sentei-me para tomar flego. Depois de um longo silncio, ele perguntou:
        - Voc o viu?
        Comecei a lhe contar a seqncia de minhas experincias desde o princpio, mas ele me interrompeu, dizendo que s 0 que interessava era se eu o havia visto 
ou no. Perguntou-me a que distncia Mescalito tinha estado de mim. Disse-lhe que quase o havia tocado.
        Essa parte de minha histria interessou-lhe. Escutou atentamente todos os detalhes sem comentrios, interrompendo somente para fazer perguntas a respeito 
da forma do ser que eu tinha visto, sua disposio e outros detalhes. Era mais ou menos meio-dia quando Dom Juan pareceu estar satisfeito com minha histria. Levantou-se 
e prendeu um saco de lona em meu peito, disse-me que andasse atrs dele e que ia soltar Mescalito e que eu tinha de receb-lo em minhas mos e coloc-lo no saco 
com delicadeza.
        Bebemos um pouco de gua e comeamos a caminhar. Quando chegamos  borda do vale, ele pareceu hesitar um momento, antes de decidir qual a direo a tomar. 
Quando resolveu, comeamos a andar em linha reta.
        Cada vez que chegvamos a uma planta de peiote, agachava-se defronte dela e com muito cuidado cortava a ponta com sua faquinha serrilhada. Fazia uma inciso 
paralela ao solo e polvilhava a "ferida", conforme ele a chamava, com um p de enxofre puro que trazia num saquinho de couro. Segurava o boto novo em sua mo esquerda 
e espalhava o p com a direita. Depois se levantava e me entregava o boto, que eu recebia com ambas as mos, conforme ele ensinara, e colocava no saco.
        - Fique reto e no deixe o saco encostar no cho nem nos arbustos nem em nada - repetia ele, como se achasse que eu ia esquecer.
        Colhemos 65 botes. Quando o saco estava completamente cheio, colocou-o em minhas costas e prendeu um novo em meu peito. Quando atravessamos o planalto, 
j tnhamos dois sacos cheios, contendo 110 botes de peiote. Os sacos eram to pesados e volumosos que eu mal podia andar com aquele peso e volume.
        Dom Juan me cochichou que os sacos estavam pesados porque Mescalito queria voltar  terra. Disse que era a tristeza de deixar sua morada que fazia Mescalito 
pesar; meu verdadeiro trabalho era no deixar que os sacos tocassem no cho, pois, se isso acontecesse, Mescalito nunca permitiria que eu tornasse a peg-lo.
        Num dado momento, a presso das tiras em meus ombros tornou-se insuportvel. Alguma fora estava exercendo uma presso tremenda para me puxar para baixo. 
Eu estava muito apreensivo, e reparei que tinha comeado a andar mais depressa, quase correndo; de certo modo, estava trotando atrs de Dom Juan.
        De repente, o peso em minhas costas e meu peito diminuiu. O fardo tornou-se leve. Corri livremente para alcanar Dom Juan, que estava a minha frente. Disse-lhe 
que no estava mais sentindo o peso. Ele explicou que j tnhamos sado da morada de Mescalito.

3 de julho de 1962

       - Acho que Mescalito j quase o aceitou - disse Dom Juan.
       - Por que diz que ele quase me aceitou, Dom Juan?
       - Ele no o matou, nem lhe fez mal. Deu-lhe um bom susto, mas no foi srio. Se ele no o tivesse aceito de todo, ter-lhe-ia aparecido como monstruoso e cheio 
de raiva. Algumas pessoas aprenderam o significado do horror, quando o encontraram e no foram aceitos por ele.
       - Se ele  to terrvel, por que no me contou a respeito antes de me levar ao campo?
       - Voc no tem coragem para procur-lo propositadamente, Achei melhor voc no saber.
       - Mas eu podia ter morrido, Dom Juan!
       - Sim, podia. Mas eu tinha certeza de que tudo se iria bem com voc. Ele brincou com voc uma vez. No lhe fez mal. Achei que tambm desta vez teria compaixo 
de voc.
       Perguntei-lhe se achava realmente que Mescalito tivera compaixo de mim. A experincia fora aterradora; parecia-me que eu quase morrera de susto.
       Ele disse que Mescalito tinha sido muito bom comigo; mostrara-me uma cena que era uma resposta a uma pergunta. Juan disse que Mescalito me dera uma lio. 
Perguntei-lhe qual a lio e o que significava. Respondeu que seria impossvel responder quela pergunta porque eu estava com medo para saber exatamente o que perguntara 
a Mescalito.
        Dom Juan perscrutou minha memria sobre o que eu dissera a Mescalito antes de ele me mostrar a cena em sua mo. Mas eu no conseguia lembrar-me. S me lembrava 
de ter cado de joelhos e "confessado meus pecados" a ele.
        Dom Juan no pareceu interessado em continuar a falar respeito. Perguntei-lhe:
        - Pode ensinar-me a letra das cantigas que cantou?
        - No posso, no. Aquelas palavras so minhas, palavras que o prprio protetor me ensinou. As canes so minhas canes. No lhe posso dizer o que so.
        - Por que no pode dizer-me, Dom Juan?
        - Porque essas canes so um elo entre o protetor e eu. Estou certo de que um dia ele lhe ensinar suas prprias canes. Espere at ento; e nunca, mas 
nunca mesmo, copie ou fao perguntas sobre canes que pertencem a outro.
        - Qual foi o nome que voc falou? Pode dizer-me isso, Dom Juan?
        - No. O nome dele nunca pode ser dito, a no ser para cham-lo.
        - E se eu o quiser chamar, eu mesmo?
        - Se algum dia ele o aceitar, ele lhe dir seu nome. Esse nome ser s para voc usar, ou para cham-lo em voz alta ou para murmurar baixinho para si. Talvez 
lhe diga que o nome dele  Jos. Quem sabe?
        - Por que  errado usar o nome dele quando se fala dele?
        - Voc j viu os olhos dele, no viu? No se pode brincar com um protetor. E por isso que no me consigo habituar com a idia de que ele quis brincar com 
voc!
        - Como  que ele pode ser protetor se faz mal a algumas pessoas?
        - A resposta  muito simples. Mescalito  um protetor porque ele est  disposio de todos os que o procuram.
        - Mas no  verdade que tudo no mundo est  disposio de todos que o procuram?
        - No, isso no  verdade. Os poderes aliados s esto disponveis para os brujos, mas qualquer pessoa pode ter parte de Mescalito.
        - Mas ento por que ele faz mal a algumas pessoas?
        - Nem todos gostam de Mescalito; no entanto, todos o procuram com o intuito de se aproveitarem, sem qualquer trabalho. Naturalmente, o encontro dessas pessoas 
com ele  sempre horripilante.
        - O que acontece quando ele aceita uma pessoa completamente?
        - Ele aparece a essa pessoa como um homem, ou como uma luz. Quando uma pessoa consegue esse tipo de aceitao, Mescalito  constante. Depois disso, ele nunca 
muda. Talvez quando voc q encontrar de novo ele seja uma luz, e algum dia ele poder at lev-lo para voar e lhe revelar todos os seus segredos.
        - O que devo fazer para chegar a esse ponto, Dom Juan?
        - Tem de ser um homem forte, e sua vida tem de ser verdadeira.
        - O que  uma vida verdadeira?
        - Uma vida vivida com propsito, uma vida forte e boa.

5
        Dom Juan indagava periodicamente, com naturalidade, a respeito do estado de minha planta Datura. No ano que se passou desde que eu plantei de novo a raiz, 
a planta, cresceu e se tornou um arbusto grande. Tinha sementeado e as sementes tinham secado. E Dom Juan achou que estava na hora de eu aprender mais a respeito 
da erva-do-diabo.

Domingo, 27 de janeiro de 1963

       Hoje Dom Juan deu-me a informao preliminar sobre a "segunda poro" da raiz de Datura, o segundo passo para aprender a tradio. Ele disse que a segunda 
poro da raiz o verdadeiro princpio da aprendizagem; comparada com a primeira poro era brincadeira de criana. A segunda poro tinha de ser dominada; tinha 
de ser absorvida pelo menos 20 vezes, disse ele, antes de se poder passar ao terceiro passo.
       - O que faz a segunda poro? - perguntei.
       - A segunda poro da erva-do-diabo  usada para ver. Com ela, o homem pode flutuar pelo ar para ver o que se passa qualquer lugar que ele queira.
       - O homem pode mesmo voar pelo ar, Dom Juan?
       - Por que no? Como j lhe disse, a erva-do-diabo  para aqueles que buscam o poder. O homem que domina a segunda poro pode usar a erva-do-diabo para fazer 
coisas inimaginveis, para conquistar mais poder.
       - Que tipo de coisas, Dom Juan?
       - No lhe posso dizer. Cada homem  diferente.

Segunda-feira, 28 de janeiro de 1963

        - Se voc completar o segundo passo com xito, s poderei mostrar-lhe mais um passo - disse Dom Juan. - Durante a aprendizagem sobre a erva-do-diabo, compreendi 
que ela no servia para mim, e no continuei mais no seu caminho.
        - O que o levou  se decidir assim, Dom Juaa?
        - A erva-do-diabo quase me matava cada vez que eu tentava us-la. Uma vez foi to ruim que eu pensei que estava liquidado. No entanto, eu podia ter evitado 
todo esse sofrimento.
        - Como? H um meio especial de se evitar o sofrimento?
        - Sim, h um Meio.
        -  uma frmula, um processo, ou o qu?
        -  um modo de se agarrar as coisas. Por exemplo, quando eu estava aprendendo a respeito da erva-do-diabo, era por demais ansioso. Agarrava as coisas assim 
como as crianas agarram bala. A erva-do-diabo  apenas um entre um milho de caminhos. Tudo  um entre um milho de caminhos (un comino entre cantidades de caminos). 
Portanto, voc deve sempre manter em mente que um caminho no  mais do que um caminho; se achar que no deve segui-lo, no deve permanecer nele, sob nenhuma circunstncia. 
Para ter uma clareza dessas,  preciso levar uma vida disciplinada. S ento voc saber que qualquer caminho no passa de um caminho, e no h afronta, para si 
nem para os outros, em larg-lo se  isso o que seu corao lhe manda fazer. Mas sua deciso de continuar no caminho ou larg-lo deve ser isenta de medo e de ambio. 
Eu lhe aviso. Olhe bem para cada caminho, e com propsito. Experimente-o tantas vezes quanto achar necessrio. Depois, pergunte-se, e s a si, uma coisa. Essa pergunta 
 uma que s os muito velhos fazem. Meu benfeitor certa vez me contou a respeito, quando eu era jovem, e meu sangue era forte demais para poder entend-la. Agora 
eu a entendo. Dir-lhe-ei qual : esse caminho tem corao? Todos os caminhos so os mesmos: no conduzem a lugar algum. So caminhos que atravessam o mato, ou que 
entram no mato. Em minha vida posso dizer que j passei por caminhos compridos, mas no estou em lugar algum. A pergunta de meu benfeitor agora tem um significado. 
Esse caminho tem um corao? Se tiver, o caminho  bom; se no tiver, no presta. Ambos os caminhos no conduzem a parte alguma; mas um tem corao e o outro no. 
Um torna a viagem alegre; enquanto voc o seguir, ser um com ele. O outro o far maldizer sua vida. Um o torna forte; o outro o enfraquece.

Domingo, 21 de abril de 1963

        Na tarde de tera-feira, 16 de abril, Dom Juan e eu fomos pata os morros onde esto suas plantas de Datura. Pediu-me que o deixasse sozinho l, e que o esperasse 
no carro. Voltou quase trs horas depois, carregando um embrulho envolto num pano vermelho. Quando comeamos a voltar para casa, ele mostrou o embrulho e disse que 
era seu ltimo presente para mim.
        Perguntei se ele queria dizer que no ia mais me ensinar. Explicou que se referia ao fato de eu ter uma planta completamente madura e no precisar mais das 
plantas dele.
        No fim da tarde, ns nos sentamos no seu quarto; ele pegou um almofariz e pilo muito bem acabados. O almofariz tinha uns, 15 centmetros de dimetro. Ele 
desfez um embrulho grande, cheio de pacotinhos, escolheu dois e colocou-os numa esteira a meu lado; depois, juntou mais quatro pacotinhos do mesmo tamanho do embrulho 
que ele tinha trazido para casa. Disse que eram sementes, e que eu teria de mo-las fiara fazer um p fino. Abriu o primeiro pacote e ps parte do contedo no almofariz. 
As sementes eram secas, redondas e de uma cor de caramelo amarelado.
        Comecei a trabalhar com o pilo; depois de certo tempo, ele me corrigiu. Disse que eu primeiro empurrasse o pilo de encontro a um dos lados do almofariz 
e depois o passasse pelo indo, subindo pelo outro lado. Perguntei o que ele ia fazer com o p. Ele no quis falar a respeito.
        A primeira batelada de sementes era extremamente dura de moer. Levei quatro horas para terminar. Minhas costas me doam devido  posio em que me sentei. 
Deitei-me e queria dormir ali mesmo, mas Dom Juan abriu o segundo pacotinho e despejou parte do contedo dentro do almofariz. Dessa vez, as sementes eram um pouco 
mais escuras do que as primeiras, e estavam aglomeradas. O resto do contedo do pacote era uma espcie de p, feito de grnulos pequeninos, redondos e escuros.
        Eu queria comer alguma coisa, mas Dom Juan disse que, se eu quisesse aprender, tinha de seguir as regras, e estas diziam que eu s podia beber um pouquinho 
de gua enquanto estivesse aprendendo os segredos da segunda poro.
        O terceiro saquinho continha um punhado de gorgulhos vivos, pretos. E no ltimo pacote havia sementes frescas e brancas, quase pastosas de to macias, mas 
fibrosas e difceis de moer numa pasta fina, como ele esperava que eu fizesse. Depois que acabei de moer o contedo dos quatro pacotes, Dom Juan mediu duas xcaras 
de uma gua esverdeada, despejou-a numa panela de barro e a ps no fogo. Quando a gua ferveu, despejou a primeira batelada de sementes trituradas. Mexeu a mistura 
com um pedao de madeira ou de osso longo e pontudo, que tinha na bolsa de couro. Assim que a gua tornou a ferver, despejou as outras substncias uma por uma, seguindo 
o mesmo processo. Depois, juntou mais uma xcara da mesma gua e deixou a mistura ferver no fogo brando.
        Ento, disse-me que estava na hora de amassar a raiz. Com cuidado, extraiu um pedao comprido da raiz de Datura do embrulho que tinha levado para casa. A 
raiz tinha uns 40 centmetros de comprimento. Era grossa, tendo talvez uns trs centmetros de dimetro. Falou que era a segunda poro, e novamente mediu a segunda 
poro ele mesmo, pois ainda era a raiz dele. Disse que da prxima vez que eu experimentasse a erva-do-diabo teria de medir minha prpria raiz.
        Empurrou-me o grande almofariz e eu passei a moer a raiz exatamente da mesma maneira como ele tinha modo a primeira poro. Dirigiu-me nos mesmos passos 
e mais uma vez deixamos a raiz amassada de molho na gua, exposta ao sereno. A essa altura, a mistura fervente tinha-se solidificado na panela de barro. Dom Juan 
tirou a panela do fogo, colocou-a dentro de uma sacola de linha e pendurou-a numa viga no meio do quarto.
        Por volta das oito horas da manh, no dia 17 de abril, Dom Juan e eu comeamos a lixiviar o extrato da raiz com gua. Era um dia lmpido, ensolarado, e Dom 
Juan interpretou o bom tempo como um augrio de que a erva-do-diabo gostava de mim; disse que quando eu estava presente, ele s podia lembrar-se de como ela tinha 
sido malvada com ele.
        O processo que usamos na lixvia do extrato de raiz foi p mesmo que eu tinha observado na primeira poro. No fim da tarde, depois de despejar a gua de 
cima pela oitava vez, havia uma colherada de uma substncia amarelada no fundo da panela.
        Voltamos ao quarto dele, onde ainda havia dois saquinhos, que ele ainda no tinha tocado. Abriu um deles, meteu a mo Ah e amassou a ponta aberta em volta 
do pulso, com a outra mo. Parecia estar segurando alguma coisa, a julgar pelo modo como sua mo se mexia dentro do saco. De repente, com um gesto brusco, tirou 
o saco da mo como quem descala uma ao virando-o do avesso, e empurrou a mo para junto do meu rosto. Estava segurando um lagarto. A cabea do bicho estava a poucos 
centmetros de meus olhos. Havia alguma coisa estranha na boca do lagarto. Fiquei um momento olhando para ela, e depois recuei involuntariamente. A boca do ficho 
estava cozida com pontos grosseiros. Dom Juan mandou que eu segurasse o lagarto com minha mo esquerda. Agarrei-o e ele se contorceu na minha palma. Eu estava enjoado. 
Minhas mos estavam molhadas de suor.
        Dom Juan pegou o ltimo saquinho e, repetindo os mesmos gestos, tirou outro lagarto. Tambm o segurou junto do meu rosto. Vi que seus olhos estavam cozidos. 
Mandou que eu segurasse esse lagarto na minha mo direita.
        Quando peguei os dois lagartos nas duas mos, eu j estava quase vomitando. Sentia um desejo imenso de larg-los o sair dali.
       - No os aperte! - disse ele, e sua voz me devolveu sentido de alvio e de direo. Perguntou-me o que  que havia comigo. Tentou ficar srio, mas no conseguiu 
e desatou a rir. Tentei afrouxar os dedos, mas minhas mos estavam transpirando tanto que os lagartos comearam a se contorcer tentado sair delas. Suas garrinhas 
afiadas arranhavam minhas mos, provocando uma sensao incrvel de nojo e nusea. Fechei os olhos e trinquei os dentes. Um dos lagartos j estava escorregando para 
meu pulso; bastava livrar a cabea de entre meus dedos para libertar-se. Tive uma sensao esquisita de desespero fsico e um supremo desconforto. Rosnei para Dom 
Juan, entre os dentes, para me livrar das malditas coisas. Minha cabea sacudia, involuntariamente. Ele olhou para mim, curioso. Eu rosnava como um urso, sacudindo 
o corpo. Ps os lagartos em seus saquinhos e comeou a rir. Eu tambm queria rir, mas estava com o estmago virado. Deitei-me.
        Expliquei-lhe que o que me afetara era a sensao das garras deles nas minhas palmas; ele disse que havia muitas coisas que podiam enlouquecer uma pessoa, 
especialmente se ela no tivesse a resoluo e o propsito necessrios para aprender; mas que quando um homem tinha um esprito claro e inflexvel, os sentimentos 
no eram em absoluto um obstculo, pois ele era capaz de control-los.
        Dom Juan esperou um pouco, e depois, com os mesmos gestos, tornou a entregar-me os lagartos. Disse-me que segurasse as cabeas deles para cima e os esfregasse 
de leve contra minhas tmporas enquanto lhes perguntava qualquer coisa que quisesse saber.
        A princpio, no entendi o que ele queria que eu fizesse. Tornou a dizer-me que perguntasse aos lagartos a respeito de qualquer coisa que eu no pudesse 
descobrir sozinho. Deu-me uma srie de exemplos: podia saber a respeito de pessoas que eu no via habitualmente, ou sobre objetos perdidos, ou lugares que eu no 
tinha visto. Ento, percebi que ele estava falando a respeito de adivinhao. Fiquei muito entusiasmado. Meu corao comeou a bater com fora. Senti que estava 
perdendo o flego.
        Advertiu-me de que no fizesse perguntas pessoais, da primeira vez; disse que eu devia pensar em alguma coisa que no tivesse nenhuma relao comigo. Eu 
tinha de pensar depressa e com clareza, pois no haveria jeito de inverter meus pensamentos.
        Tentei desesperadamente pensar em alguma coisa que eu quisesse saber. Dom Juan me incitava imperiosamente, e fiquei espantado ao ver que no havia nada que 
eu quisesse "perguntar" aos lagartos.
        Depois de uma espera dolorosamente longa, pensei numa coisa. Algum tempo atrs, um nmero grande de livros tinha sido roubado de uma sala de leitura. No 
era um assunto pessoal, e no entanto eu estava interessado naquilo. No tinha idias preconcebidas sobre a identidade da pessoa ou pessoas que tinham tirado os livros. 
Esfreguei os lagartos de encontro s tmporas, perguntando-lhes quem era o ladro.
        Depois de algum tempo, Dom Juan colocou os lagartos dentro de seus sacos e disse que no havia grandes segredos quanto  raiz e  pasta. A pasta era feita 
para dar a direo; a raiz tornava as coisas claras. Mas o verdadeiro mistrio eram os lagartos. Eram o segredo de todo o feitio da segunda poro, disse ele. Perguntei 
se era algum tipo especial de lagartos. Respondeu que eram. Tinham de vir da regio da planta da pessoa; tinham de ser amigos da gente. E para se ter lagartos como 
amigos, disse ele, era preciso um longo perodo de preparao. Era preciso desenvolver uma slida amizade com eles, dando-lhes comida e dizendo-lhes palavras amveis.
        Perguntei por que a amizade deles era to importante. Ele disse que os lagartos s se deixavam apanhar se conhecessem o homem, e quem quer que levasse a 
srio a erva-do-diabo tinha de tratar os lagartos com seriedade. Disse que, em geral, os lagartos deviam ser apanhados depois que a pasta e a raiz fossem preparadas. 
Deviam ser apanhados no fim da tarde. Se a pessoa no fosse ntima dos lagartos, disse ele, podia-se passar dias e dias tentando captur-los, sem o conseguir; e 
a pasta s dura um dia. Ento, deu-me uma longa srie de instrues a respeito do processo a seguir depois de unhados os lagartos.
        - Uma vez apanhados os bichos, ponha-os em sacos separados. Depois, pegue o primeiro e fale com ele. Pea desculpas por machuc-lo e pea que o ajude. E 
com uma agulha de madeira, costure-lhe a boca. Use fibras de agave e um espinho de choya para costurar. Aperte bem os pontos. Em seguida, diga as mesmas coisas ao 
outro lagarto e costure-lhe as plpebras. Quando a noite comear a cair, voc estar pronto. Pegue o lagarto com a boca costurada e explique-lhe o assunto que voc 
quer saber. Pea que ele v ver por voc; diga-lhe que teve de lhe costurar a boca para ele voltar depressa para voc, sem falar com mais ningum. Deixe que ele 
ande pela pasta, depois de a ter esfregado na cabea dele; depois, ponha-o no cho. Se ele for na direo de sua boa forte, o feitio ter xito e ser fcil. Se 
for na direo oposta, no ter sucesso. Se o lagarto se dirigir para voc (sul), pode gerar mais do que uma boa sorte comum; mas se ele se dirigir para longe de 
voc (norte), o feitio ser muito difcil. Voc poder at morrer! Por isso, se ele se afastar de voc, ser um bom momento para desistir. Nesse ponto, voc pode 
tear a deciso de desistir. Se o fizer, perder sua faculdade de comandar os lagartos, mas isso  melhor do que perder a lida. Por outro lado, pode resolver continuar 
o feitio, a despeito de minha advertncia. Se o fizer, o passo seguinte  pegar o outro lagarto e dizer-lhe que escute a histria do irmo depois a descreva a voc.
        - Mas como  que o lagarto de boca costurada pode dizer-me o que v? A boca dele no foi fechada para evitar que ele fale?
        - Costurara boca do bicho impede que ele conte a histria para estranhos. Diz-se que os lagartos so tagarelas, que param para falar em toda parte. De qualquer 
forma, o passo seguinte  besuntar pasta na cabea do bicho, e depois esfregar a cabea dele na sua tmpora direita, conservando a pasta longe do centro de sua testa. 
No princpio de sua aprendizagem ser uma boa idia prender o lagarto a seu ombro direito com um cordo. Ento, voc no o perder nem lhe far mal. Mas,  medida 
que voc for progredindo e se familiarizar com o poder da erva-do-diabo, os lagartos vo aprendendo a obedecer s suas ordens e ficaro empoleirados em seu ombro. 
Depois de espalhar a pasta em sua tmpora direita com o lagarto, mergulhe os dedos das duas mos na papa; primeiro esfregue-a nas duas tmporas e depois espalhe-a 
nos dois lados de sua cabea. A pasta seca muito depressa, e pode ser aplicada tantas vezes quantas for necessrio. Comece todas as vezes usando primeiro a cabea 
do lagarto e depois seus dedos. Mais cedo ou mais tarde o lagarto que foi ver volta e conta ao irmo a respeito da viagem, e o lagarto cego a descreve corso se voc 
fosse da espcie deles. Quando o feitio terminar, voc pe o lagarta no cho e o deixa partir, mas no espia onda ele vai. Cave um buraco fundo com as suas mos 
e enterre nele tudo o que usou.
        Por volta das seis da tarde, Dom Juan raspou o extrato de raiz da panela para cima de uma pedra chata; havia menos de uma colher de ch de uma goma amarelada. 
Ps a metade numa xcara e juntou um pouco de gua amarelada. Girou a xcara na mo, para dissolver a substncia. Depois, deu-me a xcara e disse-me que bebesse 
a mistura. No tinha gosto, mas deixou um sabor meio amargo em minha boca. A gua estava quente demais, e isso me aborreceu. Meu corao comeou a disparar, mas 
logo me acalmei.
        Dom Juan pegou a outra vasilha com a pasta. Esta parecia slida e tinha uma superfcie lustrosa. Tentei meter o dedo na crosta, mas Dom Juan deu um salto 
para mim e empurrou minha mo para longe da vasilha. Ficou muito aborrecido; disse que era muita tolice de minha parte fazer aquilo, e que se eu realmente quisesse 
aprender no devia ser descuidado. Aquilo era o poder, disse ele, apontando para a pasta, e ningum sabia dizer ao certo que tipo de poder era realmente.
       J era bem ruim termos de mexer com aquilo para nossos prprios fins - coisa que no podemos deixar de fazer porque somos homens, disse ele - mas pelo menos 
podamos trat-lo com o devido respeito. A mistura assemelhava-se  aveia. Parece que tinha suficiente amido para lhe dar aquela consistncia. Pediu-me para pegar 
os sacos com os lagartos. Segurou o lagarto com a boca costurada e com cuidado entregou-o a mim. Fez-me peg-lo com a mo esquerda e disse que eu pegasse um pouco 
da pasta com o dedo e a esfregasse na cabea do lagarto e depois pusesse o lagarto na panela e o segurasse ali at a pasta cobrir todo o corpo dele.
        Em seguida, disse para eu tirar o lagarto da panela. Pegou esta e me levou a um local cheio de pedras, no muito longe da sua casa. Apontou para uma pedra 
grande e me disse para sentar diante dela, como se fosse minha planta de Datura e, segurando o lagarto diante de meu rosto, que eu lhe explicasse de novo o que queria 
saber, e pedir-lhe que fosse descobrir a resposta para mim. Aconselhou-me que dissesse ao lagarto que eu sentia muito ter de lhe causar algum desconforto, prometendo-lhe 
que seria bondoso para com todos os lagartos, em compensao. Depois, disse que eu o segurasse entre o terceiro e quarto dedos de minha mo esquerda, onde ele uma 
vez tinha feito um corte, e que eu danas e volta da pedra fazendo exatamente o que fizera quando tinha replantado a raiz da erva-do-diabo; perguntou-me se eu me 
lembrava de tudo o que tinha feito naquela ocasio. Respondi que sim. Frisou que tudo tinha de ser igualzinho, e que, se eu no me lembrasse, tinha de esperar at 
que tudo ficasse claro em minha cabea. Avisou-me com veemncia que, se eu agisse muito depressa, sem deliberao, eu me machucaria. Sua ltima instruo foi no 
sentido de que eu colocasse o lagarto de boca costurada no cho e olhasse para ver onde ele ia, para poder verificar o resultado da experincia. Disse que eu no 
devia desviar os olhos do lagarto, nem por um instante, pois era um truque comum dos lagartos distrarem a gente e depois fugirem. Ainda no estava completamente 
escuro. Dom Juan olhou para o cu.
       - Vou deix-lo sozinho - disse ele, afastando-se.
        Segui todas as instrues e depois coloquei o lagarto no cho. Ele ficou imvel onde eu o colocara. Depois, olhou para mim e correu para as pedras no leste 
e desapareceu entre elas.
        Sentei-me no cho diante da pedra, como se estivesse em frente de minha planta. Uma tristeza profunda envolveu-me. Fiquei pensando no lagarto com sua boca 
costurada. Pensei em sua estranha viagem e em como me tinha olhado antes de fugir. Era um pensamento estranho, uma projeo aborrecida. A meu jeito, eu tambm era 
um lagarto, em outra estranha jornada. Meu destino talvez fosse apenas ver; naquele momento, eu sentia que nunca seria capaz de contar o que tinha visto. A essa 
altura, j estava muito escuro. Eu mal podia ver as pedras a minha frente. Pensei nas palavras de Dom Juan: "O crepsculo  a fresta entre os mundos."
        Depois de muito hesitar, comecei a seguir os passos determinados. A pasta, embora parecesse aveia, no tinha a consistncia da aveia. Era muito lisa e fria. 
Tinha um cheiro especial e forte. Produzia uma sensao de frio na pele e secava depressa. Esfreguei minhas tmporas onze vezes, sem observar qualquer efeito. Procurei 
cuidadosamente perceber qualquer modificao na percepo ou no estado de esprito, pois nem sabia o que devia antecipar. Na verdade, no tinha idia da natureza 
da experincia, e estava  procura de indcios.
        A pasta tinha secado e descascado em parte de minhas tmporas. Ia esfregar mais, quando percebi que estava sentado de ccoras, como os japoneses. Antes, 
estava sentado de pernas cruzadas, e no me lembrava de ter mudado de posio. Levei algum tempo para perceber plenamente que eu estava sentado no cho numa espcie 
de claustro com arcos altos. Achei que eram arcos de tijolos, mas, ao examin-los, vi que eram de pedra.
        A transio foi muito difcil. Veio to de repente que eu no estava pronto para acompanh-la. Minha percepo dos elementos da viso era difusa, como se 
eu estivesse sonhando. E no entanto, os componentes no mudavam. Continuavam constantes e eu podia parar ao lado de qualquer deles e examin-los. A viso no era 
to clara nem to real quanto a provocada pelo peiote. Tinha um carter nebuloso, uma qualidade pastel muito agradvel.
        Pensei se poderia levantar-me ou no, e quando vi j me tinha movido. Estava no topo de uma escadaria e H., uma amiga minha, estava ao p da escada. Tinha 
os olhos febris e neles havia um brilho de loucura. Ela riu alto e com uma tal intensidade que se tornava aterradora. Comeou a subir as escadas. Eu queria fugir 
ou me esconder, pois ela "j tinha sido louca". Foi essa a idia que me veio  mente. Escondi-me por detrs de uma coluna e ela passou por mim sem olhar. "Ela agora 
vai fazer uma longa viagem" foi outra idia que ocorreu ento; e por fim, o ltimo pensamento de que me recordo foi: "Ela ri cada vez que est prestes a endoidecer."
        De repente, a cena tornou-se muito clara; no parecia mais um sonho. Era uma cena comum, mas eu parecia estar olhando atravs de vidraas. Tentei tocar uma 
coluna, mas s senti que no me podia mover; mas eu sabia que poderia ficar ali o tempo que quisesse, olhando a cena. Eu estava nela, e no entanto no fazia parte 
dela.
        Experimentei uma barragem de pensamentos e argumentos racionais. Ao que eu soubesse, eu estava num estado normal de conscincia sbria. Todos os elementos 
pertenciam ao temo de meus processos normais. E no entanto eu sabia que no era um estado comum.
        A cena mudou abruptamente. Era de noite. Eu estava no hall de um edifcio. A escurido dentro do prdio me fez sentir que na cena anterior o Sol tinha sido 
lindamente brilhante. No entanto, tinha sido to comum que na ocasio eu nem tinha reparado. Quando olhei mais para a nova viso, vi um rapaz saindo de uma sala, 
carregando um grande saco de lona nos ombros. No sabia quem ele era, embora o tivesse teto uma ou duas vezes. Passou por mim e desceu as escadas. A, essa altura 
eu tinha esquecido minha apreenso e meus dilemas racionais. "Quem  aquele camarada?", pensei. "Por que  que o vi?"
       A cena tornou a mudar e eu estava vendo o rapaz danificado livros; ele colava algumas das pginas juntas, apagava marcas e o mais. Depois, eu o vi arrumando 
os livros em num caixote de madeira. Havia uma pilha de caixotes. No estavam no quarto dele, e sim num depsito. Outras imagens me vieram  cabea, mas no eram 
claras. A cena tornou-se nublada. Tive uma sensao de estar girando.
       Dom Juan sacudiu-me pelo ombro e eu acordei. Ajudou-me a levantar e ns voltamos para a casa dele. Tinham-se trs horas e meia desde o momento em que eu comecei 
a esfregar a pasta em minhas tmporas at o momento em que acordei, mas o estado de viso no podia ter durado mais e dez minutos. No senti nenhum efeito malfico. 
S com fome e sono.
       
Quinta-feira, 18 de abril de 1963

        Ontem, Dom Juan me pediu para descrever minha experincia recente, mas eu estava com muito sono para poder falar a respeito. No conseguia concentrar-me. 
Hoje, assim que acordei, tornou a pedir.
        - Quem lhe disse que essa moa H. tinha estado louca? - perguntou ele, quando acabei a histria.
        - Ningum. Foi apenas um dos pensamentos que tive.
        - Voc acha que eram seus pensamentos?
        Respondi-lhe que eram meus pensamentos, embora no tivesse motivo algum para pensar que H. tinha estado doente. Eram pensamentos estranhos. Pareciam brotar 
em minha cabea no sei de onde. Olhou para mim com curiosidade. Perguntei-lhe se no me acreditava; ele riu e disse que era costume meu ser descuidado com o que 
fazia.
        - O que foi que eu fiz de errado, Dom Juan?
        - Voc devia ter escutado os lagartos.
        - Como eu devia ter escutado?
        - O lagartinho no seu ombro estava descrevendo tudo o que o irmo estava vendo. Estava falando com voc. Estava-lhe contando tudo, e voc no prestou ateno. 
Ao contrrio, pensou que as palavras do lagarto eram seus prprios pensamentos.
        - Mas eram mesmo os meus pensamentos, Dom Juan.
        - No eram.  esta a natureza desse feitio. Na verdade, a viso  para ser escutada, mais do que vista. A mesma coisa aconteceu comigo. Ia avis-lo quando 
me lembrei de que meu benfeitor no me avisou.
        - Sua experincia foi como a minha, Dom Juan?
        - No. A minha foi uma viagem infernal. Quase morri.
        - Por que foi infernal?
        - Talvez fosse porque a erva-do-diabo no gostasse de mim ou porque eu no soubesse claramente o que queria perguntar. Como voc ontem. Devia estar pensando 
naquela moa quando perguntou a respeito dos livros.
        - No me lembro.
        - Os lagartos nunca erram; consideram todos os pensamentos uma pergunta. O lagarto voltou e lhe contou coisas a respeito de H. que nunca ningum poder compreender, 
pois nem mesmo voc sabia quais eram seus pensamentos.
       - E a outra viso que tive?
        - Seus pensamentos deviam estar firmes quando voc fez pergunta. E  assim que esse feitio deve ser conduzido, com clareza. 
       - Quer dizer que a viso da moa no deve ser levada a srio?
        - Como pode ser levada a srio se voc no sabe que perguntas os lagartinhos estavam respondendo?
       - Ficaria mais claro para o lagarto se a pessoa s perguntasse uma coisa?
       - Sim. Seria mais claro, se voc pudesse firmar-se num pensamento.
       - Mas o que aconteceria, Dom Juan, se a nica pergunta no fosse simples?
        - Enquanto seu pensamento for firme, e no se ocupar de outras coisas, ele  claro para os pequenos lagartos, e ento a resposta deles ser clara para voc.
       - Pode-se fazer mais perguntas aos lagartos, durante a viso?
       - No. A viso  olhar para tudo o que os lagartos lhe esto dizendo.  por isso que eu disse que  mais uma viso de ouvir do que de ver.  por isso que 
lhe pedi que tratasse de assuntos impessoais. Geralmente, quando a pergunta  a respeito de pessoas, seu desejo de toc-las ou falar com elas  forte demais e o 
lagarto pra de falar e o feitio se desfaz. Deve saber muito mais do que sabe agora antes de tentar ver coisas que lhe dizem respeito pessoalmente. Da prxima vez, 
mm de ouvir com ateno. Estou certo de que os lagartos lhe disseram muitas e muitas coisas, mas que voc no estava ouvindo.
       
Sexta-feira, 19 de abril de 1963

        - O que eram aquelas coisas que eu mo para a pasta, Na Juan?
        - Sementes de erva-do-diabo e os gorgulhos que vivem das sementes. A medida  um punhado de cada. - Encolheu a mo direita para me mostrar a quantidade.
        Perguntei-lhe o que aconteceria se se usasse um dos elementos sozinho, sem os outros. Respondeu que isso s faria hostilizar a erva-do-diabo e os lagartos.
        - No se deve hostilizar os lagartos - disse ele - pois, no dia seguinte, no fim da tarde, tem de voltar ao local de sua planta. Fale com todos os lagartos 
e pea aos dois que o ajudaram em seu feitio que tornem a aparecer. Procure bem, at ficar bem escuro. Se no conseguir encontr-los, tem de tentar de novo no dia 
seguinte. Se voc for forte, encontrar os dois, e ento ter de com-los, ali mesmo. E ser dotado para sempre da faculdade de ver o desconhecido. Nunca mais ter 
de apanhar lagartos para fazer esse feitio. Desde ento eles passaro a viver dentro de voc.
        - O que devo fazer se s encontrar um deles?
        - Se s encontrar um, tem de deix-lo ir-se, no fim de sua busca. Se o encontrar no primeiro dia, no o guarde, na esperana de encontrar o outro no dia 
seguinte. Isso s far estragar sua amizade com eles.
        - O que acontece se eu no os encontrar de todo?
        - Acho que isso seria o melhor para voc. Quer dizer que voc ter de apanhar dois lagartos toda vez que quiser a ajuda deles, mas significa tambm que voc 
est livre.
        - O que quer dizer com livre?
        - Livre de ser escravo da erva-do-diabo. Se os lagartos vo viver dentro de voc, a erva-do-diabo nunca o deixar ir-se.
        - Isso  mau?
        - Claro que sim. Ela o cortar de tudo o mais. Ter de passar a vida cuidando dela como aliada. Ela  possessiva. Uma vez que o dominar, s h um caminho 
a seguir... o caminho dela.
        - E se eu descobrir que os lagartos esto mortos?
        - Se voc encontrar um ou ambos mortos, no deve tentar fazer esse feitio por algum tempo. Afaste-se por um perodo. Acho que isso  tudo o que tenho de 
lhe dizer; o que lhe falei  a regra. Sempre que voc fizer esse feitio sozinho, tem de seguir todos os passos que descrevi enquanto se senta em frente de sua planta. 
Mais uma coisa. No pode comer nem beber at terminar o feitio.

6
        O estgio seguinte nos ensinamentos de Dom Juan foi um novo aspecto no domnio da segunda poro da raiz de Datura. No perodo decorrido entre os dois estgios 
da aprendizagem, Dom Juan s perguntava a respeito do desenvolvimento de minha planta.

Quinta-feira, 27 de junho de 1963

       -  um bom hbito testar a erva-do-diabo antes de seguir plenamente o caminho dela - disse Dom Juan.
       - Como se testa a planta, Dom Juan?
       - Deve tentar outro feitio com os lagartos. J tem todos os elementos necessrios para fazer mais uma pergunta aos lagartos, dessa vez sem a minha ajuda.
       - E muito necessrio que eu faa esse feitio, Dom Juan?
       -  o melhor meio de testar os sentimentos da erva-do-diabo relao a voc. Esta planta est sempre testando voc, de modo que  justo que voc tambm a ponha 
 prova, e se, em algum ponto no caminho dela, voc achar que por algum motivo no deve continuar, ento deve simplesmente parar.

Sbado, 29 de junho de 1963

       Abordei o assunto erva-do-diabo. Queria que Dom Juan me contasse mais a respeito, e no entanto no queria comprometer-me a participar.
       - A segunda poro  s usada para adivinhar, no , Dom Juan? - perguntei, para iniciar a conversa.
        - No s para adivinhar. A gente aprende o feitio dos lagartos com a segunda poro, e ao mesmo tempo a gente pe  prova a erva-do-diabo; mas, na verdade, 
a segunda poro  utilizada para outros fins. O feitio dos lagartos  s o comeo.
        - Ento para que  usada, Dom Juan?
        No respondeu. Mudou de assunto bruscamente e perguntou-me de que tamanho eram as plantas de Datura que cresciam em volta da minha planta. Fiz um gesto para 
mostrar o tamanho.
        - J lhe ensinei como distinguir o macho da fmea disse Dom Juan. - Agora v at s suas plantas e me traga ambos. V primeiro para a sua planta antiga e 
olhe atentamente para o caminho feito pela chuva. A essa altura, ela j deve ter levado as sementes para longe. Olhe para as gretas (zanjitas) feitas pela enxurrada 
e da verifique a direo da gua. Depois veja a planta que cresce mais afastada da sua. Todas as plantas da erva-do-diabo que crescem no meio so suas. Mais tarde, 
quando sementearem, poder ampliar o tamanho de seu territrio seguindo o curso da gua de cada planta no caminho.
        Deu-me instrues meticulosas sobre como conseguir um instrumento cortante. O corte da raiz, disse ele, tinha de ser feito da maneira seguinte: primeiro, 
eu tinha de escolher a planta que ia cortar e limpar toda a terra em volta do lugar onde a raiz se unia ao caule. Depois, tinha de executar exatamente a mesma dana 
que tinha danado quando replantei a raiz. Em terceiro lugar, tinha de cortar fora a haste e deixar a raiz na terra. O ltimo passo era cavar 40 centmetros de raiz. 
Aconselhou-me que no falasse nem demonstrasse sentimento algum durante esses atos.
        - Voc deve levar dois pedaos de pano - disse ele. - Estenda-os no cho e coloque as plantas neles. Depois, corte-as em pedaos e empilhe-as. A ordem depende 
de voc; mas deve lembrar-se sempre da ordem que seguiu, pois  assim que voc deve sempre faz-lo. Traga-me as plantas assim que as tiver.

6 de julho de 1963

        Na segunda-feira, 1 de julho, cortei as plantas de Datura que Dom Juan tinha pedido. Esperei at estar bem escuro para danar em volta das plantas, pois 
no queria que me vissem. Eu estava bem apreensivo. Estava certo de que algum ia presenciar meus atos estranhos. J tinha escolhido as plantas que eu achava que 
eram masculina e feminina. Tive de cortar 40 centmetros da raiz de cada uma, e cavar tudo isso com um pedao de pau no foi brincadeira. Levei horas. Tive de acabar 
o trabalho numa escurido total, e quando estava pronto para cort-las precisei usar uma lanterna. Meu medo original de que algum pudesse ver-me era irrisrio comparado 
com o medo de que algum pudesse reparar na luz nos arbustos.
       Levei as plantas para a casa de Dom Juan na tera-feira, 2 de julho. Abriu os embrulhos e examinou os pedaos. Disse que ainda teria de me dar as sementes 
de suas plantas. Empurrou um almofariz para minha frente. Pegou um pote de vidro e esvaziou seu contedo - sementes secas aglomeradas - no almofariz.
       Perguntei-lhe o que eram, e ele disse que eram sementes comidas pelos gorgulhos. Havia muitos bichinhos entre as sementes - gorgulhos pretos. Falou que eram 
bichos especiais, e que tnhamos de tir-los e p-los num pote separado. Entregou-me outro pote, cheio at um tero do mesmo tipo de gorgulhos. Um pedao e papel 
estava metido no pote para no deixar os gorgulhos escaparem.
        - Da prxima vez voc ter de usar os bichinhos de suas plantas - disse Dom Juan. - O que tem de fazer  cortar as sementes que tenham buraquinhos; elas 
esto cheias de bichos. Abra as sementes e raspe tudo e ponha num pote. Junte um punhado de bichos e ponha-os noutra vasilha. Trate-os com brutalidade. No seja 
delicado com eles. Mea um punhado das sementes aglomeradas que os bichos comeram e um punhado do p de bichos e enterre o resto em qualquer lugar naquela direo 
(nesta altura, apontou para sudeste) de sua planta. Depois, colha sementes boas e secas e guarde-as separadamente. Pode colher quantas quiser. Sempre poder us-las. 
 uma boa idia tirar as sementes das favas l, para poder enterrar tudo de uma vez.
        Dom Juan me disse para moer primeiro as sementes aglomeradas, depois os ovos de gorgulhos; em seguida os bichos e, por fim, as sementes boas e secas:
        Depois de estar tudo triturado num p fino, Dom Juan pegou os pedaos de Datura que eu tinha cortado e empilhado. Separou a raiz masculina e embrulhou-a 
com cuidado num pedao de pano. Entregou-me o resto e disse que eu cortasse tudo em pedacinhos, amassasse-os bem e depois pusesse todo o suco num pote. Disse que 
eu tinha de amass-los na mesma ordem em que os tinha arrumado.
        Quando acabei, ele me disse que pegasse uma xcara de gua fervendo e a misturasse com tudo na panela, e depois juntasse mais duas xcaras. Entregou-me um 
pedao de osso bem liso. Misturei a papa com aquilo e levei a panela ao fogo. Depois, ele disse que tnhamos de preparar a raiz, e que para isso tnhamos de usar 
o pilo maior, pois a raiz masculina no podia ser cortada de todo. Fomos para os fundos da casa. Ele estava com o pilo pronto, e eu amassei a raiz como j tinha 
feito antes. Deixamos a raiz de molho na gua, exposta ao sereno, e fomos para dentro.
        Disse-me que vigiasse a mistura na panela. Eu devia deixar que ela fervesse at ficar encorpada - at ficar dura de se mexer. Depois, deitou-se em sua esteira 
e foi dormir. A papa j estava fervendo havia pelo menos uma hora quando reparei que estava ficando cada vez mais dura de mexer. Achei que devia estar pronta e tirei-a 
do fogo. Coloquei-a na sacola de linha dependurada do teto e fui dormir.
        Acordei quando Dom Juan se levantou. O sol estava brilhando num cu azul. Era um dia quente e seco. Dom Juan tornou a comentar que tinha certeza de que a 
erva-do-diabo gostava de mim.
        Fomos tratar da raiz, e no fim do dia tnhamos um bocado de substncia amarelada no fundo da tigela. Dom Juan despejou a gua de cima. Achei que teso devia 
ser o fim do processo, mas ele tornou a encher a tigela com gua fervendo.
        Pegou a panela com a papa que estava dependurada no telhado. A papa parecia estar quase seca. Levou a panela para dentro de casa, colocou-a no cho com cuidado 
e sentou-se. Neste momento, comeou a falar.
        - Meu benfeitor me disse que era permitido misturar a planta com banha. E  isso que voc vai fazer. Meu benfeitor misturou-a com banha para mim, mas, como 
j disse, eu nunca fui muito amigo da planta e nunca tentei realmente me tornar um s com ela. Meu benfeitor me disse que, para obter melhores resultados, para aqueles 
que realmente desejam o poder, o certo  misturar a planta com a banha de um porco-do-mato. A gordura dos intestinos  a melhor. Mas voc  quem escolhe. Talvez 
o destino resolva que voc tome a erva-do-diabo como aliada, e nesse caso eu lhe aconselho, como meu benfeitor me aconselhou, a caar um javali e tirar-lhe a gordura 
dos intestinos (sebo de tripa). Em outras pocas, quando a erva-do-diabo era a tal, os brujos iam em caadas especiais para conseguir banha dos javalis. Procuravam 
os machos maiores e mais fortes; deles tiravam um poder especial, to especial que era difcil acreditar, mesmo naquela poca. Mas aquele poder est perdido. No 
sei nada a respeito. Nem conheo algum que saiba. Talvez a prpria erva lhe ensine tudo isso.
       Dom Juan mediu um punhado de banha, colocou-a na tigela com a papa seca e raspou a banha que ficou em sua mo na beirada da tigela. Disse-me que misturasse 
o contedo at estar tudo liso e bem misturado.

Bati a mistura durante quase trs horas. Dom Juan de quando olhava e achava que ainda no estava boa. Por fim pareceu estar satisfeito. O ar batido para dentro da 
pasta lhe dera uma colorao cinza-clara e a consistncia de gelatina. Ele pendurou a tigela do teto, junto da outra tigela. Disse que ia deixa-la ali at o dia 
seguinte, porque seriam necessrios dois dias para preparar essa segunda poro. Disse que, enquanto isso, eu no comesse nada. Podia beber gua, mas no sorver 
nenhum alimento.

No dia seguinte, quinta-feira, 4 de julho, Dom Juan mandou que eu lixiviasse a raiz quatro vezes. Da ltima vez que d a gua da tigela, ela j estava escura. Ficamos 
sentados na varanda. Ele colocou as duas tigelas em frente dele. O extrato da raiz deu uma colher de ch de uma goma esbranquiada. Colocou-a numa xcara e juntou 
gua. Girou a xcara na mo para dissolver a substncia e depois ma entregou. Disse que eu bebesse tudo o que estava na xcara. Bebi depressa e depois pus a xcara 
no cho e me recostei. Meu comeou a disparar; parecia que eu no conseguia respirar. Dom Juan mandou, com naturalidade, que eu despisse todas as minhas roupas. 
Perguntei-lhe por que e ele disse ia de me esfregar com a pasta. Hesitei. No sabia se me ou no. Dom Juan insistiu, dizendo que eu me apressasse. Disse que havia 
muito pouco tempo para estar desperdiando-o. Tirei toda a roupa.
        Pegou seu pedao de osso e cortou duas linhas horizontais na superfcie da pasta, desse modo dividindo o contedo da tigela em trs partes iguais. Depois, 
comeando do centro da linha superior, cortou uma linha vertical, perpendicular s outras duas, dividindo a pasta em cinco partes. Apontou para a parte direita inferior, 
e disse que aquela era para meu p esquerdo. A parte acima dela era para minha perna esquerda. A parte superior, a maior, era para meus rgos genitais. A seguinte, 
abaixo,  esquerda, .era para minha perna direita e a de baixo  esquerda era para o p direito. Disse-me que aplicasse a parte da pasta designada para meu p esquerdo 
 sola de meu p e a esfregasse bem. Depois ensinou-me a aplicar a pasta  parte interna de toda a minha perna esquerda, em meus rgos genitais, no lado de dentro 
de minha perna direita e por fim na sola de meu p direito.
        Segui as instrues dele. A pasta estava fria e tinha um cheiro especialmente forte. Quando acabei de aplic-la, endireitei o corpo. O cheiro da mistura 
penetrou em minhas narinas. Parecia-me sufocante. O odor ativo estava mesmo me sufocando. Parecia um tipo de gs. Tentei respirar pela boca e falar com Dom Juan, 
mas no consegui.
        Dom Juan estava olhando para mim, fixamente. Dei um passo em direo a ele. Minhas pernas pareciam elsticas e compridas, extraordinariamente compridas. 
Dei outro passo. As juntas de meus joelhos pareciam flexveis, como uma vara de salto; tremiam e vibravam e se contraam como elstico. Fiz um movimento para a frente. 
O movimento de meu corpo era lento e trmulo; era mais como um tremor que se adiantava e subia. Olhei para baixo e vi Dom Juan sentado abaixo de mim, muito abaixo 
de mim. O impulso me levou mais um passo  frente, que foi ainda mais elstico e longo do que o anterior. E dali eu me elevei no ar. Lembro-me de que desci uma vez; 
ento, dei um impulso com os dois ps, dei um salto para trs e planei de costas. Via o cu escuro acima de mim e as nuvens passando. Sacudi o corpo, para poder 
olhar para baixo. Vi a massa escura das montanhas. Minha velocidade era extraordinria. Meus braos estavam fixos, dobrados ao lado do corpo. Minha cabea era a 
unidade de direo. Se eu a conservasse dobrada para trs, fazia crculos verticais. Mudava de direo virando a cabea para o lado. Eu gozava de uma liberdade e 
velocidade como jamais conhecera. A maravilhosa escurido me dava uma sensao de tristeza, talvez de saudade. Era como se tivesse encontrado um lugar ao qual noite. 
Tentei olhar em volta, noite era serena, e no entanto encerrava muito poder.
       De repente, sabia que estava na hora de descer; era como se me tivessem dado uma ordem a que eu tinha de obedecer. E comecei a descer como uma pluma, com 
movimentos laterais. Esse tipo de movimento me enjoava muito. Era lento e irregular, como se eu estivesse sendo abaixado por roldanas. Fiquei enjoado. Minha cabea 
doa terrivelmente. Uma espcie de negrume envolveu-me. Tinha plena conscincia de estar penso nele.
        A prxima coisa de que me lembro foi a sensao de despertar. Estava na minha cama, em meu quarto. Sentei-me e a imagem de meu quarto dissolveu-se. Levantei-me. 
Estava despido! O movimento de ficar de p me fez enjoar de novo.
       Reconheci alguns pontos do lugar. Estava a mais ou menos um quilmetro da casa de Dom Juan, perto do lugar das plantas        de Datura dele. De repente, 
tudo se focalizou, e percebi que teria de andar at  casa dele, nu. Ser privado de roupas era uma profunda desvantagem psicolgica, mas no havia nada que eu pudesse 
fazer para resolver o problema. Pensei em fazer-me uma saia de galhos de rvores, mas a idia parecia absurda e, alm disso, j estava amanhecendo. Esqueci de meu 
desconforto e meu enjo e comecei a caminhar para a casa. Estava obcecado com o medo de ser descoberto. Fiquei atento para a presena de gente e de cachorros. Tentei 
correr, mas machuquei os ps nas pedrinhas afiadas. Caminhei devagar. J estava bem claro. Ento, vi algum andando pela estrada, e depressa escondi-me atrs das 
moitas. Minha situao me parecia ridcula. Um momento antes eu experimentava o prazer inacreditvel de voar; no minuto seguinte estava-me escondendo, encabulado 
com minha prpria nudez. Pensei em tornar a saltar para a estrada e correr na passando pela pessoa que pudesse estar-se aproximando. Pensei que ela ficaria to espantada 
que, quando percebesse que era um homem nu, eu j estaria longe. Pensei em tudo isso, mas no ousei mexer-me.
       Pessoa que vinha pela estrada estava pertinho de mim e parou de andar. Ouvi que chamava meu nome. Era Dom Juan, e estava com as minhas roupas. Enquanto eu 
as vestia, ele olhou para mim e riu; riu tanto que tambm eu acabei rindo.
        Naquele mesmo dia, sexta-feira 5 de julho, no fim da tarde, Dom Juan pediu-me que narrasse os detalhes da experincia. Com o mximo de cuidado, narrei todo 
o episdio.
        - A segunda poro da erva-do-diabo  usada para voar - disse ele, quando terminei. - O ungento sozinho no basta. Meu benfeitor diz que  a raiz que d 
a direo e a sabedoria, e  a causa do vo. A medida que aprende mais, e toma mais para poder voar, voc comea a ver tudo com muita clareza. Pode elevar-se pelo 
ar por centenas de quilmetros, para ver o que est acontecendo em qualquer lugar que queira, ou para desfechar um golpe fatal em seus inimigos bem longe. Quando 
se familiarizar com a erva-do-diabo, ela lhe ensinar como fazer essas coisas. Por exemplo, j lhe ensinou como mudar de direo. Do mesmo modo, ela lhe ensinar 
coisas inimaginveis.
        - Como o qu, Dom Juan?
        - Isso eu no posso dizer. Cada homem  diferente. Meu benfeitor nunca me disse o que ele aprendeu. Disse-me como agir, mas nunca o que via. Isso  s para 
a gente.
        - Mas conto-lhe tudo o que vejo, Dom Juan.
        - Agora, sim. Mais tarde, no contar. Da prxima vez que voc tomar a erva-do-diabo, voc o far por si, junto de suas prprias plantas, pois  l que vai 
voltar  terra, junto de suas plantas. Lembre-se disso. Foi por isso que eu vim procur-lo aqui, junto de minhas plantas.
        Ele no disse mais nada e eu adormeci. Quando acordei de noitinha, sentia-me revigorado. Por algum motivo, eu exsudava uma espcie de satisfao fsica. 
Estava feliz, satisfeito. Dom Juan perguntou-me:
        - Gostou da noite? Ou foi assustadora?
        Disse-lhe que a noite tinha sido realmente magnfica.
        - E a sua dor de cabea? Foi muito ruim? - perguntou ele.
        - A dor de cabea foi to forte quanto todas as outras sensaes. Foi a pior dor que j tive - disse eu.
        - Isso o impediria de querer provar novamente o poder da erva-do-diabo?
        - No sei. No o desejo agora, mas posso desej-lo depois. No sei mesmo, Dom Juan.
        Havia uma pergunta que eu queria fazer-lhe. Sabia que ele ia esquivar-se, de modo que esperei que ele mencionasse o assunto; esperei o dia inteiro. Por fim, 
antes de partir naquela noite, tive de perguntar-lhe:
       - Voei de verdade, Dom Juan?
       - Foi o que me disse. No voou?
        - Sei, Dom Juan. Quero dizer, meu corpo voou? Levantei vo como um passarinho?
        - Sempre me faz perguntas que no posso responder. Voou.  para isso que serve a segunda poro da erva-dodiabo. Quando tomar mais dela, vai aprender a voar 
perfeitamente. No  uma coisa simples. Um homem voa com o auxilio da segunda poro da erva-do-diabo. E s isso que lhe posso dizer. O que quer saber no faz sentido. 
Os pssaros voam como pssaros e um homem que tomou a erva-do-diabo voa como tal (el enverbado vuela as).
        - Assim como os pssaros? (?As como los pjaros?)
       - No, voa como um homem que tomou a erva (No, as como los enverbados).
        - Ento, realmente no voei, Dom Juan. Voei em minha imaginao, s em minha mente. Onde estava meu corpo?
        - Nas moitas - respondeu ele, mordaz, mas logo caiu na gargalhada outra vez. - O problema  que voc s entende as coisas de um jeito. No acha que um homem 
voa; e no entanto, um brujo pode mover-se mil quilmetros por segundo para ver o que est acontecendo. Pode desfechar um
golpe em seus inimigos a distncias imensas. Ento, ele voa ou no?
        - Sabe, Dom Juan, voc e eu estamos orientados de maneira diferente. Suponhamos, para argumentar, que um de meus colegas tivesse estado aqui comigo quando 
tomei a ervado-diabo. Ele teria podido ver-me voando?
        - L vem voc outra vez com suas perguntas de que aconteceria se... No adianta falar assim. Se seu amigo, ou qualquer outra pessoa, tomar a segunda poro 
da erva, s vai poder voar. Agora, se s estivesse olhando para voc, poderia ter visto voc voando, ou no. Depende da pessoa.
        - Mas o que quero dizer, Dom Juan,  que, se voc e eu olharmos para um pssaro e o virmos voando, concordamos que est voando. Mas se dois de meus amigos 
me tivessem visto voando como voei ontem, concordariam em que eu estava voando?
        - Bom, podiam ter concordado. Voc concorda que os pssaros voam porque j os viu voando. Voar  coisa comum, com os pssaros. Mas no vai concordar com 
outras coisas que os pssaros fazem, pois nunca viu pssaros fazendo tais coisas. Se seus amigos soubessem a respeito dos homens voarem com a erva-do-diabo, ento 
eles haviam de concordar.
        - Vamos dizer a coisa em outras palavras, Dom Juan. O que quero dizer  que, se estivesse amarrado a uma pedra, com uma corrente pesada, ainda assim eu teria 
voado, pois meu corpo nada tinha a ver com meu vo.
        Dom Juan olhou para mim, incrdulo.
        - Se voc se amarrar a uma pedra - disse ele - acho que ter de voar segurando a pedra com sua corrente pesada.

7
       Reunir os ingredientes e prepar-los para a mistura do fumo constituam um ciclo anual. No primeiro ano Dom Juan ensinou-me o processo. Em dezembro de 1962, 
o segundo ano, quando o ciclo se renovou, Dom Juan apenas me dirigiu; eu mesmo reuni os ingredientes, preparei-os e os guardei at o ano seguinte.
       Em dezembro de 1963 um novo ciclo teve incio pela terceira vez. Dom Juan ento me mostrou domo combinar os secos que eu colhera e preparara no ano anterior. 
Ps a mistura do fumo numa bolsinha de couro e samos mais uma vez para colher os vrios componentes para o ano seguinte.
       Dom Juan raramente mencionou o "fuminho" durante o se passou entre as duas colheitas. Cada vez que eu ia, porm, ele me dava seu cachimbo para eu segurar, 
e o processo de "me familiarizar" com o cachimbo seguiu havia descrito. Colocou o cachimbo em minhas mos gradativamente. Exigia uma concentrao completa e t naquele 
ato e dava-me orientaes explicitas. Qualquer mal jeito com o cachimbo resultaria inevitavelmente em minha morte ou na dele, dizia.
       Assim que terminamos o terceiro ciclo da coleta e preparao, Dom Juan comeou a falar do fumo como aliado pela primeira vez, em mais de um ano.

Segunda-feira, 23 de dezembro de 1963

       Estvamos voltando de carro para a casa dele depois de colher umas flores amarelas para a mistura. Eram um dos ingredientes necessrios. Observei que naquele 
ano no tnhamos seguido a mesma ordem de colher os ingredientes que no ano anterior. Ele riu e disse que o fumo no era temperamental nem mesquinho, como a erva-do-diabo. 
Para o fumo, a ordem da coleta era sem importncia; o que era necessrio era que o homem que usasse a mistura fosse preciso e exato.
        Perguntei a Dom Juan o que iramos fazer com a mistura que ele tinha preparado e me dado para guardar. Respondeu que era minha, e acrescentou que eu tinha 
de utiliza-la o mais breve possvel. Perguntei quanto era necessrio de cada vez. O saquinho que ele me dera continha mais ou menos trs vezes a quantidade que uma 
bolsinha de fumo normal conteria. Disse-me que eu teria de usar todo o contedo de meu saco em um ano, e a quantidade que eu precisaria cada vez que fumasse era 
assunto pessoal.
        Queria saber o que aconteceria se eu nunca acabasse o saco. Dom Juan disse que nada aconteceria; o fumo no exigia nada. Ele mesmo no precisava mais fumar, 
e no entanto todos os anos preparava uma nova mistura. Depois, emendou-se e disse que raramente tinha de fumar. Perguntei-lhe o que fazia com a mistura que no fumava, 
mas ele no respondeu. Disse que a mistura no prestava mais, se no fosse usada dentro de um ano.
        Nesse ponto, tivemos uma longa discusso. No formulei minhas perguntas direito, e as respostas dele pareciam confusas. Eu queria saber se a mistura perderia 
suas propriedades alucingenas, ou seu poder, depois de um ano, assim tornando necessrio o ciclo anual, mas ele insistiu que a mistura no perderia seu poder em 
poca alguma. A nica coisa que acontecia, falou, era que um homem no precisaria mais dela, pois teria preparado um novo suprimento; tinha de dispor do que sobrasse 
da mistura velha de determinada maneira, que Dom Juan no me quis revelar nesse ponto.

Tera-feira, 24 de dezembro de 1963

       - Disse que no precisa mais fumar, Dom Juan?
        - Sim, porque o fumo  meu aliado e no preciso mais fumar. Posso cham-lo a qualquer momento, em qualquer lugar.
        - Quer dizer que ele vem mesmo que voc no fume?
       - Quero dizer que vou at ele livremente.
       - Tambm poderei fazer isso?
       - Se conseguir fazer dele seu aliado, sim.

31 de dezembro de 1963

Na quinta-feira, 26 de dezembro, tive minha primeira experincia com o aliado de Dom Juan, o fumo. O dia todo andei de carro com ele, e trabalhei para ele. Voltamos 
para casa  tardinha. Mencionei que no tnhamos comido nada o dia todo. No se preocupou nem um pouco; em vez disso, comeou a dizer-me que era essencial que eu 
me familiarizasse com o fumo. Disse que eu tinha de experiment-lo eu mesmo para compreender sua importncia como aliado.
       Sem me dar oportunidade de dizer coisa alguma, Dom Juan me disse que ia acender o cachimbo dele para mim, naquele momento. Procurei dissuadi-lo, argumentando 
que no acreditava estar preparado. Disse-lhe que achava que no tinha 0 o cachimbo por bastante tempo. Mas ele angu u que no me restava mais muito tempo para aprender, 
eu tinha de usar o cachimbo muito breve. Pegou o cachimbo da bolsinha e afagou-o. Sentei-me no cho ao lado dele e tentei desesperadamente ficar enjoado e desmaiar 
- fazer qualquer coisa para adiar esse passo inevitvel.
       O quarto estava quase escuro. Dom Juan tinha acendido s querosene e o colocara no canto. Geralmente o mantinha o quarto numa semi-escurido repousante, a 
luz amarela sempre calmante. Mas, dessa vez, a luz fraca e inusitadamente vermelha; era enervante. Desamarrou seu saquinho de mistura sem tir-lo do cordo preso 
pescoo. Pegou o cachimbo pertinho dele, colocou-o de sua camisa e ps um pouco da mistura dentro do Fez com que eu observasse aquilo, dizendo que, se mistura se 
derramasse, cairia dentro da camisa.
        Juan encheu trs quartos do fornilho e depois amarrou o saquinho com uma das mos, enquanto segurava o cachimbo com a outra. Pegou um pratinho de barro, 
deu-o a mim, e pediu que fosse buscar uns carvezinhos do fogo l fora. Fui para os fundos da casa e peguei um punhado de carvo do fogo de tijolo. Voltei depressa 
para o quarto. Eu estava muito preocupado. Era como um pressentimento.
       Sentei-me junto de Dom Juan e entreguei-lhe o pratinho. Olhou para o prato e calmamente disse que os carves eram grandes demais. Queria menores, que coubessem 
dentro do fornilho do cachimbo. Voltei para o fogo e peguei outros. Segurou o prato de carves e colocou-o diante de si. Estava sentado de pernas cruzadas e metidas 
embaixo dele. Olhou para mim pelo canto do olho e debruou-se para a frente, at o queixo quase encostar nos carves. Segurou o cachimbo na mo esquerda e, com um 
movimento muito rpido de sua mo direita, pegou um pedacinho de carvo em brasa e colocou-o no fornilho do cachimbo; depois, sentou reto e, segurando o cachimbo 
nas duas mos, levou-o  boca e tirou trs baforadas. Estendeu os braos para mim e, num cochicho forte, disse-me que pegasse o cachimbo com as duas mos e o fumasse.
        A idia de recusar o cachimbo e fugir me passou pela cabea por um momento; mas Dom Juan tornou a dizer, ainda num sussurro, que eu pegasse o cachimbo e 
fumasse. Olhei para ele. Seus olhos estavam fitos em mim. Mas seu olhar era amigo, preocupado. Era claro que eu fizera a escolha havia muito tempo; no tinha alternativa 
seno fazer o que ele dizia.
        Peguei o cachimbo e quase o deixei cair. Estava quente! Levei-o a minha boca com muito cuidado, pois imaginava que seu calor fosse intolervel a meus lbios. 
Mas no senti calor algum.
        Dom Juan me disse para inspirar. A fumaa entrou em minha boca e pareceu circular por ela. Era pesada! Parecia que eu estava com a boca cheia de massa. A 
imagem me ocorreu, embora nunca tivesse estado com a boca cheia de massa. A fumaa tambm parecia mentol e o interior de minha boca, de repente, ficou frio. Foi 
uma sensao refrescante. "Outra vez! Outra vez!", ouvi Dom Juan sussurrando. Senti a fumaa penetrar livremente dentro de meu corpo, quase sem meu controle. No 
precisei que Dom Juan me incitasse mais. Mecanicamente, continuei a tragar.
        De repente, Dom Juan debruou-se e pegou o cachimbo de minhas mos. Com delicadeza, bateu as cinzas no prato com os carves, depois molhou o dedo com saliva 
e passou-o dentro do fornilho para limpar os lados. Soprou vrias vezes pelo cabo. Vi que ele guardava o cachimbo em sua capa. Eu concentrava meu interesse em seus 
atos.
       Depois que ele acabou de limpar o cachimbo e guard-lo, ficou olhando para mim e percebi que todo meu corpo estava dormente, mentolado. Meu rosto estava pesado 
e meu queixo dolorido. No conseguia ficar com a boca fechada, mas no estava salivando. A boca estava seca e ardendo, e no entanto eu no estava com sede. Comecei 
a sentir um calor desusado pela minha cabea. Um calor frio! Meu hlito parecia cortar as narinas e o lbio superior cada vez que eu expirava. Mas no queimava; 
doa como um pedao de gelo.
       Dom Juan sentou-se a meu lado,  minha direita, e sem se mexer segurou a capa do cachimbo de encontro ao cho, como que mantendo-o l  fora. Minhas mos 
estavam pesadas. Meus braos estavam pendurados, puxando meus ombros para baixo. Meu nariz estava pingando. Limpei-o com as costas da mo, e o lbio superior desapareceu! 
Enxuguei o rosto, e toda a pele desapareceu! Estava derretendo! Sentia-me como se minha pele estivesse mesmo se derretendo. Levantei-me         de um salto e procurei 
agarrar alguma coisa - qualquer coisa - para me apoiar. Estava sentindo um terror como nunca havia experimentado antes. Agarrei-me a uma vara que Dom Juan mantm 
espetada no cho no centro do quarto. Fiquei ali de p por um momento, e depois virei-me para olhar para ele. Continuava ali sentado imvel, segurando o cachimbo, 
olhando para mim.
       Minha respirao estava dolorosamente quente (ou fria?). Estava-me sufocando. Inclinei a cabea para a frente para repousa-la na vara, mas parece que no 
a encontrei, e minha cabea continuou a se mover para baixo, alm do ponto onde estava a vara. Parei quando j estava quase no cho. Endireitei-me. A vara estava 
ali defronte de meus olhos! Novamente tentei apoiar a cabea nela. Tentei controlar-me e ficar consciente e conservei os olhos abertos ao me debruar para tocar 
a vara com a testa. Estava a alguns centmetros de meus olhos, mas, quando encostei a cabea nela, tive a sensao estranha de estar atravessando-a.
        Numa busca desesperada por uma explicao racional, conclu que meus olhos estavam modificando a profundidade e que a vara devia estar a uns trs metros 
de distncia, embora eu a visse diretamente diante de meu rosto. Ento, concebi um meio lgico, racional, de verificar a posio da vara. Comecei a me mover de lado 
em volta dela, um passo de cada vez. Meu argumento era que, andando em volta da vara assim, no poderia descrever um crculo de mais de um metro e meio de dimetro; 
se a vara realmente estivesse a trs metros de mim, ou fora de meu alcance, chegaria um momento em que estaria de costas para ela. Eu esperava que, naquele momento, 
a vara desaparecesse, pois realmente estaria atrs de mim.
        Ento, passei a fazer um crculo em volta da vara, mas ela permaneceu diante de meus olhos enquanto eu dava a volta. Num acesso de frustrao, agarrei-a 
com ambas as mos, mas minhas mos passaram atravs dela. Estava agarrando o ar. Calculei com cuidado a distncia entre a vara e eu. Imaginei que devia ser de um 
metro. Isto , meus olhos a percebiam como um metro. Por um momento, brinquei com a percepo de profundidade, mexendo a cabea de um lado para outro, focalizando 
um olho de cada vez na vara e depois no fundo do quarto. Segundo minha avaliao da profundidade, a vara estava inegavelmente diante de mim, talvez a um metro de 
distncia. Estendendo os braos para proteger minha cabea, investi com toda a fora. A sensao foi a mesma... atravessei a vara. Dessa vez, ca ao comprido no 
cho. Tornei a levantar-me. E levantar-me foi talvez o ato mais estranho de todos os que pratiquei naquela noite. Levantei-me por pensamento! Para levantar-me, no 
utilizai meus msculos nem meu esqueleto como estou acostumado a fazer, pois no tinha mais controle sobre eles. Soube disso no momento em que ca ao cho. Mas minha 
curiosidade a respeito da vara era tal que me "levantei por pensamento", numa espcie de ao reflexa. E antes de entender plenamente que no podia mover-me, j 
estava de p.
        Pedi ajuda a Dom Juan. Num momento, gritei freneticamente em altos brados, mas Dom Juan no se mexeu. Continuou a olhar para mim, pelo canto do olho, como 
se no quisesse virar a cabea para me olhar de frente. Dei um passo em direo a ele, mas, em vez de andar para a frente, cambaleei para trs e ca de encontro 
 parede. Eu sabia que tinha batido de encontro  mesma com as costas, no entanto no parecia dura; eu estava completamente suspenso numa substncia macia e esponjosa 
- era a parede. Meus braos estavam estendidos para os lados, e lentamente meu corpo todo pareceu afundar-se na parede. S conseguia olhar para a frente, para o 
quarto. Dom Juan ainda me estava espiando, mas no fez qualquer movimento para me ajudar. Fiz um esforo supremo para tirar meu corpo da parede, mas ele s afundou 
cada vez mais. No meio de um terror indescritvel, senti que a parede esponjosa se fechava sobre meu rosto. Tentei fechar os olhos, mas eles estavam abertos e fixos.
       No me lembro de mais nada do que aconteceu. De repente Dom Juan estava na minha frente, pertinho. Estvamos no outro quarto. Vi a mesa dele e o fogo com 
o fogo aceso o canto do olho, distingui a cerca do lado de fora da casa. Via tudo muito claramente. Dom Juan tinha trazido a lanterna de querosene e a dependurara 
da viga no meio do quarto. Tentei olhar em outra direo, mas meus olhos s estavam preparados para olhar bem em frente. No distinguia, nem sentia, qualquer parte 
de meu corpo. Minha respirao ,no podia ser notada. Mas meus pensamentos estavam extremamente lcidos. Estava claramente consciente de tudo o que se passava diante 
de mim. Dom Juan acercou-se de mim e clareza do esprito acabou. Alguma coisa pareceu parar de mim. No havia mais pensamentos. Vi Dom Juan aproximando e odiei-o. 
Queria estraalh-lo. Podia t-lo naquele momento, mas no conseguia mexer-me. A princpio senti vagamente uma presso na cabea, mas isso desapareceu. S reatava 
uma coisa... uma raiva avassaladora contra Dom Juan. Eu o via a alguns centmetros de Queria despeda-lo com as unhas. Senti que estava gemendo. Alguma coisa dentro 
de mim comeou a convulsionar-se. Ouvi Dom Juan falando comigo. Sua voz era suave e calmante e, pareceu-me, infinitamente agradvel. Chegou ainda mais perto e comeou 
a recitar uma cano espanhola de ninar.
       "Senhora Santana, por que chora o beb? Por uma ma que perdeu. Eu lhe darei uma. Darei duas. Uma para o menino e uma para voc". ("Senora Santa Ana, porque 
llora eI nino? Por una manzana que se le ha perdido. Yo Ie dar una. Yo le dar dos. Una para el nio y otra para vos!") Um calor invadiu-me. Era um calor do corao 
e dos sentimentos. As Dom Juan eram um eco distante. Lembravam as recordaes esquecidas da infncia.
        A violncia que eu sentira antes desapareceu. O ressentimento transformou-se num anseio - um afeto alegre por Dom Juan. Falou que eu devia esforar-me por 
no adormecer; que eu no tinha mais corpo e que estava livre para transformar-me naquilo que quisesse. Deu um passo atrs. Meus olhos estavam num nvel normal, 
como se eu estivesse de p diante dele. Estendeu-me os dois braos e disse que eu entrasse dentro deles.
        Ou eu avancei, ou ele se aproximou de mim. As mos dele estavam j no meu rosto, nos meus olhos, embora eu no as sentisse.
        - Entre dentro de meu peito - ouvi-o dizer. Senti como se o estivesse engolindo. Era a mesma sensao de esponjosidade da parede.
        Ento, ouvi a voz dele me ordenando para olhar e ver. No o distinguia mais. Aparentemente meus olhos estavam abertos, pois via lampejos de luz num campo 
vermelho; era como se eu estivesse olhando para uma luz de olhos fechados. Ento, meus pensamentos se ligaram de novo. Voltaram numa rpida barragem de imagens - 
rostos, cenas. Cenas sem qualquer coerncia apareciam e sumiam. Era como um sonho rpido, em que as imagens se sobrepem e mudam. Os pensamentos comearam a diminuir 
em nmero e intensidade e logo desapareceram de novo. S havia uma conscincia de afeio, de estar feliz. No conseguia distinguir formas nem luz. De repente, fui 
puxado para cima. Senti distintamente que estava sendo levantado. E estava livre, movendo-me com uma extraordinria leveza e velocidade na gua ou no ar. Nadava 
como uma enguia; contorcia-me e virava e me alava e baixava  vontade. Sentia um vento frio soprando em volta de mim, e comecei a flutuar como uma pluma, para diante 
e para trs, para baixo, e para baixo e para baixo.

Sbado, 28 de dezembro de 1963

        Acordei ontem no fim da tarde. Dom Juan me disse que eu tinha dormido calmamente durante quase dois dias. Tinha uma dor de cabea de rachar. Bebi um pouco 
d'gua e fiquei enjoado. Sentia-me cansado, extremamente cansado, e depois de comer tornei a dormir.
        Hoje, sentia-me novamente perfeitamente descansado. Dom Juan e eu conversamos sobre minha experincia com o fuminho. Pensando que ele queria que eu contasse 
a histria toda como eu sempre fazia, comecei a descrever minhas impresses, mas ele me fez parar, dizendo que no era preciso. Disse-me que, na verdade, eu no 
tinha feito nada, e que tinha adormecido logo, de modo que no havia nada para contar.
        - E aquilo tudo que senti? No  importante? - insisti.
       - No, no com o fumo. Mais tarde, quando voc aprender a viajar, conversaremos; quando aprender a entrar nas coisas.
       - A gente "entra" mesmo nas coisas?
       - No se lembra? Voc entrou e atravessou aquela parede.
       - Acho que eu estava fora de meu juzo.
       - No estava, no.
       - Agiu da mesma maneira quando fumou pela primeira vez, Dom Juan?
        - No, no foi igual. Temos personalidades diferentes. 
       - Como foi que voc se comportou?
       Dom Juan no respondeu. Reformulei a pergunta e tornei a indagar. Mas ele disse que no se lembrava de suas experincias e que minha pergunta era o mesmo 
que perguntar a um pescador o que ele sentira da primeira vez que pescara.
        Falou que o fumo como aliado era nico; e lembrei-lhe de ele tambm dissera que Mescalito era nico. Argumentou que cada qual era nico, mas que eram diferentes 
em qualidade.
       - Mescalito  um protetor porque fala com voc e pode guiar seus atos - disse ele. - Mescalito ensina a maneira certa de viver. E voc pode v-lo porque ele 
est fora de voc. O fumo por outro lado,  um aliado. Transforma voc e lhe d poder sem jamais mostrar a sua presena. No pode conversar com ele. Mas sabe que 
ele existe porque leva embora seu corpo e o torna leve como o ar. No entanto, voc nunca o v. Mas est ali, dando-lhe poder para realizar coisas inimaginveis, 
como quando lhe tira seu corpo.
       - Senti mesmo como se tivesse perdido meu corpo, Dom Juan.
       - E perdeu.
       - Quer dizer, eu no tinha mesmo corpo?
       - O que  que voc acha?
       - Bem, no sei. S posso dizer-lhe o que eu sentia.
       -  s isso que existe, na realidade... o que voc sentia.
       - Mas como  que voc me via, Dom Juan? Como  que eu lhe aparecia?
- Como eu o via no importa.  como na ocasio em agarrou a vara. Sentia que no estava ali e deu a volta  vara para se certificar de que estava l. Mas quando 
saltou em cima dela, tornou a sentir que no estava ali, realmente.
       - Mas voc me via como estou agora, no?
       - No! No estava como est agora!
        -  verdade! Isso admito. Mas tinha meu corpo, no tinha, embora no pudesse senti-lo?
        - No! Que diabo! No tinha um corpo como o que tem hoje!
        - Ento o que aconteceu com meu corpo?
        - Eu pensava que voc entendesse. O fuminho levou seu corpo.
        - Mas para onde foi?
        - Como, afinal, voc espera que eu saiba disso?
        Era intil insistir em tentar obter uma explicao "racional". Disse-lhe que no queria discutir, nem fazer perguntas bobas, mas se eu aceitasse a idia 
de que era possvel perder meu corpo, perderia toda minha racionalidade.
        Respondeu que eu estava exagerando, como sempre, e que no tinha perdido nem ia perder nada por causa do fuminho.

Tera-feira, 28 de janeiro de 1964

        Perguntei a Dom Juan o que ele achava da idia de dar o fumo a qualquer pessoa que desejasse ter a experincia.
        Respondeu, indignado, que agir assim seria o mesmo que mat-la, pois ela no teria ningum para gui-la. Pedi a Dom Juan para explicar o que queria dizer. 
Falou que eu estava ali, vivo e conversando, porque ele me trouxera de volta. Tinha restaurado meu corpo. Sem ele eu nunca teria acordado.
        - Como foi que restaurou meu corpo, Dom Juan?
        - Mais tarde aprender isso, mas ter de aprender a faz-lo sozinho.  por isso que eu quero que voc aprenda o mximo que puder enquanto ainda estou por 
aqui. J desperdiou muito tempo fazendo perguntas burras sobre bobagens. Mas talvez no seja o seu destino aprender tudo a respeito do fuminho.
        - Bem, ento o que devo fazer?
        - Deixe que o fumo lhe ensine tudo o que puder aprender.
        - O fumo tambm ensina?
        - Claro que ensina.
       - Ensina como Mescalito?
       - No, no  um mestre como Mescalito. No mostra as mesmas coisas.
       - Mas ento o que  que o fumo ensina?
       - Ensina-lhe como usar seu poder, e a saber que deve tantas vezes quantas puder.
       - Seu aliado  muito assustador, Dom Juan. Foi diferente de tudo o que j experimentei. Achei que tinha perdido o juzo.
       Por algum motivo, foi essa a imagem mais impressionante que me veio  cabea. Considerava o acontecimento global do ponto de vista especial de ter tido outras 
experincias alucingenas com as quais compar-lo, e a nica coisa que me ocorria, repetidamente, era que, com o fumo, a gente perde o juzo.
       Dom Juan no fez caso de minha imagem, dizendo que o que eu sentia era seu poder inimaginvel. E para lidar com aquele poder, disse ele,  preciso viver uma 
vida forte. A idia de vida forte no s pertence ao perodo de preparao, como tambm acarreta a atitude do homem depois da experincia. Disse que o fumo  to 
forte que a gente s pode enfrent-lo com fora; seno, a vida da pessoa seria despedaada.
       Perguntei-lhe se o fumo tinha o mesmo efeito sobre todo mundo. Respondeu que produzia uma transformao, mas no em todo mundo.
       - Ento, qual o motivo especial por que o fumo produziu a transformao em mim? - perguntei.
       - Acho que esta  uma pergunta muito tola. Seguiu obedientemente todos os passos necessrios. No  mistrio que o fumo o tenha transformado.
       Pedi-lhe novamente para me contar a respeito de meu aspecto. Queria saber como tinha ficado, pois a idia de um corpo que ele incutira em minha mente era, 
compreensivelmente, insuportvel.
       Ele disse que, para dizer a verdade, tivera medo de olhar para mim; sentiu-se do mesmo modo que seu benfeitor devia ter-se sentido ao v-lo fumando pela primeira 
vez.
       - Por que teve medo? Eu estava assim to assustador? - indaguei.
       - Nunca havia visto ningum fumando antes.
       - Nunca viu seu benfeitor fumando?
       - No.
       - Nunca viu nem a si mesmo?
       - Como poderia ver-me?
       - Poderia fumar diante de um espelho.
        No respondeu, mas voltou-se para mim e sacudiu a cabea. Tornei a perguntar se era possvel olhar num espelho. Respondeu que seria possvel, embora intil, 
pois a pessoa provavelmente morreria de susto, se no de outra coisa.
        - Ento a gente deve ficar assustador - falei.
        - A vida toda pensei sobre isso mesmo - disse ele. _ No entanto, nunca fiz perguntas, nem espiei no espelho. Nem me lembrei disso.
        - Ento, como posso descobrir?
        - Ter de esperar, assim como eu fiz, at voc dar o fumo a outra pessoa... se algum dia o dominar,  claro. Ento ver como fica o homem.  essa a regra.
        - O que aconteceria se eu fumasse em frente a uma cmara e tirasse um retrato de mim?
        - No sei. O fumo provavelmente se voltaria contra voc. Mas suponho que o considere to inofensivo que pensa que pode brincar com ele.
        Disse-lhe que no pretendia brincar, mas que ele j me havia dito que o fumo no exigia estgios, e pensei que no havia mal em querer saber qual a aparncia 
da pessoa fumando. Corrigiu-me, explicando que tinha querido dizer que no havia necessidade de seguir uma ordem determinada, como no caso da erva-do-diabo; o que 
era necessrio com o fumo era a atitude adequada, disse ele. Desse ponto de vista, a gente tinha de ser exato ao seguir a regra. Deu-me um exemplo, explicando que 
no fazia diferena qual o ingrediente da mistura a ser apanhado primeiro, contanto que a quantidade fosse correta.
        Perguntei se haveria algum mal em contar a terceiros a respeito de minha experincia. Respondeu que os nicos segredos que nunca podiam ser revelados eram 
como fazer a mistura, como se mover e como voltar; os outros assuntos no tinham importncia.

8
       Meu ltimo encontro com Mescalito foi um conjunto de quatro sesses realizadas em quatro dias consecutivos. Dom Juan chamou essa longa sesso um mitote. Era 
uma cerimnia de peyoteros e aprendizes. Havia dois homens mais velhos, mais ou menos da idade de Dom Juan, um dos quais e cinco homens mais moos, inclusive eu.
       A cerimnia teve lugar no Estado de Chihuahua, no Mxico prximo  fronteira do Texas. Consistia em cantar e ingerir o peiote durante a noite. Na parte do 
dia, serventes mulheres, que ficavam fora dos limites do local d cerimnia, forneciam gua aos homens, e somente uma amostra de alimentos rituais eram consumidos 
cada dia.

12 de setembro de 1964

       Na primeira noite da cerimnia, quinta-feira, 3 de setembro, tomei oito botes de peiote. No tiveram efeito sobre mim, ou, se tiveram, foi muito ligeiro. 
Fiquei de olhos fechados a maior parte da noite. Sentia-me muito melhor assim. No dormi, nem fiquei cansado. No fim da sesso, o canto extraordinrio. Por um momento, 
senti-me exaltado e tive vontade de chorar, mas quando terminou o canto a sensao sumiu.
       Ns todos nos levantamos e fomos para fora. As mulheres nos deram gua. Alguns dos homens gargarejaram com ela; outros a beberam. Os homens no falavam nada, 
mas as mulheres conversavam e riam o dia todo. Os alimentos rituais eram servidos ao meio-aia. Consistiam em milho cozido.
        Ao pr-do-sol, na sexta-feira, 4 de setembro, comeou a segunda sesso. O lder cantou sua cano de peiote e recomeou o ciclo de cnticos peiotes e o consumo 
de botes de peiote. Terminou de manh, cada homem cantando sua prpria cano, em unssono com os outros.
        Quando sa, no vi tantas mulheres quanto na vspera. Algum me deu gua, mas eu no estava mais preocupado com o ambiente. Mais uma vez eu ingerira oito 
botes, mas o efeito fora diferente.
        Deve ter sido no fim da sesso que a cantoria se acelerou muito, todo mundo cantando ao mesmo tempo. Percebi que alguma coisa ou algum do lado de fora da 
casa queria entrar. No sabia se a cantoria era para evitar que a coisa entrasse ou para atra-Ia para o interior.
        Era o nico que no tinha uma cano. Todos pareciam olhar para mim com curiosidade, especialmente os mais jovens. Fiquei encabulado e fechei os olhos.
        Ento, percebi que eu podia ver o que se passava muito melhor de olhos fechados. Essa idia ocupou toda minha ateno. Fechei os olhos e vi os homens em 
minha frente. Abri os olhos, e a imagem continuava igual. O ambiente era exatamente igual para mim, de olhos fechados ou abertos.
        Da repente, tudo desapareceu, ou se desfez, e apareceu a figura viril de Mescalito que eu vira dois anos antes. Ele estava sentado a certa distncia, de 
perfil para mim. Olhei-o fixamente, mas ele no olhou para mim; no se virou nem uma vez.
        Achei que estava fazendo alguma coisa errada, alguma coisa que o estava afastando. Levantei-me e fui para junto dele, para perguntar-lhe. Mas meu movimento 
dissolveu a imagem. Comeou a desaparecer e os vultos dos homens que estavam comigo se superpuseram sobre ela. Tornei a ouvir a cantoria alta e frentica.
        Fui para os arbustos prximos e andei um pouco. Tudo estava muito ntido. Reparei que eu estava vendo no escuro, mas dessa vez importava muito pouco. O importante 
era saber por que Mescalito me evitava.
        Voltei para junto do grupo e quando ia entrar na casa, ouvi um ronco pesado e senti um tremor. A terra estava tremendo. Era o mesmo rudo que eu ouvira no 
vale de peiote dois arcos atrs.
        Tornei a correr para dentro dos arbustos. Sabia que Mescalito estava l, e que eu ia encontr-lo. Mas ele no estava. Esperei at de manh e me juntei aos 
outros pouco antes de terminar a sesso.
       O mesmo ritual foi repetido no terceiro dia. No estava cansado mas dormi durante a tarde.
       Na noite de sbado, 5 de setembro, o velho cantou sua cano peiote para recomear o ciclo. Naquela sesso, s mastiguei um boto e no escutei nenhuma das 
canes, nem prestei ateno a nada do que se passou. Desde o primeiro momento, todo meu ser se concentrou unicamente em um ponto. Sabia que uma coisa muito importante 
para o meu bem-estar estava faltando.
       Enquanto os homens cantavam, pedi a Mescalito, em voz alta, que me ensinasse uma cano. Meu pedido misturou-se com os cantos altos dos homens. Imediatamente, 
ouvi uma cano em meus ouvidos. Virei-me e sentei-me de costas para o grupo e escutei. Ouvi a letra e a melodia vrias vezes e as repeti at ter aprendido toda 
a cano. Era uma cano comprida, em espanhol. Ento, cantei-a para o grupo, vrias vezes. E pouco depois uma nova cano insinuou-se nos meus ouvidos. Quando chegou 
a manh, tinha cantado ambas as canes inmeras vezes. Sentia-me renovado, revigorado. 
       Depois de nos darem gua, Dom Juan deu-me um saco e ns todos fomos para os morros. Foi uma caminhada longa e fatigante at uma meseta. Ali vi vrias plantas 
de peiote. Mas por algum motivo, no quis olhar para elas. Depois de atravessarmos o pequeno planalto, o grupo se espalhou. Dom Juan e eu voltamos, colhendo botes 
de peiote, tal como tnhamos feito da primeira vez que o ajudei.
       Voltamos no fim da tarde do domingo, 6 de setembro. De noite o lder reabriu o ciclo. Ningum disse nada, mas eu sabia perfeitamente que era a ltima reunio. 
Dessa vez, o velho cantou uma cano nova. Foi passado em volta um saco com botes frescos de peiote. Era a primeira vez que eu provava um boto fresco. Era polpudo 
mas duro de mascar. Parecia uma fruta verde e dura e era mais amargo do que os botes secos. Pessoalmente, achei o peiote fresco muito mais vivo.
        Mastiguei 14 botes. Contei-os com cuidado. No terminei o ltimo, pois ouvi o rudo especial que marcava a presena de Mescalito. Todos cantavam freneticamente, 
e eu sabia que Dom Juan e todos os outros tinham ouvido o barulho. Recusei-me a pensar que sua reao fosse uma resposta a um sinal dado por um deles, s para me 
enganar.
        Naquele momento, senti uma grande onda de sabedoria me invadir. Uma suposio que eu alimentava havia trs anos transformou-se em certeza. Levara trs anos 
para compreemder, ou melhor, para descobrir, que o que quer que esteja encerrado no cacto Lophophora williamsii no tinha nada a ver comigo para existir como entidade; 
existia por si l fora, solta. Ento eu o soube.
        Cantei febrilmente, at no poder mais pronunciar as palavras. Sentia como se as canes estivessem dentro de meu corpo, sacudindo-me incontrolavelmente. 
Tinha de sair e encontrar Mescalito, seno explodiria. Encaminhei-me para o campo de peiote. Continuei a cantar minhas canes. Sabia que eram minhas, individualmente 
- prova indiscutvel de minha singularidade. Sentia cada passo; eles ressoavam na terra; seu eco produzia a euforia indescritvel de ser homem.
        Cada uma das plantas de peiote no campo brilhava com uma luz azulada e cintilante. Uma das plantas tinha uma luz muito clara. Sentei-me diante dela e cantei-lhe 
minhas canes. Enquanto eu cantava, Mescalito saiu de dentro da planta - o mesmo vulto de homem que eu j vira antes. Olhou para mim. Com grande audcia, para uma 
pessoa do meu temperamento, cantei para ele. Ouvi o som de flautas, ou do vento, uma vibrao musical conhecida. Pareceu dizer-me, como dissera dois anos antes: 
"O que voc quer?"
        Falei bem alto. Disse que eu sabia que havia algo de errado em minha vida e meus atos, mas que no conseguia descobrir o que fosse. Implorei-lhe que me dissesse 
o que havia de errado comigo e tambm para me dizer seu nome, para eu poder cham-lo quando precisasse dele. Olhou para mim, alongou a boca como uma trompa, at 
ela alcanar minha orelha, e depois me disse seu nome.
        De repente, vi meu prprio pai de p no meio do campo de peiote; mas o campo desaparecera e a cena era minha velha casa, o lar de minha infncia. Meu pai 
e eu estvamos de p ao lado de uma figueira. Abracei meu pai e depressa comecei a contar-lhe coisas que nunca tinha podido dizer antes. Todos meus pensamentos eram 
concisos e coerentes. Era como se no tivssemos tempo e eu tivesse de dizer tudo de uma vez. Falei coisas arrasadoras a respeito de meus sentimento para com ele, 
coisas que eu nunca teria podido exprimir, em circunstncias normais.
       Meu pai no disse nada. S ficou ouvindo e depois foi puxado, ou sugado. Fiquei sozinho outra vez. Chorei de remorso e tristeza.
       Passei pelo campo de peiote chamando o nome que Mescalito me ensinara. Alguma coisa surgiu de uma luz estranha, como de estrela, numa planta de peiote. Era 
um objeto comprido e luminoso - um basto de luz do tamanho de um homem. Por um momento, iluminou todo o campo com uma luz intensa, amarelada ou mbar; depois iluminou 
todo o cu, criando um espetculo maravilhoso e portentoso. Achei que ia ficar cego, se continuasse a olhar; cobri os olhos e enterrei a nos braos.
       Tive uma idia clara de que Mescalito me havia dito comer mais um boto de peiote. Pensei: "No posso fazer isso, pois no tenho faca para cort-lo."
       - Coma um do cho - disse-me ele, do mesmo modo estranho.
       Deitei-me de bruos e mastiguei a ponta de uma planta. Aquilo me acendeu. Encheu todos os cantos de meu corpo com calor e clareza. Tudo estava vivo. Tudo 
tinha detalhes delicados e complicados, e no entanto tudo era to simples. Eu estava em toda parte; podia ver para cima e para baixo e em volta, tudo ao mesmo tempo.
       Aquela sensao especial durou o suficiente para eu tomar conhecimento dela. Ento, mudou para um terror opressivo, um terror que no me veio de repente, 
mas rapidamente. A princpio, meu mundo maravilhoso de silncio foi abalado por rudos agudos, mas no me preocupei. Depois, os rudos foram se tornando mais fortes 
e eram ininterruptos, como se me estivessem envolvendo. E aos poucos perdi a sensao de estar flutuando num mundo to diferenciado, indiferente e belo. Os rudos 
se tornaram passadas gigantescas. Alguma coisa enorme respirava e se movia em volta de mim. Achei que me estava caando.
       Corri e escondi-me debaixo de um rochedo e procurei ver dali o que  que me perseguia. Em dado momento, sa de meu esconderijo para olhar, e meu perseguidor, 
fosse quem fosse, avanou. Era como uma alga marinha. Lanou-se sobre mim. Pensei que seu peso fosse esmagar-me, mas encontrei-me dentro de um cano, ou cavidade. 
Vi claramente que a alga no tinha coberto toda a superfcie do solo em volta de mim. Ainda restava um pouco de terra livre debaixo do rochedo. Comecei a rastejar 
para baixo dele. Vi imensos pingos de lquido caindo da alga. Eu "sabia" que ela estava segregando cido digestivo a fim de me dissolver. Um pingo caiu no meu brao; 
tentei esfregar o cido com p e apliquei saliva, enquanto cavava mais. Em certo momento, fiquei quase vaporoso. Estava sendo empurrado para cima, para uma luz. 
Achei que a alga me dissolvera. Vagamente, vi uma luz que se tornava mais forte; estava saindo de debaixo da terra e por fim irrompeu no que reconheci como sendo 
o sol erguendo-se por detrs dos montes.

        Aos poucos, comecei a recuperar meus processos sensoriais normais. Deitei-me de bruos com o queixo sobre meus braos cruzados. A planta de peiote diante 
de mim comeou a iluminar-se de novo e, antes que eu pudesse mexer os olhos, apareceu novamente a luz comprida. Pairou sobre mim. Sentei-me. A luz tocou em meu corpo 
todo com uma fora tranqila, e depois rolou e desapareceu.
        Corri at o lugar onde estavam os outros homens. Todos voltamos para a cidade. Dom Juan e eu ficamos mais um dia com Roberto, o lder de peiote. Dormi o 
tempo todo que passamos l. Quando j amos embora, os rapazes que tinham tomado parte nas sesses de peiote foram procurar-me. Abraaram-me, um por um, e riram, 
encabulados. Cada qual se apresentou. Conversei horas com eles, sobre tudo menos as sesses de peiote.
        Dom Juan disse que estava na hora de partirmos. Os rapazes me abraaram de novo.
        - Volte - disse um deles.
        - J estamos esperando por voc - acrescentou outro.
        Fui embora devagar, procurando ver os homens mais velhos, mas nenhum estava l.

Quinta-feira, 10 de setembro de 1964

        Contar uma experincia a Dom Juan sempre me obrigava a relembr-la passo a passo, o melhor que eu pudesse. Parecia ser este o nico meio de me lembrar de 
tudo.
        Hoje, contei-lhe os detalhes de meu ltimo encontro com Mescalito. Ouviu minha histria atentamente at o ponto em que Mescalito me disse seu nome. Ento, 
Dom Juan me interrompeu.
       - Agora est por si - disse ele. - O protetor o aceitou. De agora em diante, lhe serei de pouca ajuda. No me precisa contar mais nada a respeito de seu relacionamento 
com ele. J sabe o nome dele; e nem seu nome nem suas relaes com voc devem ser mencionados para qualquer ser vivo.
       Insisti que queria contar-lhe todos os detalhes da experincia, pois no fazia sentido para mim. Disse-lhe que precisava da ajuda dele para interpretar o 
que eu havia visto. Respondeu que eu podia fazer isso sozinho, que era melhor comear a pensar por mim. Argumentei que estava interessado em ouvir as opinies dele, 
porque eu levaria muito tempo para chegar a opinies prprias, e no sabia como proceder.
       - Veja as canes, por exemplo - disse eu. - O que significam?
       - S voc pode decidir sobre isso - respondeu. - Como vou saber o que significam? S o protetor pode contar-lhe isso, assim como s ele pode ensinar-lhe suas 
canes. Se eu fosse contar-lhe o que significam, seria o mesmo que voc aprender as canes de outra pessoa.
       - O que quer dizer com isso, Dom Juan?
       - Voc pode saber quem so os impostores ouvindo as pessoas cantando as canes do protetor. S as canes com alma so dele e foram ensinadas por ele. As 
outras so cpias das canes dos outros homens. As vezes, as pessoas so assim, enganadoras. Cantam as canes dos outros sem nem saber o que as mesmas dizem.
       Falei que fazia teno de perguntar para que se usavam as canes. Respondeu que as canes que eu tinha aprendido era para chamar o protetor e que sempre 
devia us-las em conjunto com o nome dele, para cham-lo. Depois, Mescalito provavelmente me ensinaria outras canes para outras finalidades, disse Dom Juan.
       Perguntei-lhe, ento, se achava que o protetor me havia aceito plenamente. Ele riu, como se achasse minha pergunta boba. Disse que o protetor me aceitara 
e fizera questo que eu soubesse que ele me aceitara, mostrando-se a mim como uma luz, por duas vezes. Dom Juan parecia estar muito impressionado com o fato de eu 
ter visto a luz duas vezes. Frisou esse aspecto de meu encontro com Mescalito.
        Disse-lhe que no sabia como seria possvel ser aceito pelo protetor e no entanto ficar aterrorizado por ele.
        Dom Juan ficou muito tempo sem responder. Parecia estar confuso. Por fim, disse:
        - Mas  to claro. O que ele queria  to claro que no sei como  que voc pode deixar de entender.
        - Tudo ainda . incompreensvel para mim, Dom Juan.
        - Leva tempo para realmente ver e compreender o que Mescalito quer dizer; deve pensar em suas lies at elas ficarem claras.

Sexta-feira, 11 de setembro de 1964

        Mais uma vez insisti para que Dom Juan interpretasse minhas experincias visionrias. Despistou um pouco. Depois, falou como se j estivssemos conversando 
a respeito de Mescalito.
        - No v como  tolo perguntar se ele  uma pessoa com quem se pode conversar? - disse Dom Juan. - Ele no se parece com nada que voc j tenha visto.  
como um homem, mas, ao mesmo tempo, no  nada como um homem.  difcil explicar isso a pessoas que no sabem nada sobre ele e que querem saber tudo a seu respeito 
de repente. E depois, suas lies so to misteriosas quanto ele mesmo. Que eu saiba, ningum pode prever seus atos. Se lhe fizer uma pergunta, ele lhe mostra o 
caminho, mas no lhe conta a respeito da mesma maneira que voc e eu conversamos. Agora entende o que ele faz?
        - No creio que eu tenha dificuldade em entender isso. O que no consigo decifrar  o significado dele.
        - Pediu-lhe para lhe dizer o que h de errado com voc, e ele lhe deu o quadro completo. No pode haver engano! No pode dizer que no entendeu. No foi 
uma conversa e, no entanto, foi. Depois, fez-lhe outra pergunta, e ele lhe respondeu exatamente da mesma maneira. Quanto ao que ele queria dizer, no estou certo 
de entend-lo, pois voc resolveu no me dizer qual foi sua pergunta.
        Repeti com cuidado as perguntas que me lembrava de ter feito; coloquei-as na ordem em que as fizera: "Estou fazendo o que  certo? Estou no caminho certo? 
O que devo fazer da minha vida?" Dom Juan disse que as perguntas que eu formulara eram simples palavras; era melhor no pronunciar as perguntas, e sim faz-las de 
dentro. Disse-me que o protetor querido dar-me uma lio; e para provar que queria dar uma lio, e no assustar-me para eu fugir, ele se mostrara duas vezes como 
luz.
       Falei que ainda assim no podia entender por que Mescalito me aterrorizava, se me aceitava. Lembrei a Dom Juan que, segundo suas declaraes, ser aceito por 
Mescalito implicava que sua forma era constante e no mudava da felicidade para o pesadelo. Dom Juan tornou a rir de mim e disse eu pensasse sobre a pergunta que 
tinha no corao quando falei com Mescalito, ento eu prprio havia de compreender a lio.
       Pensar na pergunta que eu tivera em meu "corao" era um problema difcil. Disse a Dom Juan que tinha tido muitas coisas em mente. Quando perguntei se estava 
no caminho certo eu queria dizer: Tenho um p em cada um dos dois mundos? Qual o mundo certo? Que rumo minha vida deve tomar? 
       Dom Juan ouviu minhas explicaes e concluiu que eu no tinha uma viso clara do mundo, e que o protetor me dera uma lio lindamente clara. Ele disse:
       - Voc acha que h dois mundos para voc... dois caminhos. Mas s existe um. O protetor mostrou-lhe isso com uma clareza inacreditvel. O nico mundo possvel 
para voc  o mundo dos homens, e esse mundo voc no pode resolver largar.  um homem! O protetor lhe mostrou o mundo da felicidade, onde no h diferena entre 
as coisas porque l no ningum que indague pela diferena. Mas esse no  o mundo dos homens. O protetor o sacudiu dali para fora e lhe mostrou como  que o homem 
pensa e luta. Este  o mundo do homem! E ser um homem  estar condenado a esse mundo. Voc tem a presuno de crer que vive em dois mundos, mas isso  apenas vaidade. 
S existe um nico mundo para ns. Somos homens, e temos de seguir o mundo dos homens satisfeitos.
       - Creio que foi esta a lio.

9
        Dom Juan aparentemente queria que eu trabalhasse o mais possvel com a erva-do-diabo. Essa atitude estava em desacordo com sua propalada averso pelo poder. 
Ele prprio explicou o fato dizendo que estava prximo o momento em que eu teria de fumar de novo, e que ento j deveria ter adquirido um melhor conhecimento do 
poder da erva-dodiabo.
        Sugeriu vrias vezes que eu devia pelo menos testar a erva-do-diabo por meio de mais uma feitiaria com os lagartos. Cogitei da idia por muito tempo. A 
insistncia de Dom Juan aumentou dramaticamente, at sentir-me obrigado a atender ao pedido dele. E um dia resolvi fazer uma adivinhao a respeito de uns objetos 
roubados.

Segunda-feira, 28 de dezembro de 1964

        No sbado, 19 de dezembro, cortei a raiz de Datura. Esperei at estar bem escuro para executar minha dana em volta da planta. Preparei o extrato da raiz 
durante a noite e, no domingo, por volta das seis da manh, fui ao local de minha Datura. Sentei-me diante da planta. Tinha tomado nota cuidadosamente dos ensinamentos 
de Dom Juan sobre o processo. Tornei a ler minhas anotaes e vi que no era obrigado a moer as sementes ali. Por algum motivo, o simples fato de estar diante da 
planta me dava uma rara estabilidade errocional, uma clareza de pensamentos ou um poder de me concentrar em meus atos que eu normalmente no possua.
        Segui todas as instrues meticulosamente, calculando o tempo de modo que a pasta e a raiz ficassem prontas no fim da tarde. Por volta das cinco horas, estava 
empenhado em pegar um par de lagartos. Durante uma hora e meia tentei todos os mtodos que me ocorreram, mas fracassei em todas as tentativas. 
       Estava sentado defronte da planta de Datura, tentando imaginar uma maneira prtica de atingir meu propsito, quando de repente lembrei-me de que Dom Juan 
dissera que  preciso conversar com os lagartos. A princpio, senti-me ridculo falando com os bichos. Era como estar encabulado ao falar diante de uma platia. 
Mas a sensao logo desapareceu e continuei a falar. Estava quase escuro. Levantei uma pedra. Debaixo dela havia um lagarto. Tinha o aspecto de estar dormente. Apanhei-o. 
E ento vi que havia outro lagarto duro debaixo de outra pedra. Eles nem se contorceram.
        Costurar a boca e os olhos foi a tarefa mais difcil. Reparei que Dom Juan tinha dado um sentido de irrevogabilidade meus atos. A atitude dele era que, quando 
um homem comea um ato, no h meio de parar. No entanto, se eu tivesse querido parar, no havia nada que me impedisse. Talvez eu no quisesse parar.
       Soltei um dos lagartos e ele foi numa direo nordeste - pressgio de uma experincia boa, porm difcil. Prendi o outro lagarto a meu ombro e besuntei as 
tmporas conforme o ordenado. O lagarto estava duro; por um momento, pensei que tivesse morrido, e Dom Juan no me dissera o que devia fazer se isso acontecesse. 
Mas o lagarto estava s dormente.
        Bebi a poo e esperei. No senti nada de extraordinrio. Comecei a esfregar a pasta em minhas tmporas. Apliquei-a 25 vezes. Depois, mecanicamente, como 
se eu estivesse distrado, espalhei-a repetidamente por toda a testa. Percebi meu engano e depressa limpei a pasta. Minha testa estava moIhada de suor; fiquei febril. 
Uma ansiedade intensa me dominou, pois Dom Juan me avisara sempre de que no passasse a pasta na testa. O medo transformou-se numa sensao de completa solido, 
uma sensao de estar condenado. Estava ali sozinho. Se alguma coisa de ruim ia acontecer-me, no havia ningum para me ajudar. Queria fugir. Tinha uma sensao 
alarmante de indeciso, de no saber o que fazer. Um mundo de pensamentos me passou pela cabea, numa velocidade extraordinria. Reparei que eram pensamentos meio 
estranhos; isto , eram estranhos no sentido de que pareciam surgir de maneira diferente de pensamentos comuns. Sei a maneira como penso. Meus pensamentos tm uma 
ordem definida que  minha, e qualquer desvio  perceptvel.
        Um dos pensamentos estranhos foi sobre uma declarao feita por um autor. Lembro-me vagamente de que era mais como uma voz, ou alguma coisa dita em algum 
lugar nos fundos. Aconteceu to depressa que me assustou. Parei para pensar nele, mas transformou-se num pensamento comum. Estava certo de ter lido a declarao, 
mas no conseguia lembrar-me do nome do autor. De repente, lembrei-me de que era Alfred Kroeber. Ento, outro pensamento estranho apareceu e "disse" que no era 
Kroeber, e sim Georg Simmel quem fizera tal declarao. Insisti que era Kroeber, e quando vi estava discutindo comigo mesmo. E tinha esquecido da sensao de estar 
condenado.
        Minhas plpebras estavam pesadas, como se eu tivesse tomado comprimidos para dormir. Embora eu nunca tivesse tomado essas coisas, foi a imagem que me ocorreu. 
Estava adormecendo. Queria ir para meu carro e entrar nele, mas no consegui mover-me.
        Depois, de repente, acordei, ou melhor, senti claramente que tinha acordado. Meu primeiro pensamento foi a respeito da hora. Olhei em volta. No estava em 
frente da planta de Datura. Displicentemente, aceitei o fato de estar tendo mais uma experincia de adivinhao. Eram 12:35 por um relgio acima de minha cabea. 
Sabia que era de tarde.
        Vi um rapaz carregando uma pilha de papis. Eu estava quase tocando-o. Vi as veias do pescoo dele pulsando e ouvi batidas rpidas de seu corao. Eu estava 
absorto no que via e, at ento, no tinha conscincia da qualidade de meus pensamentos. Ento, ouvi uma "voz" no meu ouvido descrevendo a cena, e percebi que a 
"voz" era o pensamento estranho em minha cabea.
        Fiquei to absorto em escutar que a cena perdeu seu interesse visual para mim. Ouvi a voz em meu ouvido direito, acima de meu ombro. Ela realmente criava 
a cena, descrevendo-a. Mas obedecia  minha vontade, pois eu podia par-la a qualquer momento e examinar os detalhes do que dizia  minha vontade. "Ouvi-vi" toda 
a seqncia dos atos do rapaz. A voz continuou a explic-los detalhadamente, mas, por algum motivo, a ao no era importante. A vozinha  que era a questo extraordinria. 
Trs vezes, no curso da experincia, tentei virar-me para ver quem estava falando. Tentei virar a cabea completamente para a direita, ou virar de repente para ver 
se havia algum ali. Mas cada vez que o fazia, minha viso se turvava. Pensei: "O motivo por que no me posso virar  que a cena no est no reino da realidade normal". 
E esse pensamento era meu. 
       Da em diante, concentrei minha ateno apenas na voz. Parecia vir de meu ombro. Era perfeitamente clara, embora fosse uma vozinha fraca. Mas no era voz 
de criana nem de falsete, e sim a voz de um homem em miniatura. Tampouco era minha voz. Supus que fosse ingls, o que eu estava ouvindo. Sempre que tentava propositadamente 
pilhar a voz, ela parava totalmente, ou abaixava, e a cena desaparecia. Pensei imagem. A voz era como a imagem criada por partculas de poeira nas pestanas, ou os 
vasos sanguneos na crnea do olho, uma forma de verme que pode ser vista enquanto a gente no olha diretamente para ela; mas no momento em que a gente procura olh-la, 
sai de foco com o movimento do globo ocular.
Desinteressei-me completamente da ao. Enquanto escutava, a voz tornou-se mais complexa. O que eu pensava ser uma voz, era mais como alguma coisa cochichando idias 
em meu ouvido. Mas isso no era certo. Alguma coisa estava pensando por mim. Os pensamentos eram fora de mim. Eu sabia que era assim, porque podia conter as minhas 
idias e as idias do "outro" ao mesmo tempo.
        Em certo ponto, a voz criou cenas representadas pelo rapaz, que nada tinham a ver com minha pergunta originria sobre os objetos perdidos. O rapaz fazia 
coisas muito complexas. A ao se tornara importante de novo e no dei mais ateno a voz. Comecei a perder a pacincia; eu queria parar. "Como posso fazer isso 
parar?", pensei. A voz em meu ouvido disse que eu devia voltar  garganta. Perguntei como, e a voz respondeu que eu devia pensar em minha planta.
       Pensei em minha planta. Geralmente, sentava-me em frente dela. J fizera isso tantas vezes que foi bem fcil visualiza-la. Acreditei que v-Ia, como a vi 
naquele momento, era mais outra alucinao, mas a voz dizia que eu estava "de volta"! Esforcei-me para escutar. S havia silncio. A planta de Datura ira diante 
de mim parecia to real quanto tudo o mais que eu havia visto, mas podia toc-la, podia mover-me.
        Levantei-me e fui para meu carro. O esforo me deixou exausto; sentei-me e fechei os olhos. Estava tonto e com vontade de vomitar. Sentia um zumbido nos 
ouvidos.
        Alguma coisa deslizou para meu peito. Era o lagarto, Lembrei-me da advertncia de Dom Juan, para solt-lo. Voltei para a planta e desprendi o lagarto. Nem 
queria ver se estava vivo ou morto. Quebrei o pote de barro com a pasta e chutei um pouco de terra por cima. Entrei em meu carro e adormeci.

Quinta-feira, 24 de dezembro de 1964
        Hoje, narrei toda a experincia a Dom Juan. Como sempre, escutou sem me interromper. No final, tivemos o seguinte dilogo:
        - Fez uma coisa muito errada.
        - Eu sei. Foi um erro muito estpido, um acidente.
        - No h acidentes quando se trata da erva-do-diabo. Disse-lhe que ela o poria  prova o tempo todo. Na minha opinio, ou voc  muito forte, ou a erva realmente 
gosta de voc. O centro da testa  s para os grandes brujos, que sabem como tratar o poder dela.
        - O que costuma acontecer quando o homem esfrega,a testa com a pasta, Dom Juan?
        - Se o homem no for um grande brujo, nunca voltar da viagem.
        - J esfregou a pasta na testa, Dom Juan?
        - Nunca! Meu benfeitor disse que muito poucas pessoas voltam dessa viagem. O homem poderia partir por meses, e teria de ser tratado por outros. Meu benfeitor 
falou que os lagartos podiam levar o homem at o fim do mundo e mostrar-lhe os segredos mais maravilhosos, se solicitados.
        - Conhece algum que j tenha feito essa viagem?
        - Sim, meu benfeitor. Mas nunca me ensinou como se volta.
        - E assim to difcil voltar, Dom Juan?
        - , sim.  por isso que seu ato  realmente surpreendente para mim. Tinha passos a seguir, e temos de seguir certos passos, pois  nos passos que o homem 
encontra fora. Sem eles, no somos nada.
        Ficamos calados durante horas. Ele parecia estar absorto numa meditao profunda.

Sbado, 26 de dezembro de 1964

       Dom Juan perguntou-me se eu tinha procurado os lagartos. Disse-lhe que sim, mas que no os conseguira encontrar. Perguntei-lhe o que teria acontecido se um 
dos lagartos morresse enquanto o segurava. Respondeu que a morte de um lagarto seria um acontecimento infeliz. Se o lagarto de boca costurada tivesse morrido a qualquer 
momento, no haveria mais razo para continuar com o feitio, disse ele. Tambm teria significado que os lagartos tinham retirado sua amizade e eu teria de desistir 
de aprender a respeito da erva-do-diabo muito tempo.
       - Por quanto tempo, Dom Juan?
       - Dois anos ou mais.
       - O que aconteceria se o outro lagarto tivesse morrido?
       - Se o segundo lagarto morresse, voc estaria em perigo real. Estaria sozinho, sem um guia. Se morresse antes de comear o feitio, voc poderia parar; mas 
se parasse, tambm teria de abandonar de vez a erva-do-diabo. Se o lagarto morresse enquanto estivesse em seu ombro, depois de comear o feitio, teria de continuar 
com ele, e isso seria mesmo loucura.
       - Por que seria uma loucura?
       - Porque nessas condies, nada faz sentido. Est sozinho, sem um guia, vendo coisas assustadoras e sem nexo.
       - O que quer dizer "coisas sem nexo"?
       - Coisas que vemos sozinhos. Coisas que vemos quando no temos direo. Quer dizer que a erva-do-diabo est procurando livrar-se de voc e finalmente expulsando-o.
       - Conhece algum que j tenha experimentado isso?
       - Conheo, sim. Eu. Sem a sabedoria dos lagartos, fiquei maluco.
       - O que viu, Dom Juan?
       - Uma poro de tolices. Que mais haveria de ver, sem direo?
       
Segunda-feira, 28 de dezembro de 1964

        - Voc me disse, Dom Juan, que a erva-do-diabo pe os homens a prova. O que queria dizer com isso?
        - A erva-do-diabo  como uma mulher, e como mulher, lisonjeia os homens. Prepara armadilhas para eles a cada passo. Fez isso com voc, quando o forou a 
passar a pasta na testa. H de tentar de novo, e voc provavelmente cair. Estou-lhe advertindo. No a tome com paixo, a erva-do-diabo  apenas um dos caminhos 
para os segredos de um homem de conhecimento. H outros caminhos. Mas a armadilha dela  faz-lo crer que o caminho dela  o nico. Digo que  intil desperdiar 
a vida num caminho, especialmente se esse caminho no tiver corao.
        - Mas como  que sabe quando o caminho no tem corao, Dom Juan?
        - Antes de segui-lo, voc faz a pergunta: esse caminho tem corao? Se a resposta for no, voc o saber, e ento deve escolher outro caminho.
        - Mas como saberei ao certo se um caminho tem ou no corao?
        - Qualquer pessoa sabe isso. O problema  que ningum faz a pergunta; e quando o homem afinal descobre que tomou um caminho sem corao, o caminho est pronto 
para mat-lo. Nesse ponto muito poucos homens conseguem parar para pensar e deixar o caminho.
        - Como devo fazer para perguntar direito, Dom Juan?
        - Pergunte, apenas.
        - Quero dizer, existe um mtodo apropriado, para no mentir a mim mesmo, acreditando que a resposta  sim quando na verdade  no?
        - Por que havia de mentir?
        - Talvez porque no momento o caminho seja agradvel.
        - Isso  tolice. Um caminho sem corao nunca  agradvel. Tem de trabalhar muito at para segui-lo. Por outro lado, um caminho com corao  fcil; no 
o faz trabalhar para gostar dele.
        De repente, Dom Juan mudou de assunto e rudemente apresentou-me a idia de que eu gostava da erva-do-diabo. Tive de confessar que tinha pelo menos uma preferncia 
por ela. Perguntou o que eu achava do aliado dele, o fumo, e tive de lhe dizer que a simples idia dele me assustava barbaramente.
        - J lhe disse que, para escolher um caminho, voc deve estar livre do medo e da ambio. Mas o fumo o cega de medo, e a erva-do-diabo o cega de ambio.
       Argumentei que a gente precisa de ambio at para tomar algum caminho, e que a afirmao dele, de que a gente tinha de ser livre de ambio, no tinha sentido. 
Uma pessoa tem de ter ambio para poder aprender.
- O desejo de aprender no  ambio - disse ele. -  nosso destino como homens querer saber, mas procurar a erva-do-diabo  querer o poder, e isso  ambio, pois 
voc no est querendo saber. No deixe que a erva-do-diabo o segue. J o fisgou. Engoda os homens e lhes d uma sensao de poder; ela os faz sentir que podem fazer 
coisas que nenhum homem comum pode fazer. Mas isso  a armadilha dela. E em seguida o caminho sem corao se volta contra os homens e os destri. No custa muito 
morrer, e procurar a morte  no procurar nada.


10

        No ms de dezembro de 1964 Dom Juan e eu fomos colher as vrias plantas necessrias para fazer a mistura do fumo. Era o quarto ciclo. Dom Juan apenas supervisionava 
meus atos. Aconselhava-me a andar devagar, a olhar e pensar antes de colher qualquer planta. Assim que os ingredientes estavam todos colhidos e guardados, aconselhou-me 
a me encontrar de novo com seu aliado.

Quinta-feira, 31 de dezembro de 1964

        - Agora que sabe um pouco mais a respeito da ervado-diabo e do fumo, pode dizer mais claramente qual dos dois prefere - disse Dom Juan.
        - O fumo realmente me assusta, Dom Juan. No sei bem por qu, mas no tenho um bom sentimento a respeito.
        - Gosta da lisonja, e a erva-do-diabo o lisonjeia. Como uma mulher, ela o faz sentir-se bem. O fumo, por outro lado,  o poder mais nobre; tem o corao 
mais puro. No engoda os homens nem os aprisiona, nem ama nem odeia. S o que quer  a fora. A erva-do-diabo tambm necessita de fora, mas de um tipo diferente. 
Fica-se mais perto da virilidade em relao s mulheres. Ao contrrio, a fora exigida pelo fumo  a do corao. Voc no tem isto! Mas muito poucos homens o tm. 
 por isso que lhe recomendo que aprenda mais a respeito do fumo. Ele revigora o corao. No  como a erva-do-diabo, cheio de paixes, cimes e violncia. O fumo 
 constante. No precisa preocupar-se em esquecer alguma coisa no processo.


Quarta-feira, 27 de janeiro de 1965

       Na tera-feira, 19 de janeiro, tornei a fumar a mistura alucingena. Tinha dito a Dom Juan que estava muito apreensivo quanto ao fumo, e que ele me apavorava. 
Respondeu que eu devia experiment-lo novamente para poder julg-lo com justia.
       Fomos para o quarto dele. Eram quase duas horas da tarde. Apanhou o cachimbo. Fui pegar os carves, e ficamos sentados, um defronte do outro. Falou que ia 
aquecer o cachimbo e despert-lo e que, se eu olhasse bem, podia ver como ardia. Levou o cachimbo aos lbios umas trs ou quatro vezes o sugou. Esfregou-o com carinho. 
De repente, meneou a cabea, quase imperceptivelmente, fazendo-me um sinal para ver o despertar do cachimbo. Olhei, mas no consegui ver.
        Deu-me o cachimbo. Enchi o fornilho com minha mistura, e depois peguei um carvo em brasa com uma pina que eu fizera de um pregador de roupa de madeira 
e que tinha guardado para aquela ocasio. Dom Juan olhou para minha pina e comeou a rir. Vacilei um momento e o carvo ficou grudado na pina. Tive medo de bater 
com eles no cachimbo, e tive de cuspir no carvo para apag-lo.
       Dom Juan virou a cabea e cobriu corpo estava-se sacudindo. Por um momento pensei que estivesse chorando, porm estava rindo, quieto.
        A ao foi suspensa por muito tempo; ento, rapidamente pegou um carvo, colocou-o no fornilho e mandou que eu fumasse. Era preciso fazer um esforo enorme 
para sugar a mistura; ela parecia estar muito compacta. Depois de experimentar uma vez, senti que tinha sugado o p fino para dentro de minha boca, que ficou logo 
dormente. Vi o brilho do fornilho mas no sentia a fumaa como a de um cigarro. No entanto tinha a sensao de estar inalando alguma coisa, que primeiro me enchia 
os pulmes e depois descia para encher o resto de meu corpo.
       Contei 20 inalaes, e depois a contagem no interessava mais. Comecei a transpirar; Dom Juan olhou-me fixamente e ele dizia. Tentei dizer "Est bem", mas, 
em vez disso, fiz um rudo estranho, uivante, que continuou a ressoar depois de fechar a boca. O som espantou Dom Juan, que teve outro acesso de riso. Eu quis fazer 
que "sim" com a cabea, mas no podia mover-me.
        Dom Juan abriu minhas mos delicadamente e tirou-me o cachimbo. Mandou que me deitasse no cho, mas que no adormecesse. Pensei que me ia ajudar a deitar, 
mas no ajudou. S ficou olhando para mim sem cessar. De repente, vi que o quarto estava-se desmoronando, e estava olhando para Dom Juan de uma posio de lado. 
Da em diante as imagens ficaram estranhamente embaraadas, como num sonho. Lembro-me vagamente de ter ouvido Dom Juan falar muito comigo durante o tempo em que 
fiquei imvel.
        No senti medo, nem sensaes desagradveis durante o estado em si, nem fiquei enjoado quando acordei no dia seguinte. A nica coisa fora do comum foi que 
no conseguia pensar claramente por algum tempo depois de ter acordado. Aos poucos, porm, num perodo de quatro ou cinco horas, voltei a meu normal.

Quarta-feira, 20 de janeiro de 1965

        Dom Juan no falou sobre minha experincia, nem pediu que a descrevesse. Seu nico comentrio foi que eu tinha adormecido depressa demais.
        - O nico jeito de ficar acordado  tornar-se um passarinho, um grilo ou coisa parecida - disse ele.
        - Como  que se faz isso, Dom Juan?
        -  isso que lhe estou ensinando. Lembra-se do que lhe disse ontem quando voc estava sem seu corpo?
        - No me lembro bem.
        - Sou um corvo. Estou-lhe ensinando a virar corvo. Quando aprender isso, vai ficar acordado, e mover-se- livremente; se no, voc ficar sempre pregado 
no cho, onde quer que caia.

Domingo, 7 de fevereiro de 1965

        Minha segunda tentativa com o fumo realizou-se por volta do meio-dia, no sbado, dia 30 de janeiro. Acordei no dia seguinte no princpio da, noite. Tinha 
a sensao de possuir um poder excepcional de me lembrar de tudo o que Dom Juan. me dissera durante a experincia. Suas palavras estavam impressas em minha mente. 
Ouvia-as com uma clareza e persistncia extraordinrias. Durante essa tentativa, outro fato se tornou evidente para mim: todo meu corpo tinha-se tornado dormente 
logo depois que comecei a engolir o p fino, que me entrava na boca cada vez que sugava o cachimbo. Assim, no s inalava o fumo, como tambm ingeria a mistura.
        Tentei narrar minha experincia a Dom Juan; respondeu que eu no tinha feito nada de importante. Mencionei que me lembrava de tudo o que tinha acontecido, 
mas ele no quis saber. Cada recordao era precisa e inconfundvel. O processo de fumar tinha sido o mesmo que na tentativa anterior. Era quase como se as duas 
experincias fossem perfeitamente passveis de justaposio, e podia comear a recordar-me do momento em que terminou a primeira experincia. Lembrei-me claramente 
de que, desde o momento em que ca no cho, de lado, fiquei inteiramente desprovido de sentimentos e pensamentos. No entanto, minha clareza no se alterou de maneira 
alguma. Lembro-me de meu ltimo pensamento, quando o quarto se tornou um plano vertical: "Devo ter batido com a cabea no cho, e no entanto no sinto dor alguma".
        Desse ponto em diante, s conseguia ver e ouvir. Repetia todas as palavras que Dom Juan dizia. Seguia todas suas direes. Pareciam claras, lgicas e fceis. 
Falou que meu corpo estava desaparecendo e que s sobraria minha cabea, e que, em tais condies, o nico meio de ficar desperto e me mover era tornar-me um corvo. 
Ordenou-me que fizesse um esforo para piscar, acrescentando que, sempre que eu conseguisse piscar, estaria pronto para prosseguir. Depois, disse-me que meu corpo 
tinha desaparecido completamente e que s tinha a cabea; disse que esta nunca desaparece porque  a cabea que se transforma em corvo.
        Mandou que eu piscasse. Deve ter repetido essa ordem e todas as outras inmeras vezes, pois eu me lembrava de todas com uma clareza extraordinria. Devo 
ter piscado, pois ele disse que eu estava pronto e mandou que endireitasse a cabea e a pusesse no queixo. Disse que no queixo estavam as pernas do corvo. Mandou 
que sentisse as pernas e observasse que elas estavam saindo devagar. Depois, disse que eu ainda no estava slido, que tinha de deixar crescer uma cauda e que esta 
sairia de meu pescoo. Mandou que estendesse a cauda como um leque, e que sentisse como ela varria o cho.
        Em seguida, falou sobre as asas do corvo e disse que sairiam de meus maxilares, explicando que isso era difcil e doloroso. Mandou que as estendesse. Disse 
que tinham de ser extremamente longas, to longas quanto eu pudesse estende-las, seno no conseguiria voar. Disse-me que as asas estavam saindo e que eram longas 
e lindas, e que eu teria de bat-las at serem asas de verdade.
        Falou da parte de cima de minha cabea e disse que ainda estava muito grande e pesada, e que seu volume impediria que eu voasse. Disse-me que o meio de reduzir 
seu tamanho seria piscando; cada vez que eu piscasse, minha cabea diminuiria. Mandou que piscasse at sumir o peso de cima e eu poder saltar livremente. Ento, 
falou que eu tinha reduzido minha cabea ao tamanho de um corvo e que tinha de andar e pular at perder minha rigidez.
        Havia uma ltima coisa que eu tinha de mudar, disse ele, antes de poder voar. Era a transformao mais difcil, e para realiz-la eu tinha de ser dcil e 
fazer exatamente o que ele me mandasse. Tinha de aprender a ver como um corvo. Disse que minha boca e meu nariz iam crescer entre meus olhos at eu ter um bico forte. 
Disse que os corvos sabem ver para os lados, e mandou que eu virasse a cabea e olhasse para ele com um dos olhos. Explicou que, se eu quisesse trocar e olhar com 
o outro olho, teria de passar o bico para baixo, e que esse movimento me faria ver pelo outro olho. Mandou que trocasse de um olho para o outro. E ento falou que 
eu estava pronto para voar e que o nico meio de voar era deixar que ele me lanasse no ar.
        No tive nenhuma dificuldade em ter as sensaes correspondentes a todas as ordens dele. Tive a percepo de estar deixando crescer pernas de pssaros, que, 
a princpio, eram fracas e vacilantes. Senti uma cauda saindo de minha nuca e asas de meus maxilares. As asas estavam bem dobradas. Senti que vinham saindo aos poucos. 
O processo foi difcil, mas no doloroso. Depois, pisquei at reduzir minha cabea ao tamanho de um corvo. Mas o efeito mais surpreendente foi o dos olhos. Minha 
viso de pssaro!
        Quando Dom Juan me mandou deixar crescer um bico, tive uma sensao aborrecida de falta de ar. Ento, alguma coisa intumesceu-se e criou uma obstruo em 
minha frente. Mas foi s quando Dom Juan me mandou olhar lateralmente que meus olhos conseguiram uma viso completa para os lados. Conseguia piscar um olho de cada 
vez e passar o foco de um olho para o outro. Mas a viso do quarto e tudo nele no era como a viso comum. No entanto, era impossvel dizer de que modo era diferente. 
Talvez fosse torta, talvez as coisas estivessem fora de foco. Dom Juan tornou-se muito grande 'e brilhante. Alguma coisa nele era confortadora e segura. De repente, 
as imagens se turvaram; perderam seus contornos e tornaram-se padres abstratos que oscilavam por algum tempo.

Domingo, 28 de maro de 1965

        Na quinta-feira, 18 de maro, tornei a fumara mistura alucingena. O processo inicial foi diferente em ligeiros detalhes. Tive de tornar a encher o fornilho 
do cachimbo uma vez. Depois que terminei a primeira mistura, Dom Juan mandou que eu limpasse o fornilho, mas ele mesmo ps a mistura, pois faltava-me coordenao 
muscular. Era um esforo muito grande para mim mover os braos. Em meu saquinho, havia mistura suficiente para encher o cachimbo uma vez. Dom Juan olhou no saquinho 
e disse que aquela seria minha ltima tentativa com o fumo at o ano seguinte, pois j tinha usado toda minha proviso.
        Virou o saquinho do avesso e sacudiu a poeira no pratinho com os carves. Ela ardeu com um brilho laranja, como se Dom Juan tivesse colocado uma folha de 
material transparente sobre os carves. A folha pegou fogo e depois formou um desenho complicado de linhas. Alguma coisa ziguezagueava pelas linhas em grande velocidade. 
Vi uma coisa que parecia uma bolinha de gude rolando para l e para c dentro do lugar aceso. Debruou-se, ps a mo ali, pegou a bolinha e colocou-a no fornilho 
do cachimbo. Mandou que eu desse uma tragada. Tive a impresso exata de que tinha posto a bolinha no cachimbo para eu sug-la. Num instante a quarto perdeu sua posio 
horizontal. Senti uma dormncia profunda, uma sensao de peso.
        Quando acordei, estava deitado de costas no fundo de uma vala de irrigao rasa, mergulhado na gua at o queixo. Algum estava segurando minha cabea para 
cima. Era Dom Juan. A primeira idia que tive foi que a gua no canal tinha uma propriedade rara; era fria e pesada. Batia de leve contra mim, e minhas idias se 
aclaravam com cada movimento que fazia. A princpio, a gua tinha um halo verde brilhante, ou uma fluorescncia, que logo se dissolveu, deixando apenas um riacho 
de gua comum.
        Perguntei a Dom Juan que horas eram. Respondeu que era de manh cedo. Pouco depois, estava completamente desperto e sa da gua.
        - Tem de me contar tudo o que viu - disse Dom Juan, quando chegamos  casa dele. Falou ainda que estava tentando "trazer-me de volta" havia trs dias, e 
tinha tido muita dificuldade nisso. Fiz muitas tentativas para descrever o que tinha visto, mas no conseguia concentrar-me. Mais tarde, no princpio da noite, achei 
que estava pronto para conversar com Dom Juan e comecei a contar-lhe tudo o que me lembrava desde que tinha cado de lado, mas ele no queria ouvir. Disse que a 
nica coisa interessante era o que vi e fiz depois que ele me "lanou no ar e eu voei embora".
        S me lembrava de uma srie de cenas ou imagens como de sonho. No tinham uma ordem de seqncia. Tive a impresso de que cada uma era como uma bolha isolada, 
flutuando para o foco e depois se afastando. Mas no eram simples cenas de se olhar. Eu estava dentro delas. Participava delas. Quando a princpio tentei lembrar-me 
das mesmas, tive a sensao de serem lampejos vagos e difusos, mas, depois, percebi que cada qual era extremamente clara, embora totalmente sem relao com a viso 
normal, e da a sensao de serem vagas. As imagens eram poucas e simples.
        Assim que Dom Juan mencionou que me "lanara ao ar", tive uma vaga lembrana de uma cena completamente clara, em que estava olhando diretamente para ele 
de alguma distncia. S olhava para seu rosto. Era de um tamanho monumental. Era chato e tinha um brilho intenso. Os cabelos dele eram amarelados e se moviam. Cada 
parte do rosto dele se movia sozinha, projetando uma espcie de luz mbar.
        A imagem seguinte foi aquela em que Dom Juan tinha realmente me lanado numa direo para a frente. Lembrei-me de ter "estendido as asas e voado". Senti-me 
sozinho, cortando o ar, movendo-me para a frente com dificuldade. Parecia mais estar andando do que voando. Cansava meu corpo. No havia nenhuma sensao de voar 
livre, nenhuma exuberncia.
        Em seguida, lembrei-me de um momento em que fiquei imvel, olhando para uma massa de bordas ntidas e escuras, num lugar que tinha uma luz baa e dolorosa; 
depois, vi um campo com uma variedade infinita de luzes. Estas se moviam e oscilavam e mudavam sua luminosidade. Eram quase como cores. Sua intensidade me ofuscou.
        Em outro momento, um objeto estava quase encostando em meu olho. Era um objeto grosso e pontudo; tinha um brilho rosado definido. Senti um tremor sbito 
em algum ponto do meu corpo e vi uma multido de formas rosadas semelhantes avanando para mim. Todas avanaram sobre mim. Dei um salto e fugi.
        A ltima cena de que me lembrei foi de trs pssaros prateados. Irradiavam uma luz brilhante e metlica, quase como o ao inoxidvel, mas intensa, mvel 
e viva. Gostei deles. Voamos juntos.
        Dom Juan no fez comentrios sobre minha narrativa.

Tera-feira, 23 de maro de 1965

        A seguinte conversa teve lugar no dia posterior, depois da narrativa de minha experincia:
        - No precisa muita coisa para virar corvo - disse Dom Juan. - Voc o conseguiu e agora ser sempre corvo.
        - O que aconteceu depois que eu virei corvo, Dom Juan? Voei durante trs dias?
        - No, voltou de noite, como eu lhe disse.
        - Mas como foi que voltei?
        - Estava muito cansado e foi dormir. S isso.
        - Quero dizer, voei de volta?
        - J lhe disse. Obedeceu-me e voltou para casa. Mas no se preocupe com isso. No tem importncia.
        - Ento, o que  importante?
        - Em toda sua viagem, s houve uma coisa de grande valor... os pssaros prateados!
        - O que havia de to especial neles? Eram apenas pssaros.
        - No apenas pssaros... corvos.
        - Eram corvos brancos, Dom Juan?
        - As penas pretas do corvo na verdade so prateadas. Os corvos brilham to intensamente que no so aborrecidos pelos outros pssaros.

        - Por que as penas pareciam prateadas?
        - Porque voc estava vendo como um corvo v. Um pssaro que nos parece escuro, ao corvo parece branco. Os pombos brancos, por exemplo, so rosa ou azulados 
para o corvo; as gaivotas so amarelas. Agora, procure lembrar-se de como se juntou a eles.
        Pensei naquilo, mas os pssaros eram uma imagem vaga e dissociada, sem continuidade. Disse-lhe que s me podia lembrar de que sentia que tinha voado com 
eles. Perguntou-me se eu me associara a eles no ar ou no cho, mas eu no podia responder a isso. Quase se zangou comigo. Pediu para eu pensar a respeito. Disse:
        - Tudo isso no vai significar nada, que diabo; ser apenas um sonho louco se voc no se lembrar direito.
        Esforcei-me para lembrar, mas no consegui.

Sbado, 3 de abril de 1965

        Hoje, pensei em outra imagem em meu "sonho" com os pssaros prateados. Lembro-me de ter visto uma massa escura com milhares de furinhos. Na verdade, a massa 
era um aglomerado escuro de furinhos. No sei por que pensei que fosse macia. Quando estava olhando para ela, trs pssaros voaram diretamente para mim. Um deles 
fez um barulho; depois os trs estavam juntos de mim, no cho.
        Descrevi a imagem para Dom Juan. Perguntou-me de que direo os pssaros tinham vindo. Respondi que no podia saber isso. Ficou muito irritado e acusou-me 
de ser inflexvel em meus pensamentos. Disse que eu podia lembrar-me perfeitamente se quisesse e que eu tinha medo de me deixar ser menos rgido. Falou que eu estava 
raciocinando em termos de corvos e homens, e que no era nem um corvo nem um homem no momento em que queria recordar.
        Pediu para lembrar-me do que o corvo me dissera. Tentei pensar a respeito, mas minha mente pensou em dezenas de outras coisas. No conseguia concentrar-me.

Domingo, 4 de abril de 1965

        Hoje fui dar um longo passeio a p. Estava bem escuro quando cheguei  casa de Dom Juan. Estava pensando nos corvos, quando, de repente, um "pensamento" 
muito estranho me passou pela cabea. Era mais uma impresso ou sensao, do que um pensamento. O pssaro que tinha feito o barulho, disse que eles vinham do norte 
e iam para o sul, e quando nos, encontrssemos de novo eles viriam do mesmo sentido.
        Contei a Dom Juan o que tinha pensado, ou talvez me lembrado.
        - No fique pensando se voc se lembrou ou inventou isso - disse ele. - Esses pensamentos so s de homens. No so de corvos, especialmente daqueles que 
voc viu, pois eles so os emissrios de seu destino. Voc j  um corvo. Nunca h de modificar isso. De hoje em diante, os corvos lhe contaro, com seu vo, todas 
as voltas de seu destino. Em que direo voou com eles?
        - No posso saber isso, Dom Juan!
        - Se pensar bem, vai lembrar-se. Sente-se no cho e diga-me a posio em que estava quando os corvos voaram at voc. Feche os olhos e trace uma linha no 
cho.
        Segui a sugesto dele e determinei o ponto.
        - No abra os olhos ainda! - continuou. - Em que direo vocs todos voaram com relao a esse ponto?
        Fiz outra marca no cho.
        Tomando aqueles pontos como orientao e referncia, Dom Juan interpretou os vrios desenhos de vo que os corvos fariam para prever meu futuro ou destino 
pessoal. Traou os quatro pontos cardeais como o eixo do vo do corvo.
        Perguntei-lhe se os corvos sempre seguiam os pontos cardeais para dizer o destino do homem. Respondeu que a orientao era s minha; tudo o que os corvos 
fizessem em meu primeiro encontro com eles era da maior importncia. Insistiu para eu recordar todos os detalhes, pois a mensagem e o padro dos "emissrios" eram 
um assunto individual e pessoal.
        Havia mais uma coisa que ele insistia em que eu devia lembrar: a hora do dia em que os emissrios me deixaram. Pediu que pensasse nas diferenas de luz em 
volta de mim entre o momento em que "comecei a voar" e o momento em que os pssaros prateados "voaram comigo". Da primeira vez que tive a sensao de um vo doloroso, 
estava escuro. Mas quando vi os pssaros, tudo estava avermelhado - vermelho-claro, ou talvez laranja.
        - Isso significa que era na parte da tarde - disse ele. - O Sol ainda no se tinha posto. O corvo fica cego com a claridade e no com a escurido. Essa indicao 
da hora situa seus ltimos emissrios no fim do dia. Eles lhe chamaro e, ao voarem por cima de sua cabea, tornar-se-o brancos prateados; voc os ver brilhando 
no cu e isso significar que sua hora chegou. Significar que vai morrer e virar um corvo.
       - E se eu os vir de manh?
       - No os ver de manh!
       - Mas os corvos voam o dia todo.
       - No os seus emissrios, seu bobo!
       - E os seus emissrios, Dom Juan?
        - Os meus viro de manh. Tambm haver trs deles. Meu benfeitor me disse que a gente pode gritar para eles voltarem a ser pretos, se no quiser morrer. 
Mas agora sei que isso no se pode fazer. Meu benfeitor era dado a gritar, e a todo o barulho e violncia da erva-do-diabo. Sei que o fumo  diferente porque no 
tem paixo. B justo. Quando seus emissrios prateados vierem busc-lo, no precisa gritar. Basta voar com eles, como j fez. Depois de terem apanhado voc, eles 
vo mudar de direo e sero quatro voando embora.

Sbado, 10 de abril de 1965

        Eu estava experimentando breves lampejos de dissociao, ou estados superficiais de realidade no comum.
        Um dos elementos da experincia alucingena com os cogumelos ficava voltando a meus pensamentos: a massa macia e escura de furinhos. Continuava a pensar 
nela como uma bolha de gordura ou de leo que comeava a me atrair para seu centro. Era quase como se o centro fosse abrir-se e me engolir, e por momentos muito 
breves senti uma coisa parecendo um estado de realidade no comum. Como resultado, tive momentos de uma profunda agitao, ansiedade e desconforto, e propositadamente 
procurava terminar as experincias assim que comeavam.
        Hoje, conversei a respeito desse estado com Dom Juan. Pedi conselhos. Pareceu no se preocupar e disse que eu no levasse em considerao as experincias 
porque no tinham sentido, ou melhor, no tinham valor. Disse-me que as nicas experincias que valiam esforo e cuidado eram aquelas em que visse um corvo; qualquer 
outro tipo de "viso" seria apenas produto de meus receios. Tornou a lembrar-me de que, para participar do fumo, era preciso levar uma vida forte e tranqila. Pessoalmente 
eu parecia ter chegado a um limiar perigoso. Disse-lhe que no podia continuar; havia algo realmente apavorante nos cogumelos.
       Repassando as imagens que eu recordava de minha experincia alucingena, chegara  concluso inevitvel de ter visto o mundo de um modo que era estruturalmente 
diferente da viso comum. Nos outros estados de realidade no comum que experimentara, as formas e desenhos que visualizara estavam sempre dentro dos limites de 
minha concepo visual do mundo. Mas a sensao de ver sob a influncia alucingena da mistura do fumo no era a mesma. Tudo o que via estava em minha frente numa 
linha direta de viso; no havia nada acima nem abaixo daquela linha de viso.
       Todas as imagens tinham uma planeza irritante e, contudo, o que era desconcertante, tinham muita profundidade. Talvez fosse mais preciso dizer que as imagens 
eram um aglomerado de detalhes incrivelmente vivos dentro de campos de luz diferentes; a luz nos campos se movia, criando um efeito de rotao.
        Depois de pesquisar e me esforar para recordar, fui levedo a fazer uma srie de analogias ou imagens semelhantes a fim de "compreender" o que tinha "visto". 
O rosto de Dom, por exemplo, dava a impresso de ter sido submerso na gua. Esta parecia mover-se num fluxo contnuo pelo rosto dele e por seus cabelos. Aumentava-os 
de tal modo que eu via todos os poros da pele dele ou todos os cabelos da sua cabea, sempre que focalizava minha viso. Por outro lado, via massas de matria que 
eram chatas e cheias de arestas, mas que no se moviam porque no havia flutuao na luz que vinha delas.
        Perguntei a Dom Juan o que eram as coisas que eu tinha teso. Respondeu que, como essa era a primeira vez que havia visto como corvo, as imagens no eram 
claras, nem importantes, e que mais tarde, com a prtica, eu seria capaz de reconhecer tudo. Abordei o assunto da diferena que tinha percebido no movimento da luz.
        - As coisas vivas - disse ele - movem-se por dentro, e um corvo v facilmente quando uma coisa est morta, ou vai morrer, pois o movimento parou ou est 
diminuindo para cessar. O corvo tambm sabe dizer quando alguma coisa se move depressa demais, e assim tambm ele sabe quando as coisas se movem no ritmo certo.
        - O que significa quando alguma coisa se move depressa demais, ou no ritmo certo?
        - Significa que o corvo sabe o que evitar e o que procurar. Quando alguma coisa se move depressa demais por dentro, significa que vai explodir violentamente, 
ou vai saltar para a frente, e o corvo a evitar. Quando se move por dentro no ritmo certo,  uma viso agradvel e o corvo a procurar.
        - As pedras se movem por dentro?
        - No, as pedras no; nem animais ou rvores mortos. Mas so belos de se ver.  por isso que os corvos rondam os cadveres. Gostam de olhar para eles. Nenhuma 
luz se move dentro deles.
        - Mas quando a carne apodrece, no se modifica ou move?
        - Sim, mas  um movimento diferente. O que o corvo v ento so milhes de coisas movendo-se dentro da carne, com uma luz prpria, e  isso que o corvo gosta 
de ver. E realmente um espetculo inesquecvel.
        - Voc j o viu, Dom Juan?
        - Qualquer pessoa que aprende a se tornar corvo o ver. Voc mesmo o ver.
        Nesse ponto, fiz a pergunta inevitvel a Dom Juan.
        - Virei mesmo corvo? Quero dizer, qualquer pessoa que me visse pensaria que eu era um corvo comum?
        - No. Voc no pode pensar assim, quando se trata do poder dos aliados. Essas perguntas no tm sentido e, no entanto, virar corvo  a coisa mais simples 
do mundo. E quase como brincar; tem suas utilidades. Como j lhe disse, o fumo no  para aqueles que buscam o poder. S para aqueles que procuram ver. Aprendi a 
ser corvo porque esses pssaros so os mais eficientes de todos. Nenhum outro pssaro os aborrece, a no ser talvez guias maiores e famintas, mas os corvos voam 
em grupos e sabem defender-se. Os homens tambm no apoquentam os corvos, e isso  importante. Qualquer homem sabe distinguir uma guia grande, especialmente uma 
guia rara, ou qualquer outro pssaro grande e fora do comum, mas quem vai ligar para um corvo? Este  seguro. E o ideal, em tamanho e natureza. Pode ir firmemente 
a qualquer lugar, sem chamar ateno. Por outro lado,  possvel virar um leo ou um urso, mas isso  meio perigoso. Uma criatura dessas  muito grande; necessita-se 
de muita energia para transformar-se num deles. A gente tambm pode virar um grilo, ou lagarto, ou at uma formiga, mas isso  ainda mais perigoso, pois os animais 
grandes caam os pequenos.        Argumentei que o que ele estava dizendo significava que s pessoa realmente se transformava num corvo, grilo ou outra Mas insistiu 
que eu no estava entendendo.
        .- Leva muito tempo para se aprender a ser um corvo direito - disse ele. - Mas voc no mudou, nem deixou de ser homem. H mais alguma coisa.
        - Pode dizer-me o que  essa coisa a mais, Dom Juan?
        - Talvez que voc j o saiba. Talvez que, se voc no tivesse tanto medo de ficar maluco, ou de perder seu corpo, entendesse esse segredo maravilhoso. Mas 
talvez deva esperar at perder o medo para entender o que eu quero dizer.

11

        O ltimo acontecimento em minhas anotaes de campo ocorreu em setembro de 1965. Foi o ltimo dos ensinamentos de Dom Juan. Chamei-o de "um gosto especial 
de realidade no comum", porque no foi produto de nenhuma das plantas que usei antes. Parece que Dom Juan o provocou por meio de uma cuidadosa manipulao de indcios 
a respeito dele; isto , comportou-se diante de mim de maneira to hbil que criou a impresso clara e firme de que no era propriamente ele, e sim uma pessoa se 
fazendo passar por ele. Em conseqncia, senti um conflito profundo; queria acreditar que era Dom Juan e, no entanto, no podia ter certeza. O concomitante do conflito 
foi um terror consciente, to agudo que afetou minha sade por vrias semanas. Depois, pensei que teria sido ajuizado terminar meu aprendizado naquele momento. Desde 
ento no fui mais participante, e no entanto Dom Juan no deixou de me considerar aprendiz. Considerou minha retirada como apenas um perodo necessrio de recapitulao, 
mais um passo na aprendizagem, que pode durar indefinidamente. Mas desde aquela ocasio, no explanou mais seus conhecimentos.
        Escrevi o relato detalhado de minha ltima experincia quase um ms depois de sua ocorrncia; embora j tivesse escrito muitas notas sobre os pontos mais 
notveis no dia seguinte, durante as horas de grande agitao emocional que precederam o auge de meu terror.
Sexta-feira, 29 de outubro de 1965

        Na quinta-feira, 30 de setembro de 1965, eu devia ir ver Dom Juan. Os estados breves e superficiais de realidade no comum tinham persistido, a despeito 
de minhas tentativas propositadas de termin-los, ou diminu-los como Dom Juan sugerira. Senti que minha situao se agravava, pois a durao desses estados estava 
aumentando. Eu ficava muito consciente do barulho de avies. O rudo de seus motores passando por cima inevitavelmente chamava minha ateno e a fixava, ao ponto 
em que eu sentia que estava acompanhando o avio como se estivesse dentro dele, ou voando com ele. Essa sensao era muito aborrecida. Minha incapacidade de me livrar 
dela me provocava uma ansiedade profunda.
        Dom Juan, depois de escutar atentamente todos os detalhes, concluiu que eu estava sofrendo de uma perda da alma. Disse-lhe que tinha essas alucinaes desde 
o momento em que fumei os cogumelos, mas ele insistia que eram coisa nova. Disse que, a princpio, eu tinha tido medo, e tinha apenas "sonhado coisas tolas", mas 
que agora eu estava mesmo enfeitiado. A prova era que o barulho dos avies era capaz de me transportar. Normalmente, disse ele, o rudo de um riacho ou um rio pode 
prender um homem enfeitiado que perdeu a alma e transport-lo para sua morte. Depois, pediu-me para descrever todas as minhas atividades durante o perodo antes 
de experimentar as alucinaes. Fiz uma relao de todas as atividades de que me lembrava. E dessa relao, deduziu o ponto em que eu rinha perdido minha alma.
        Dom Juan parecia estar muito preocupado, estado muito raro nele. Isso naturalmente aumentou minha apreenso. Falou que no tinha idia clara de quem tinha 
capturado minha alma, mas que, fosse quem fosse, sem dvida pretendia matar- ou me tornar muito doente. Ento deu-me instrues muito precisas sobre a "forma de 
luta", uma posio do corpo especfica a ser mantida enquanto ficasse no meu ponto bom. Eu tinha de manter essa posio que ele chamava de forma (una para pelear).
       Perguntei-lhe para que era tudo isso, e com quem eu ia lutar. Respondeu que ia partir para ver quem tinha capturado minha a alma, e ver se seria possvel 
peg-la de volta. Enquanto isso, eu devia ficar no meu ponto at ele voltar. A forma de luta era na verdade uma precauo, falou, para o caso de acontecer alguma 
coisa na ausncia dele, e tinha de ser utilizada se eu fosse atacado. Consistia em bater com a mo na barriga da perna e coxa direitas, e bater o p esquerdo, numa 
espcie de dana que eu tinha de executar enquanto olhava para o atacante.
        Avisou-me de que a forma s devia ser adotada nos momentos de crise extrema, mas que, enquanto no houvesse perigo  vista, eu devia simplesmente ficar sentado 
de pernas cruzadas em meu ponto. Mas em circunstncias de grande perigo, podia recorrer a um ltimo meio de defesa - atirar um objeto sobre o inimigo. Disse-me que, 
em geral, a pessoa atira um objeto de poder, mas como eu no possua nenhum, era obrigado a usar alguma pedrinha que coubesse na palma de minha mo direita, uma 
pedra que pudesse segurar na palma com o polegar. Disse que essa tcnica s devia ser usada se a pessoa estivesse indubitavelmente em perigo de perder a vida. O 
lanamento do objeto tinha de ser acompanhado por um brado de guerra, um grito que tinha a propriedade de dirigir o objeto a seu alvo. Recomendou enfaticamente que 
eu tivesse cuidado e propsito no grito e no o usasse  toa, mas somente sob "graves condies de seriedade".
        Perguntei o que ele queria dizer por "graves condies de seriedade". Respondeu que o grito ou brado de guerra era uma coisa que ficava com a pessoa por 
toda a vida; e assim tinha de ser bom desde o princpio. E o nico meio de o iniciar corretamente era conter o medo inicial e a pressa, at a pessoa estar cheia 
do poder, e ento o grito estouraria com direo e poder. Disse que eram essas as condies de seriedade para dar o grito.
        Pedi-lhe que explicasse sobre o poder que devia encher a gente antes do grito. Falou que era uma coisa que percorria o corpo, vindo da terra onde a pessoa 
estivesse; era uma espcie de poder que emanava do ponto benfico, para ser preciso. Era uma fora que impulsionava o grito. Se essa fora fosse bem tratada, o brado 
de guerra seria perfeito.
        Tornei a perguntar-lhe se ele achava que me ia acontecer alguma coisa. Respondeu que no sabia de nada a respeito e me advertiu dramaticamente a ficar colado 
no meu ponto enquanto fosse necessrio, pois essa era a nica proteo que tinha contra qualquer coisa que pudesse acontecer.
        Comecei a ficar assustado; implorei-lhe para ser mais preciso. Respondeu que s sabia que eu no devia mover-me, em circunstncia alguma; no devia entrar 
na casa nem no mato. Acima de tudo, falou, eu no devia pronunciar uma nica palavra, nem mesmo a ele. Disse que podia cantar meus cnticos de Mescalito se ficasse 
com muito medo, e depois acrescentou que eu j sabia muita coisa desses assuntos para ter de ser prevenido como uma criana sobre a importncia de fazer tudo corretamente.
       Suas advertncias produziram em mim um estado de angstia profunda. Estava certo de que ele esperava que acontecesse alguma coisa. Perguntei-lhe por que me 
recomendava para cantar os cnticos de Mescalito, e o que  que ele achava que me ia assustar. Riu e disse que eu podia ficar com medo de estar sozinho. Entrou na 
casa e fechou a porta. Olhei para o relgio. Eram sete da noite. Fiquei sentado quieto por muito tempo. So ouvia barulho algum do quarto de Dom imo. Tudo estava 
quieto. Ventava. Pensei em dar uma corrida at meu carro para pegar meu casaco de couro, mas no ousava contrariar os conselhos de Dom Juan. No estava com sono, 
s cansado; o vento frio no me deixava descansar.
        Quatro horas depois, ouvi Dom Juan andando em volta da casa. Pensei que ele podia ter sado pelos fundos, para ir urinar no mato. Depois, chamou-me em voz 
alta.
        - Ei, rapaz! Ei, rapaz! Estou precisando de voc aqui - disse ele.
        Quase me levantei para ir ter com ele. Era sua voz, mas no a mesma entonao, nem as palavras usuais. Dom Juan nunca me chamara "Ei, rapaz!". Por isso, 
fiquei onde estava. Senti um arrepio pela espinha. Recomeou a gritar, usando a mesma frase, ou semelhante.
        Eu o ouvia andando pelo quintal. Tropeou numa pilha de lenha, como se no soubesse que ficava ali. Depois, foi  varanda e sentou-se junto da porta, com 
as costas encostadas as parede. Parecia estar mais pesado do que de costume. Os movimentos dele no eram lentos, nem desajeitados, apenas mais pesados. Jogou-se 
no cho, em vez de deslizar agilmente, como sempre fazia. Alm disso, aquele no era o ponto dele, e Dom Juan nunca, em circunstncia alguma, sentava-se outro lugar.
        Depois, tornou a falar comigo. Perguntou-me por que me recusava a ir quando ele precisava de mim. Estava falando alto. No queria olhar para ele, e no entanto 
tive uma necessidade impulsiva de espiar. Comeou a balanar um pouco de um para outro. Mudei de posio, adotei a forma de luta que Dom Juan me ensinara e virei-me 
para olhar para ele. Meus msculos estavam duros e estranhamente tensos. No sei o que me levou a tomar a forma de luta, talvez acreditasse que Dom Juan tivesse 
propositadamente querendo assustar-me, criando a impresso de que a pessoa que eu estava vendo no era ele. Achei que ele estava tendo muito cuidado de fazer o que 
no era habitual, para incutir uma dvida no meu esprito. Estava com medo, mas ainda sentia que estava acima de tudo aquilo, pois estava tomando conscincia e analisando 
a cena toda.
        Nesse ponto, Dom Juan levantou-se. Seus movimentos eram completamente estranhos para mim. Ps os braos na frente do corpo e deu um impulso para levantar-se, 
erguendo primeiro a traseira; depois, pegou a porta e endireitou a parte superior do corpo. Fiquei espantado ao ver como conhecia bem os movimentos dele, e que sentimento 
de assombro ele criava deixando-me ver um Dom Juan que no se mexia como Dom Juan.
        Deu alguns passos em minha direo. Estava segurando a parte inferior das costas com as duas mos como se estivesse tentando endireitar-se, ou estivesse 
com dor. Ele gemia e bufava. O nariz parecia estar inchado. Disse que ia levar-me com ele e mandou que me levantasse e o seguisse. Foi para o lado oeste da casa. 
Mudei de posio para olh-lo. Virou-se para mim. No me mexi do meu ponto; estava colado nele. Ele berrou.
        - Ei, rapaz! Disse-lhe para vir comigo. Se no vier, eu o arrasto!
        Dirigiu-se para mim. Comecei a bater em minha canela e coxa, danando depressa. Foi at  beira da varanda em frente a mim e quase me tocou. Freneticamente, 
preparei meu corpo para tomar a posio de lanar, mas ele mudou de direo e se afastou de mim, indo para o mato  minha esquerda. Em certo momento, quando se afastava, 
virou-se de repente, mas eu estava voltado para ele.        Desapareceu de vista. Mantive a posio de luta ainda um pouco, mas, como no o vi mais, tornei a sentar-me 
de pernas cruzadas, de costas para a pedra. A essa altura estava realmente apavorado. Queria fugir, mais, isso me atemorizava ainda mais. Senti que teria estado 
inteiramente merc dele, se me tivesse pegado no caminho para o carro. Comecei a cantar os cnticos de peiote que conhecia. Mas senti que eram impotentes, ali. S 
serviam como calmante e me aliviaram. Cantei-os vrias vezes.        
        L pelas duas e meia da madruga, ouvi um barulho dentro de casa. Troquei logo de posio. A porta foi escancarada e Dom Juan saiu, tropeando. Estava sufocando 
e segurava a garganta. Ajoelhou-se diante de mim e gemeu. Pediu-me numa voz alta e ganida, que fosse ajuda-lo. Depois tornou a berrar e ordenou que eu fosse. Fez 
barulhos de quem gargareja. Pediu-me para ir ajud-lo porque alguma coisa o sufocava. Engatinhou de quatro at estar a talvez um metro e vinte de mim. Estendeu-me 
as mos. Disse: "Venha c!" Em seguida, levantou-se, de braos estendidos para mim. Parecia estar disposto a me agarrar. Bati o p no cho e bati na minha canela 
e coxa. Estava fora de mim de medo.
       Parou e foi para o lado da casa, para o mato. Mudei de posio para olhar para ele. Tornei a sentar-me. No queria mais cantar. Minha energia parecia estar 
sumindo. Todo meu corpo estava dolorido; todos meus msculos estavam rgidos e dolorosamente contrados. No sabia o que pensar. No podia resolver-me se devia ficar 
zangado com Dom Juan ou no. Pensei em saltar sobre ele, mas sabia que ele me teria abatido com a um inseto. Estava mesmo com vontade de chorar. Sentia um desespero 
profundo; a idia de Dom Juan estava fazendo tudo aquilo para assustar-me me dava vontade de chorar. No conseguia encontrar motivos para aquela tremenda exibio 
teatral; os movimentos dele eram to estudados que fiquei confuso. No era que ele estava tentando mover-se como uma mulhaer; era mais como se uma mulher estivesse 
tentando mover-se como Dom Juan. Tive a impresso de que ela estava realmente tentando andar e mover-se com a calma de Dom Juan, mas que era muito pesada e no tinha 
a agilidade dele. Quem quer que fosse a pessoa ali na minha frente, dava a impresso de ser mulher, pesada e mais jovem, tentando imitar os movimentos lentos de 
um velho gil.
Essas idias me levaram a um estado de pnico. Um grilo comeou a chirriar muito alto, bem perto de mim. Notei a riqueza do tom dele; imaginei que tivesse uma voz 
de bartono. O grito comeou a sumir. De repente, todo meu corpo estremeceu. Tomei novamente a posio de luta e olhei na direo o do grilo. O som estava-me transportando; 
tinha comeado a me apanhar antes de perceber que era s de grilo. O som tornou a se aproximar. Ficou terrivelmente alto. Comecei a cantar meus cnticos de peiote 
cada vez mais alto. De repente, o grilo parou. Sentei-me imediatamente, mas continuei a cantar. Um momento depois, vi o vulto de um homem correndo para mim da direo 
oposta ao rudo do grilo. Bati as mos na coxa e canela e bati o p vigorosamente, freneticamente. O vulto passou por mim muito depressa, quase me tocando. Parecia 
um cachorro. Tive um medo tal que fiquei dormente. No me lembro de mais nada do que pensei ou senti.
        O orvalho da manh foi refrescante. Sentia-me melhor. Fosse qual fosse o fenmeno, parecia ter partido. Eram 5:48 da madrugada quando Dom Juan abriu a porta, 
sossegado, e saiu. Esticou os braos, bocejando, e olhou para mim. Deu dois passos em minha direo, prolongando seus bocejos. Vi os olhos dele, espiando por plpebras 
meio fechadas. Levantei-me de um salto; vi ento que quem quer que, ou o que quer que estivesse diante de mim naquele momento no era Dom Juan.
        Peguei uma pedrinha de arestas vivas do cho. Estava junto de minha mo direita. Nem olhei para ela; apenas segurei-a, apertando-a com o polegar contra meus 
dedos abertos. Adotei a forma que Dom Juan me ensinara. Senti um estranho vigor me enchendo, numa questo de segundos. Ento, gritei e atirei a pedra sobre ele. 
Pareceu-me um brado magnfico. Naquele momento, no me importava viver ou morrer. Senti que o grito era tremendo, em sua potncia. Era penetrante e prolongado, e 
chegava a dirigir minha pontaria. O vulto diante de mim vacilou, gritou e cambaleou para o lado da casa, tornando a entrar no mato.
        Levei horas para sossegar. No conseguia mais ficar sentado; fiquei trotando no mesmo lugar. Tinha de respirar pela boca, para conseguir ar suficiente.
        As onze horas da manh, Dom Juan tornou a sair da casa. Eu j ia levantar de um salto, mas os movimentos, nessa ocasio, eram dele. Foi diretamente para 
o lugar dele e sentou-se em sua maneira habitual. Olhou para mim e sorriu. Era Dom Juan! Aproximei-me dele e, em vez de estar zangado, beijei a mo dele. Acreditei 
realmente que ele no tinha agido para criar um efeito teatral, mas que algum se havia feito passar por ele para me fazer mal ou matar-me.
        A conversa comeou com especulaes a respeito da identidade de uma pessoa feminina que supostamente se havia apossado de minha alma. Depois, Dom Juan pediu-me 
que lhe contasse todos os detalhes da experincia.
        Narrei toda a seqncia de acontecimentos de maneira muito deliberada. Riu o tempo todo, como se fosse uma piada. Depois que terminei, Dom Juan disse:
        - Voc foi muito bem. Venceu a batalha por sua alma. Mas esse caso  mais grave do que eu pensava. Sua vida no valia dois vintns, ontem  noite. Foi bom 
ter aprendido alguma coisa no passado. Se no tivesse um pouco de treino, estaria morto a essas horas, pois quem quer que fosse que voc viu ontem, queria liquid-lo.
        - Como  possvel, Dom Juan, que ela tenha tomado sua forma?
        - Muito simples.  uma diablera e tem um bom auxiliar do outro lado. Mas no foi to esperta ao assumir minha forma, e voc descobriu os ardis dela.
        - Um auxiliar do outro lado  a mesma coisa que um aliado?
        - No, um auxiliar  a ajuda de um diablero. Um auxiliar  um esprito que vive do outro lado do mundo e ajuda um diablero a provocar doena e dor. Ajuda-o 
a matar.
       - Um diablero tambm pode ter um aliado, Dom Juan?
        - So os diableros que tm os aliados; mas antes que um diablero possa domesticar um aliado, geralmente tem os auxiliares para ajud-lo em seus trabalhos.
        - E a mulher que tomou sua forma, Dom Juan? S tem um auxiliar, no um aliado?
        - No sei se ela possui ou no um aliado. H quem no goste do poder de um aliado e prefere um auxiliar. Domesticar um aliado  trabalho duro.  mais fcil 
arranjar um auxiliar do outro lado.
        - Acha que eu conseguiria arranjar um auxiliar?
        - Para saber isso, tem de aprender muito mais. Estamos novamente no princpio, quase como no primeiro dia em que veio aqui pedir-me para lhe falar sobre 
Mescalito, e eu no podia porque voc no teria compreendido. Aquele outro lado  o mundo dos diableros. Acho que seria melhor contar-lhe meus prprios sentimentos, 
da mesma maneira que meu benfeitor me contou os dele. Ele era um diablero e um guerreiro; sua vida inclinava-se para a fora e a violncia do mundo. Mas eu no sou 
nada disso. Essa  a minha natureza. Voc viu meu mundo desde o princpio. Quanto a lhe mostrar o mundo de meu benfeitor, s posso lev-lo at  porta, e voc ter 
de decidir por si; ter de aprender a respeito por seus prprios esforos. Agora, devo confessar que cometi um erro.  muito melhor, vejo agora, comear como eu 
mesmo comecei. Ento,  mais fcil ver como  simples e no entanto profunda a diferena. Um diablero  um diablero, e um guerreiro  um guerreiro. Ou ento, o homem 
pode ser ambos. H muita gente que  ambos. Mas o homem que apenas atravessa os caminhos da vida  tudo. Hoje no sou nem guerreiro nem diablero. Para mim s existe 
o percorrer os caminhos que tm corao, em qualquer caminho que possa ter corao. Ali eu viajo e para mim o nico desafio que vale a pena  percorrer toda sua 
extenso. E ali viajo... olhando, olhando, arquejante.
        Parou. Sua fisionomia revelara um estado de esprito especial; parecia estar estranhamente srio. Eu no sabia o que perguntar, nem o que dizer. Continuou:
        - A coisa especial a se aprender  como chegar  fresta entre os mundos e como entrar no outro mundo. Existe uma fresta entre os dois mundos, o mundo dos 
diableros e o mundo dos homens vivos. Existe um lugar onde os dois mundos se sobrepem. A fresta est ali. Abre e fecha como uma porta ao vento. Para chegar l o 
homem tem de exercer sua vontade. Posso dizer que ele deve ter um desejo invencvel de fazer isso, uma dedicao total. Mas ele tem de faz-lo sem o auxlio de qualquer 
poder, ou de qualquer homem. O indivduo sozinho deve ponderar e desejar, at o momento em que seu corpo esteja pronto para empreender a jornada. Esse momento  
anunciado por um tremor prolongado nos membros e vmitos violentos. Geralmente, o homem no consegue dormir nem comer e vai minguando. Quando as convulses no param, 
o homem est pronto para ir e a fresta entre os mundos aparece bem diante dos olhos dele, como uma porta monumental, uma fresta que sobe e desce. Quando a fresta 
se abre, o homem tem de deslizar por ela.  difcil enxergar do outro lado dos limites.  ventoso, como uma tempestade de areia. O vento rodopia. Ento, o homem 
tem de andar, em qualquer direo. Ser uma viagem curta ou longa, dependendo de sua fora de vontade. Um homem de muita fora faz uma viagem breve. Um homem indeciso 
e fraco faz uma viagem longa e perigosa. Depois dessa viagem o homem chega a um tipo de planalto.  possvel distinguir algumas de suas caractersticas claramente. 
 uma plancie acima do solo.  possvel reconhec-lo pelo vento, que se torna ainda mais violento, batendo e uivando em volta. Em cima daquele planalto est a entrada 
para aquele outro mundo. E ali est uma pelcula que separa os dois mundos; os homens mortos passam por ela sem barulho, mas ns temos de romp-la com um grito. 
O vento torna-se mais forte, o mesmo vento rebelde que sopra no planalto. Quando o vento j est bastante forte, o homem tem de gritar e o vento o empurrar para 
atravessar. Aqui tambm a sua vontade tem de ser inflexvel, para poder lutar contra o vento. S precisa de um empurrozinho; no precisa ser soprado para os confins 
do outro mundo. Uma vez do outro lado, o homem ter de vagar por ali. Se tiver sorte, encontrar um auxiliar por perto, no muito longe da entrada. O homem tem de 
lhe pedir ajuda. Em suas prprias palavras, tem de pedir ao auxiliar que lhe ajude e o torne um diablero. Quando o auxiliar concorda, ele mata o homem no mesmo lugar 
e, enquanto est morto, ensina-lhe. Quando voc fizer a viagem, dependendo de sua sorte, poder encontrar um grande diablero no auxiliar que o matar e lhe ensinar. 
Mas em geral a pessoa encontra brujos sem importncia, que tm pouca coisa a ensinar. Mas nem voc nem eles tm o poder de recusar. O melhor  encontrar um auxiliar 
masculino, para no se tornar presa de uma diablera, que far a pessoa sofrer de uma maneira incrvel. As mulheres so sempre assim. Mas isso s depende da sorte, 
a no ser que o benfeitor da pessoa seja ele mesmo um grande diablero, e nesse caso ter muitos auxiliares no outro mundo, e pode dirigir a pessoa para ver um determinado 
auxiliar. Meu benfeitor era um homem desses. Dirigiu-me para encontrar seu auxiliar esprito. Depois que voltar, voc no ser mais o mesmo. Est comprometido a 
voltar para ver seu auxiliar freqentemente. E comprometeu-se a viajai cada vez mais longe da entrada, at que um dia ir longe demais e no poder voltar. As vezes, 
um diablero pode pegar uma alma e empurr-la pela entrada e deix-la em custdia de seu auxiliar, at roubar q pessoa de toda sua fora de vontade. Em outros casos, 
como o seu, por exemplo, a alma pertence a uma pessoa de vontade forte, e o diablero pode guard-la dentro de sua sacola, pois ela  muito pesada para carregar de 
outro modo. Em tais casos, como no seu, uma luta pode resolver o problema... uma luta em que o diablero ou ganha tudo ou perde tudo. Dessa vez, ela perdeu a batalha 
e teve de soltar sua alma. Se vencesse, teria levado a alma para o seu auxiliar, para sempre.
       - Mas como foi que venci?
        - No saiu do seu ponto. Se se tivesse movido um centmetro, teria sido liquidado. Ela escolheu o momento em que eu no estava presente como sendo o melhor 
para dar o golpe, e o fez bem feito. Fracassou porque no levou em conta sua prpria natureza, que  violenta, e tambm porque voc no se arredou do ponto em que 
 invencvel.
        - Como  que ela me teria matado se eu tivesse me movido?
        - Teria dado um golpe como um raio. Mas, acima de tudo, teria guardado sua alma e voc teria minguado.
        - O que vai acontecer agora, Dom Juan?
        - Nada. Voc conquistou sua alma de volta. Foi uma boa luta. Aprendeu muitas coisas ontem  noite.
        Em seguida, comeamos a procurar a pedra que eu tinha atirado. Falou que, se consegussemos encontr-la, podamos ter a certeza absoluta de que o assunto 
estava encerrado. Procurando durante quase trs horas. Eu tinha a impresso de que a reconheceria. Mas no consegui.
        Naquele mesmo dia, no princpio da noite, Dom Juan levou-me para os morros perto da casa dele. Ali, deu-me instrues longas e detalhadas sobre mtodos especficos 
de luta. Em dado momento, ao repetir certos passes recomendados, encontrei-me sozinho. Tinha subido uma ladeira correndo e estava ofegante. Suava muito e, no entanto, 
estava com frio. Chamei Dom Juan vrias vezes, mas no respondeu, e eu comecei a ter uma estranha apreenso. Ouvi um farfalhar no mato, como se algum se estivesse 
aproximando de mim. Escutei atentamente, mas o barulho cessou. Depois, tornei a ouvi-lo, mais alto e mais perto. Naquele momento, ocorreu-me que os fatos da vspera 
iam-se repetir. Dentro de alguns segundos, meu medo aumentou desproporcionadamente. O farfalhar no mato aproximou-se mais e minhas foras minguavam. Queria gritar 
ou chorar, fugir ou desmaiar. Meus joelhos se dobravam; ca no cho, gemendo. No conseguia nem fechar os olhos. Depois disso, s me lembro de que Dom Juan fez uma 
fogueira e esfregou os msculos contrados de meus braos e pernas.
        Fiquei num estado de desespero profundo, por vrias horas. Depois, Dom Juan explicou minha reao desproporcionada como sendo uma ocorrncia comum. Disse-lhe 
que no sabia analisar logicamente o que provocara meu pnico, e ele respondeu que no era o medo da morte, e sim o medo de perder minha alma, um medo comum entre 
os homens que no tem um propsito inabalvel.
        Essa experincia foi o ltimo dos ensinamentos de Dom Juan. Desde ento, tenho evitado de procurar suas lies. E embora Dom Juan no tenha mudado sua atitude 
de benfeitor com relao a mim, acredito que eu tenha sucumbido ao primeiro inimigo de um homem de conhecimento.


Parte Dois
Uma Anlise Estrutural

        O seguinte sistema estrutural, tirado dos dados sobre os estados da realidade no comuns apresentados na primeira parte dessa obra, foi concebido como uma 
tentativa de expor a coeso interna e a irrefutabilidade dos ensinamentos de Dom Juan. A estrutura, conforme a avalio, compe-se de quatro conceitos, que constituem 
as principais unidades: (1) homem de conhecimento; (2) um homem de conhecimento tinha um aliado; (3) um aliado tinha uma regra; e (4) a regra foi corroborada por 
um consenso especial. Essas quatro.unidades por sua vez so compostas de uma srie de idias subsidirias; assim, a estrutura total compreende todos os conceitos 
significativos que foram apresentados at o momento em que parei a aprendizagem. De certo modo, essas unidades representam sucessivos nveis de anlise, cada nvel 
modificando o anterior. (Para o esboo das unidades de minha anlise estrutural, ver Apndice B).
        Como essa estrutura conceitual depende totalmente do significado de todas as suas unidades, o seguinte esclarecimento parece ser indicado neste ponto: em 
toda essa obra, o significado foi exposto como o entendi. Os conceitos componentes da sabedoria de Dom Juan, conforme os apresentei aqui, no podiam ser a rplica 
exata do que ele mesmo disse. A despeito de todo o esforo que eu fiz para apresentar esses conceitos o mais fielmente possvel, seu significado foi afetado por 
minhas prprias tentativas de classific-los. A disposio das quatro principais unidades desse sistema estrutural, porm,  uma seqncia lgica que parece estar 
isenta da influncia de artifcios de classificao estranhos, de minha concepo. Mas, no que diz respeito s idias componentes de cada unidade principal, foi 
impossvel evitar minha influncia pessoal. Em certos pontos, so necessrios recursos de classificao externos, a fim de tornar os fenmenos compreensveis. E, 
para desempenhar essa tarefa aqui, foi necessrio fazer um ziguezague dos pretensos significados e sistema de classificao do mestre para os significados e recursos 
de classificao do aprendiz.

A ORDEM OPERACIONAL

A Primeira Unidade

HOMEM DE CONHECIMENTO

        Num estgio muito primrio de minha aprendizagem, Dom Juan declarou que o objetivo de seus ensinamentos era "mostrar como me tornar um homem de conhecimento". 
Uso essa declarao como ponto de partida. 8 bvio que tornar-se um homem de conhecimento era um objetivo operacional. L igualmente bvio que todas as partes dos 
ensinamentos ordenados de Dom Juan estavam ligados  execuo desse objetivo, de uma maneira ou de outra. Meu raciocnio aqui  que, nas circunstncias, sendo "homem 
de conhecimento" um objetivo operacional, isso deve ter sido indispensvel para explicar alguma "ordem operacional". Ento, justifica-se concluir, que, a fim de 
compreender essa ordem operacional,  preciso compreender seu objetivo: homem de conhecimento.
        Depois de estabelecer "homem de conhecimento" como primeira unidade estrutural, foi possvel organizar com segurana os seguintes sete conceitos como seus 
componentes prprios: (1) tornar-se um homem de conhecimento era questo de aprendizagem; (2) um homem de conhecimento tem um propsito inflexvel; (3) um homem 
de conhecimento tem clareza de esprito; (4) para ser um homem de conhecimento  preciso um trabalho exaustivo; (5) um homem de conhecimento  um guerreiro; (6) 
ser um homem de conhecimento  um processo incessante; e (7) um homem de conhecimento tem um aliado.
        Esses sete conceitos so temas. Percorrem os ensinamentos, determinando todo o carter do conhecimento de Dom Juan. Como objetivo operacional de seu ensinamento 
era produzir um homem de conhecimento, tudo o que ensinava era imbudo das caractersticas especficas de cada um dos sete temas. Juntos formava o conceito "homem 
de conhecimento" como uma maneira de a pessoa se conduzir, um comportamento que era o resultado final de um treinamento longo e arriscado. "Homem de conhecimento", 
porm, no era um guia de comportamento, e sim uma srie de princpios que abrangiam todas as circunstncias fora do comum pertinentes ao conhecimento que era ensinado.
        Cada um dos sete temas  composto, por sua vez, de vrios outros conceitos, que abrangem suas facetas diferentes.

        Pelas declaraes de Dom Juan era possvel supor-se que um homem de conhecimento podia ser um diablero, isto , um feiticeiro de magia negra. Declarou que 
seu mestre era um diablero e ele tambm, no passado, embora tivesse deixado de se ocupar de certos aspectos da prtica da feitiaria. Como o objetivo de seus ensinamentos 
era mostrar como ser um homem de conhecimento, e como seu conhecimento consistia em ser um diablero, podia haver uma conexo inerente entre homem de conhecimento 
e diablero. Embora Dom. Juan nunca usasse os dois termos indiferentemente, a probabilidade de serem relacionados suscitava a possibilidade de que "homem de conhecimento", 
com seus sete temas e seus conceitos componentes, abrangia, teoricamente, todas as circunstncias que poderiam surgir no curso de se tornar a pessoa um diablero.

Tornar-se um Homem de Conhecimento
2 uma Questo de Aprendizagem

        O primeiro tema tornava implcito o fato de que a aprendizagem era o nico meio possvel para um homem tornar-se um homem de conhecimento, e isso, por sua 
vez, implicava no ato de se fazer um esforo resoluto para conseguir um objetivo. Ser um homem de conhecimento era o resultado final de um processo, em oposio 
a uma aquisio imediata por um ato de graa ou pela doao por poderes sobrenaturais. A plausibilidade de aprender a ser um homem de conhecimento justificava a 
existncia de um sistema para ensinar a consegui-lo.
        O primeiro tema tinha trs componentes: (1) no havia requisitos claros para ser um homem de conhecimento; (2) havia alguns requisitos disfarados; (3) a 
deciso quanto a quem poderia aprender a ser um homem de conhecimento era tomada por um poder impessoal.
        Aparentemente, no havia pr-requisitos claros que poderiam determinar quem seria, ou quem no seria qualificado para aprender como ser um homem de conhecimento. 
Teoricamente, a tarefa estava s ordens de qualquer pessoa que quisesse execut-la. No entanto, na prtica, tal teoria no se coadunava com o fato de que Dom Juan, 
como mestre, escolhia seus aprendizes.
        De fato, qualquer mestre, nas circunstncias, teria escolhido seus aprendizes, pelo expediente de exp-los a alguns pr-requisitos disfarados. A natureza 
especfica desses pr-requisitos nunca era formalizada; Dom Juan s insinuava que havia certos indcios que a pessoa tinha de ter em mente quando considerava um 
aprendiz em perspectiva. Os indcios a que se referia deviam revelar se o candidato tinha ou no certa disposio de carter, que Dom Juan denominava "propsito 
inflexvel".
        No obstante, a deciso final no que dizia respeito a quem podia aprender a tornar-se um homem de conhecimento era deixada a um poder impessoal que Dom Juan 
conhecia, mas que estava fora de sua esfera de vontade. O poder impessoal parece que apontava a pessoa certa, permitindo que ela praticasse um feito de natureza 
extraordinria, ou ento criando uma srie de circunstncias especiais em torno daquela pessoa. Da, nunca havia qualquer conflito entre a ausncia de pr-requisitos 
claros e a existncia de pr-requisitos disfarados, no revelados.
        O homem que fosse destacado assim tornava-se o aprendiz. Dom Juan o chamava o escogido, "aquele que foi escolhido". Mas ser um escogido significava mais 
do que ser um simples aprendiz. Um escogido, pelo simples ato de ser escolhido, por um poder, j era considerado diferente dos homens comuns. J era considerado 
um recipiente de uma quantidade mnima de poder, que devia aumentar com a aprendizagem.
        Mas aprender era um processo de uma busca inacabvel, e o poder que tomava a primeira deciso, ou um poder semelhante, deveria tomar decises semelhantes 
sobre se um escogido devia continuar a aprender ou se tinha sido vencido. Essas decises se manifestavam por meio de augrios que ocorriam em qualquer ponto dos 
ensinamentos. Quanto a isso, quaisquer circunstncias especiais a respeito de um aprendiz eram consideradas augrios.

Um Homem de Conhecimento
Tem um Propsito Inflexvel

        A idia de que um homem de conhecimento precisa de um propsito inflexvel refere-se ao exerccio da vontade. Ter um propsito inflexvel quer dizer ter 
a vontade de realizar um processo necessrio, mantendo-se em todos os momentos rigidamente dentro dos limites do conhecimento que est sendo ensinado. Um homem de 
conhecimento precisa de uma vontade rgida a fim de suportar a qualidade de obrigao que possuam todos os atos quando executados dentro do contexto de seu conhecimento.
        A qualidade de obrigao de todos os atos executados dentro desse contexto e o fato de serem inflexveis e predeterminados sem dvida eram desagradveis 
para todos os homens, e por isso uma certa percentagem de propsito inflexvel era procurada como o nico requisito disfarado necessrio a um pretenso aprendiz.
        Um propsito inflexvel compunha-se de: (1) frugalidade, (2) firmeza de julgamento, e (3) falta de liberdade para inovar.
        Um homem de conhecimento precisa da frugalidade porque a maior parte de seus atos obrigatrios trata de situaes ou d elementos ou fora dos limites da 
vida quotidiana, ou no habituais nas atividades comuns; e o homem que tivesse de agir de acordo com eles precisa' de um esforo extraordinrio cada vez que agisse. 
Estava i., elcito que a pessoa s seria capaz de um esforo to extraordinrio se fosse frugal em qualquer outra atividade que no tratasse diretamente desses atos 
predeterminados.
        Como todos os atos eram predeterminados e obrigatrios, um homem de conhecimento precisa de firmeza de julgamento. Esse conceito no implica no bom senso, 
mas sim a capacidade de avaliar as circunstncias envolvendo qualquer necessidade de agir. Uma orientao para uma tal avaliao era dada juntando, como fundamento 
lgico, todas as partes dos ensinamentos que estivessem ao comando da pessoa no momento dado em que qualquer ao tivesse de ser executada. Assim, a orientao estava 
sempre mudando,  medida que se aprendia mais partes; e no entanto, implicava sempre na convico de que todo ato obrigatrio que se pudesse ter de desempenhar seria, 
de fato, o mais apropriado nas circunstncias.
        Como todos os atos so preestabelecidos e compulsrios, ter de desempenh-los significa uma falta de liberdade para inovar. O sistema de Dom Juan para transmitir 
o conhecimento estava to bem estabelecido que no havia possibilidade de alter-lo de maneira alguma.

Um Homem de Conhecimento
Tem Clareza de Esprito

        Clareza de esprito  o tema que d o sentido de direo. O fato de todos os atos serem predeterminados significa que a orientao da pessoa dentro do ensinamento 
sendo prestado  igualmente predeterminada; conseqentemente, a clareza de esprito d apenas um sentido de direo. Reafirma continuamente a validez do rumo tomado 
por meio das idias componentes de: (1) liberdade de buscar um caminho, (2) noo do propsito especfico e (3) ser fluido.
        Acreditava-se que a pessoa tivesse liberdade de procurar um caminho. Ter a liberdade de escolher no era incompatvel com a falta de liberdade de inovar; 
essas duas idias no eram opostas, nem interferiam uma com a outra. A liberdade de buscar um caminho referia-se  liberdade de escolher entre diferentes possibilidades 
de ao, que eram igualmente eficientes e utilizveis. O critrio de escolher era a vantagem de uma possibilidade sobre as outras, baseada na preferncia da pessoa. 
Na verdade, a liberdade de escolher um caminho implicava num sentido de direo pela expresso das tendncias pessoais.
        Outro meio de criar um sentido de direo era pela idia de que h um propsito especfico para cada ato executado no contexto do conhecimento sendo transmitido. 
Por isso, o homem de conhecimento precisa de clareza de esprito a fim de corresponder a suas prprias razes para agir com o propsito especfico de cada ao. 
O conhecimento do propsito especifico de cada ao era o guia que usava para julgar as circunstncias que envolvessem qualquer necessidade de agir.
        Outra faceta da clareza de esprito era a idia de que um homem de conhecimento, a fim de reforar o desempenho de seus atos obrigatrios, precisa reunir 
todos os recursos que os ensinamentos colocaram a seu dispor. Era esta a idia de ser fluido. Criava um sentido de direo dando  pessoa a sensao de ser malevel 
e ter expediente. A qualidade compulsiva de todos os atos teria imbudo a pessoa com uma sensao de rigidez ou esterilidade, se no fosse a idia de que um homem 
de conhecimento tem de ser fluido.

Para Ser um Homem de Conhecimento
E Preciso um Trabalho Exaustivo

        Um homem de conhecimento tem de possuir, ou de adquirir no decurso de seu treinamento, uma capacidade total de trabalho. Dom Juan declarou que, para ser 
um homem de conhecimento,  preciso um trabalho exaustivo. Um trabalho exaustivo demonstrava uma capacidade: (1) de fazer esforos dramticos; (2) de conseguir a 
eficincia; e (3) enfrentar um desafio.
        No caminho do homem de conhecimento, um conhecimento do drama era, sem dvida, o fato isolado mais importante, e um tipo especial de esforos era necessrio 
para corresponder s circunstncias que exigiam a explorao dramtica; isto , um homem de conhecimento precisava do esforo dramtico. Tomando como exemplo o comportamento 
de Dom Juan,  primeira vista podia parecer que sua atuao dramtica era apenas sua prpria mania de teatralidade. No entanto, seus esforos dramticos eram sempre 
muito mais do que uma simples representao; eram, antes, um profundo estado de crena. Pelos esforos dramticos, transmitia a qualidade especial de finalidade 
a todos os atos que praticava. Conseqentemente, seus atos passavam-se num palco em que a morte era um dos principais protagonistas. Era implcito que a morte era 
uma, possibilidade real durante a aprendizagem, devido  nata= inerentemente perigosa dos fatos com que lidava o homem de conhecimento; portanto, era lgico que 
o esforo teatral criado pela convico de que a morte era um ator onipresente fosse mais do que simplesmente dramtico.
        Os esforos no acarretam apenas o drama, mas tambm a necessidade da eficincia. Os esforos tinham de ser eficazes; tinham de possuir a qualidade de serem 
devidamente canalizados, de serem adequados. A idia da morte iminente criava no s o drama necessrio para a nfase geral, mas tambm a convico de que todo ato 
envolvia uma luta pela sobrevivncia, a convico de que sobreviria a aniquilao, se os esforos da pessoa no satisfizessem os requisitos de ser eficazes.
        Os esforos tambm encerram a idia de desafio, isto , o ato de verificar - e provar - se a pessoa  capaz de desempenhar um ato devido dentro dos limites 
rigorosos do conhecimento objeto de ensinamento.

Um Homem de Conhecimento
 um Guerreiro

        A existncia de um homem de conhecimento  uma luta incessante, e a idia de que ele  um guerreiro, levando vida de guerreiro, dava  pessoa os meios de 
conseguir a estabilidade emocional. A idia de um homem em guerra abrange quatro conceitos: (1) um homem de conhecimento tem de ter respeito; (1.) ele tem de ter 
medo; (3) ele tem de estar bem desperto; (4) ele tem de ter confiana em si. Da, ser um guerreiro  uma forma de autodisciplina que frisa a realizao individual; 
no entanto,  uma posio em que os interesses pessoais so reduzidos a um mnimo, pois, na maioria dos casos, o interesse pessoal  incompatvel com o rigor necessrio 
para executar qualquer ato predeterminado obrigatrio.
        Um homem de conhecimento em seu papel de guerreiro era obrigado a ter uma atitude de considerao diferente pelas coisas com que lidava; tinha de imbuir 
tudo que se relacionava com seu conhecimento com um respeito profundo, a fim de colocar tudo numa perspectiva significativa. Ter respeito era o equivalente a avaliar 
seus prprios recursos insignificantes diante do Desconhecido.
        Se a pessoa permanecesse nesse estado de esprito, a idia de respeito estendia-se logicamente para incluir a prpria pessoa, pois o eu era to desconhecido 
quanto o prprio Desconhecido. Um sentimento de respeito to moderador transformava a aprendizagem desse conhecimento especfico, que, de outra forma, poderia parecer 
absurda, numa alternativa muito racional.
        Outra necessidade da vida de um guerreiro era a necessidade de experimentar e avaliar com cuidado a sensao do medo. O ideal era que, a despeito do medo, 
a pessoa teria de prosseguir com seus atos. Supunha-se que o medo fosse vencido e havia um momento dado na vida de um homem de conhecimento em que era vencido, mas 
primeiro a pessoa tinha de ter conscincia de estar com medo e avaliar essa sensao. Dom Juan afirmava que a pessoa s seria capaz de vencer o medo enfrentando-o.
        Como guerreiro, um homem de conhecimento tambm precisava estar bem desperto. Um homem em luta tinha de estar alerta para ter conhecimento da maior parte 
dos fatores pertinentes aos dois aspectos obrigatrios da conscincia: (1) conscincia de propsito e (2) conscincia do fluxo esperado.
        Conscincia de propsito era o ato de ter conhecimento dos fatores envolvidos no relacionamento entre o propsito especfico de qualquer ato obrigatrio 
e o propsito especfico da pessoa para agir. Como todos os atos obrigatrios tm um propsito definido, um homem de conhecimento tem de estar bem desperto; isto 
, precisa ser capaz em todas as ocasies de relacionar o propsito definido de cada ato obrigatrio com o motivo definido que ele tenha em mente para desejar agir.
        Um homem de conhecimento, estando consciente desse relacionamento, tambm  capaz de tomar cincia do que se acredita poder esperar do fluxo. O que chamei 
aqui de "conscincia do fluxo esperado" refere-se  certeza de que se  capaz em todos os momentos de verificar os importantes elementos variveis envolvidos no 
relacionamento entre o propsito especfico de cada ato e a razo especfica da pessoa para agir. Estando consciente do fluxo esperado, a pessoa devia poder verificar 
as modificaes mais sutis. Essa conscincia propositada das modificaes explica o reconhecimento e a interpretao de augrios e outros acontecimentos fora do 
comum.
        O ltimo aspecto da idia do comportamento de um guerreiro era a necessidade da confiana em si, isto , a garantia de que o propsito especfico de um ato 
que a pessoa possa ter querido desempenhar era a nica alternativa plausvel para seus prprios motivos especficos de agir. Sem a confiana em si, a pessoa teria 
sido incapaz de preencher um dos aspectos mais importantes dos ensinamentos: a capacidade de reivindicar o conhecimento como poder.

Ser um Homem de Conhecimento
 um Processo Incessante

        Ser um homem de conhecimento no  um estado que implique em permanncia. Nunca h a certeza de que, desempenhando-se passos predeterminados do conhecimento 
ensinado, a pessoa se torne um homem de conhecimento. Est implcito que a funo dos passos  apenas mostrar como se tornar um homem de conhecimento. Assim, tornar-se 
um homem de conhecimento  uma tarefa que no se pode realizar plenamente; ou melhor,  um processo incessante, que envolve: (1) a idia de que  preciso renovar 
a busca para ser um homem de conhecimento; (2) a idia da transitoriedade da pessoa; e (3) a idia de que  preciso seguir um caminho com um corao.
        A renovao constante da busca de se tornar um homem de conhecimento  expressa no tema dos quatro inimigos simblicos encontrados no caminho do conhecimento: 
medo, clareza, poder e velhice. Renovar a busca implica em conquistar e manter o controle sobre si mesmo. Um verdadeiro homem de conhecimento deve combater cada 
um dos quatro inimigos, sucessivamente, at o ltimo momento de sua vida, a fim de se manter ativamente empenhado em tornar-se um homem de conhecimento. No entanto, 
a despeito da verdadeira renovao da busca, as circunstncias eram inevitavelmente contra o homem; ele sucumbiria a seu ltimo inimigo simblico. Era essa a idia 
de transitoriedade.
        Contrabalanando o valor negativo da transitoriedade da pessoa, h a noo de que  preciso seguir "o caminho com um corao". O caminho com corao  uma 
maneira metafrica de asseverar que, a despeito de ser transitria, a pessoa ainda assim tem de prosseguir e tem de ser capaz de encontrar satisfao e realizao 
pessoal no ato de escolher a alternativa mais acessvel e identificar-se completamente com ela.
        Dom Juan sintetizou o fundamento lgico de todo seu conhecimento na metfora de que o importante para ele era encontrar o caminho com corao e depois percorrer 
a sua extenso, significando que a identificao com a alternativa acessvel era o suficiente para ele. A viagem em si era suficiente; qualquer esperana de chegar 
a uma posio permanente estava fora dos limites de seu conhecimento.

A Segunda Unidade

UM HOMEM DE CONHECIMENTO TEM UM ALIADO

        A idia de que um homem de conhecimento tem um aliado era o mais importante dos sete temas componentes, pois  o nico indispensvel para explicar o que 
 um homem de conhecimento. Na classificao de Dom Juan, um homem de conhecimento tem um aliado, enquanto o homem comum no tem, e ter um aliado  o que o distingue 
dos homens comuns.
        Dom Juan descreve um aliado como sendo "um poder capaz de transportar o homem alm dos limites dele prprio"; isto , um aliado  um poder que permite  
pessoa transcender o reino da realidade comum. Conseqentemente, ter um aliado implica em ter poder; e o fato de que um homem de conhecimento tem um aliado  em 
si prova de que o objetivo operacional dos ensinamentos foi atingido. Como esse objetivo era mostrar como se tornar um homem de conhecimento, e como o homem de conhecimento 
 aquele que tem um aliado, outra maneira de descrever o objetivo operacional dos ensinamentos de Dom Juan seria dizer que eles tambm mostram como obter um aliado. 
O conceito "homem de conhecimento", como o quadro filosfico do feiticeiro, tem um significado para todos os que querem viver dentro daquele quadro somente se tiverem 
um aliado.
        Classifiquei este ltimo tema componente do homem de conhecimento como segunda principal unidade estrutural devido a ser indispensvel para explicar o que 
 um homem de conhecimento.
        Nos ensinamentos de Dom Juan, havia dois aliados. O primeiro era contido nas plantas de Datura, comumente conhecidas como estramnio. Dom Juan chamava esse 
aliado por um dos nomes espanhis da planta, yerba del dublo (erva-do-diabo). Segando ele, qualquer espcie de Datura continha o aliado. No entanto, todo feiticeiro 
tinha de cultivar um canteiro de uma espcie que ele considerava sua, no apenas no sentido de que as plantas fossem sua propriedade particular, mas no sentido de 
que estavam pessoalmente identificadas com ele.
        As plantas de Dom Juan pertenciam  espcie inxia; porm no parecia haver nenhuma relao entre esse fato e as diferenas que possam ter existido entre 
as duas espcies de Datura de que ele dispunha.
        O segundo aliado era contido num cogumelo que identifiquei como pertencente ao gnero Psilocybe; talvez fosse Psilocybe mexicana, mas a classificao  apenas 
sugerida, pois no consegui obter um espcime para anlise em laboratrio.
        Dom Juan chamava esse aliado humito (fuminho), sugerindo que o aliado era anlogo ao fumo ou  mistura de fumo que ele fazia com o cogumelo. O fumo era mencionado 
como se fosse o verdadeiro recipiente, e no entanto ele deixou bem claro que o poder se ligava a apenas uma espcie de Psilocybe; assim, era preciso um cuidado especial 
no momento da coleta a fim de no confundi-lo com nenhum de uma dzia de outras espcies do mesmo gnero que cresciam na mesma zona.
        Um aliado como conceito significativo inclua as seguintes idias e ramificaes: (1) um aliado no tinha forma; (2) um aliado era percebido como uma qualidade; 
(3) um aliado era domesticvel; e (4) um aliado tinha um regulamento.

Um Aliado No Tinha Forma

        Um aliado era suposto ser uma entidade que existia fora e independente da pessoa, e no entanto, a despeito de ser uma entidade separada, supunha-se que o 
aliado no tivesse forma. Estabeleci "sem forma" como condio oposta a "com forma definida", distino feita diante do fato de haver outros poderes semelhantes 
a um aliado e que tm uma forma definidamente perceptvel. A condio sem forma do aliado significava que no possua uma forma distinta, ou vagamente definida, 
ou mesmo reconhecvel; e essa condio implicava que um aliado no era visvel em momento algum.

Um Aliado Era Percebido como uma Qualidade

        Uma seqncia  ausncia de forma de um aliado era outra condio expressa na idia de que um aliado era percebido apenas como uma qualidade dos sentidos; 
isto , como um aliado no tinha forma, sua presena era observada somente por seus efeitos sobre o feiticeiro. Dom Juan classificou alguns desses efeitos como tendo 
qualidades antropomrficas. Descreveu um aliado como tendo o carter de um ser humano, insinuando assim que um feiticeiro individual estava em posio de escolher 
o aliado mais adequado, comparando seu prprio carter com as supostas caractersticas antropomrficas de um aliado.

        Os dois aliados referidos nos ensinamentos foram apresentados por Dom Juan como tendo uma srie de qualidades opostas. Dom Juan classificava o aliado contido 
na Datura inxia como possuindo duas qualidades: era feminino e dava um poder suprfluo. Achava que essas duas qualidades eram totalmente indesejveis. Suas declaraes 
sobre o assunto eram positivas, mas ele indicava ao mesmo tempo que seu julgamento do caso era uma escolha puramente personalista.
        A caracterstica mais importante era sem dvida o que Dom Juan chamava de sua natureza feminina. O fato de ele ser descrito como feminino, no entanto, no 
significava que o aliado fosse um poder feminino. Parecia que a analogia com uma mulher fosse apenas um meio metafrico de Dom Juan
descrever o que ele achava serem os efeitos desagradveis do aliado. Alm disso, o gnero do nome da planta em espanhol, yerba, feminino, tambm pode ter ajudado 
a criar a analogia feminina. De qualquer forma, a personificao dessa aliada como poder feminino lhe atribua as seguintes qualidades antropomrficas: (1) era possessivo; 
(2) era violento; (3) era imprevisvel; e (4) tinha efeitos nocivos.
        Dom Juan acreditava que o aliado tinha o poder de escravizar os homens que se tornavam seus seguidores; explicava essa qualidade como sendo possessiva, que 
ele relacionava com o carter de uma mulher. O aliado possua seus seguidores dando-lhes poder, criando um sentimento de dependncia e dando-lhes fora fsica e 
bem-estar.
        Esse aliado tambm era supostamente violento. Sua violncia de mulher manifestava-se quando forava seus adeptos s cometerem atos destruidores, de fora 
bruta. E essa caracterstica especfica o tornava mais adequado a homens de natureza violenta, que queriam encontrar na violncia a chave poder pessoal.
       Outra caracterstica feminina era a imprevisibilidade. Para Dom Juan isso significava que os efeitos do aliado nunca eram constantes; ao contrrio, supunha-se 
que mudavam irregularmente e no havia meio de prev-los. A inconstncia do aliado devia ser contrabalanada pelo cuidado meticuloso e dramtico do feiticeiro em 
todos os detalhes do seu manuseio. Qualquer coisa desfavorvel que fosse inexplicvel, como resultado de algum erro ou manuseio errado, era explicado pela imprevisibilidade 
feminina do aliado.
        Devido a sua possessividade, violncia e imprevisibilidade, considerava-se que esse aliado tivesse um efeito geral nocivo sobre o carter de seus adeptos. 
Dom Juan acreditava que o aliado queria transmitir suas caractersticas femininas, e que seus esforos nesse sentido em geral eram bem sucedidos.
        Mas, alm de sua natureza feminina, esse aliado tinha outra faceta que tambm era considerada uma qualidade: dava um poder suprfluo. Dom Juan foi muito 
enftico nesse ponto, e frisou que, como doador de poder generoso, o aliado era inigualvel. Era suposto que desse a seus adeptos fora fsica, uma sensao de audcia 
e a capacidade de desempenhar feitos extraordinrios. Na opinio de Dom Juan, porm, um poder to exorbitante era suprfluo; declarou que, pelo menos para ele, no 
havia mais necessidade dele. No obstante, apresentava isso como um forte incentivo para um pretenso homem de conhecimento, no caso de este ter uma inclinao natural 
para buscar o poder.
        O ponto de vista partidrio de Dom Juan era que o aliado contido na Psilocybe mexicana, ao contrrio, tinha as caractersticas mais apropriadas e mais valiosas: 
(1) era masculina; e (2) era propiciadora do xtase.
        Descreveu aquele aliado como sendo a anttese do contido nas plantas de Datura. Considerava-o masculino, viril. Sua condio de masculinidade parecia ser 
anloga  feminilidade do outro aliado; isto , no era um poder masculino, mas Dom Juan o classificava em termos do que considerava ser procedimento masculino. 
Nesse caso, tambm, o gnero masculino da palavra espanhola humito pode ter sugerido a analogia com um poder masculino.
        As qualidades antropomrficas deste aliado, que Dom Juan julgava serem prprias de um homem, eram as seguintes: (1) era sem paixo; (2) era delicado; (3) 
era previsvel; e (4) tinha efeitos benficos.
        A idia de Dom Juan acerca da natureza sem paixo do aliado era expressa na crena de que era justo, de que nunca chegava a exigir atos extravagantes de 
seus adeptos. Nunca tornava os homens seus escravos, pois no lhes conferia um poder fcil; pelo contrrio, humito era duro, mas justo com seus seguidores.
        O fato de o aliado no exigir um comportamento abertamente violento tornava-o delicado. Supunha-se que induzisse a uma sensao de falta de corpo, e assim 
Dom Juan o apresentava como sendo calmo, delicado e propiciando a paz.
        Tambm era previsvel. Dom Juan descreveu seus efeitos sobre todos os seus seguidores individuais e nas experincias sucessivas de qualquer homem isolado 
como sendo constantes; em outras palavras, seus efeitos no variavam, ou, se o faziam, eram to semelhantes que eram considerados os mesmos.
        Em conseqncia de ser desapaixonado, delicado e previsvel, esse aliado, pensava-se, tinha outra caracterstica viril: um efeito benfico sobre o carter 
de seus adeptos. A virilidade de humito devia criar um estado muito raro de estabilidade emocional neles. Dom Juan acreditava que sob a orientao do aliado, a pessoa 
podia temperar o corao e adquirir o equilbrio.
        Um corolrio de todas as caractersticas viris do aliado, acreditava, era a capacidade de provocar xtase. Essa outra faceta de sua natureza tambm era vista 
como uma qualidade. Acreditava-se que humito removia o corpo de seus seguidores, permitindo-lhes assim realizarem formas especializadas de atividade, pertinentes 
a um estado de ausncia de corpo. E Dom Juan afirmava que essas formas especializadas de atividade levavam inevitavelmente ao estado de xtase. O aliado contido 
na Psilocybe era considerado ideal para os homens cujas naturezas os predispunham a procurar a contemplao.

Um Aliado Era Domesticvel

        A idia de que um aliado fosse domesticvel implicava que, como poder, tinha o potencial de ser usado. Dom Juan explicou que era a capacidade inata do aliado 
de ser utilizvel; depois que um feiticeiro domesticava um aliado, pensavase que ele estivesse com o domnio de seu poder especializado, o que significava que ele 
poderia manipul-lo para sua vantagem particular. A capacidade que tinha um aliado de ser domesticado contrapunha-se  incapacidade dos outros poderes, que eram 
semelhantes ao aliado, com exceo do fato de no cederem para serem manipulados.
        A manipulao de um aliado tinha dois aspectos: (1) um aliado  um veculo; e (2) um aliado  um auxiliar.
        Um aliado  um veculo no sentido de que serve para transportar o feiticeiro para o reino da realidade no comum. No que se refere a meus conhecimentos pessoais, 
ambos os aliados serviam como veculos, embora a funo tivesse significados diferentes para cada um.
        As qualidades gerais e indesejveis do aliado contido na Datura inoxia, especialmente sua qualidade de imprevisibilidade, o transformavam num veculo perigoso, 
em que no se podia confiar. O ritual era a nica proteo possvel contra sua inconstncia, mas isso nunca bastava para garantir a estabilidade do aliado; um feiticeiro 
que usasse esse aliado como veculo tinha de esperar augrios favorveis antes de prosseguir.
        O aliado contido na Psilocybe mexicana, ao contrrio, era considerado um veculo firme e previsvel, em conseqncia de todas suas qualidades valiosas. Como 
resultado de sua previsibilidade, um feiticeiro que usasse esse aliado no precisava empenhar-se em nenhum ritual preparatrio.
        O outro aspecto da manipulao de um aliado era expresso na idia de que um aliado era um auxiliar. Ser um auxiliar significava que um aliado, depois de 
servir a um feiticeiro como veculo, era novamente utilizvel como auxiliar ou guia para ajuda-lo a conquistar o objetivo que ele tivesse em mente, ao ingressar 
no reino de realidade no comum.
        Em sua capacidade de auxiliares, os dois aliados tinham propriedades diferentes e sui generis. A complexidade e aplicabilidade dessas propriedades aumentavam 
 medida que a pessoa avanava no caminho da aprendizagem. Mas, em termos gerais, o aliado contido na Datura inoxia era considerado um auxiliar extraordinrio e 
essa capacidade parecia ser um corolrio de sua facilidade para dar poder suprfluo. O aliado contido na Psilocybe mexicana, porm, era considerado um auxiliar ainda 
mais extraordinrio. Dom Juan achava que era sem igual na funo de ser auxiliar, o que considerava uma extenso de suas qualidades gerais valiosas.

A Terceira Unidade

UM ALIADO TEM UM REGULAMENTO

        A nica idia indispensvel entre os componentes do conceito de "aliado"  a de que ele tem um regulamento, para se explicar o que  um aliado. Devido a 
essa indispensabilidade, coloquei-a como terceira: unidade principal nessa classificao estrutural.
        O regulamento, que Dom Juan tambm chamava a lei, era o rgido conceito de organizao que regulava todos os atos que tinham de ser executados e o comportamento 
que devia ser observado em todo o processo de se lidar com o aliado. O regulamento era transmitido verbalmente do mestre ao aprendiz, idealmente sem alterao, por 
meio da interao mantida entre eles. O regulamento era, pois, mais do que um conjunto de regras; era, antes, uma srie de esboos de atividade que dirigia o rumo 
a ser seguido no processo de manipular um aliado.
        Sem dvida, muitos elementos teriam correspondido  definio de Dom Juan de um aliado como sendo um "poder capaz de transportar um homem alm dos limites 
dele prprio". Quem aceitasse essa definio poderia conceber, razoavelmente, que tudo o que possusse essa faculdade poderia ser um aliado. E, logicamente, at 
mesmo condies orgnicas produzidas pela fome, fadiga e doena podiam servir como aliados, pois poderiam possuir a faculdade de transportar o homem alm do reino 
da realidade comum. Mas a idia de que um aliado tinha um regulamento eliminava todas essas possibilidades. Um aliado era um poder que tinha um regulamento. Todas 
as outras possibilidades no podiam ser consideradas aliadas porque no tinha regulamento.
        Como conceito, o regulamento compreendia as seguintes idias e seus vrios componentes: (1) o regulamento era inflexvel; (2) o regulamento no era cumulativo; 
(3) o regulamento era corroborado pela realidade comum; (4) o regulamento era corroborado pela realidade no comum; e (S) o regulamento era corroborado por um consenso 
especial.

O Regulamento Era Inflexvel

        Os esboos de atividade que constituam o todo do regulamento eram passos inevitveis que a pessoa tinha de seguir a fim de alcanar o objetivo operacional 
dos ensinamentos. Essa qualidade compulsria do regulamento era transmitida na idia de que era inflexvel. A inflexibilidade do regulamento estava intimamente ligada 
 idia de eficincia. Os esforos dramticos criavam uma incessante luta pela sobrevivncia e, nessas condies, somente o ato mais eficaz que a pessoa pudesse 
praticar asseguraria a sobrevivncia. Como no eram permitidos pontos de referncia individualistas, o regulamento Prescrevia os atos que constituam a nica alternativa 
para a sobrevivncia. Assim, o regulamento tinha de ser inflexvel; tinha de exigir uma obedincia definida a seus comandos.
        A obedincia ao regulamento, porm, no era absoluta. Durante os ensinamentos, registrei um caso em que sua inflexibilidade foi cancelada. Dom Juan explicou 
aquele exemplo de variao como um favor especial, oriundo da interveno direta de um aliado. Naquele caso, devido a meu engano sem querer ao manusear o aliado 
contido na Datura inoxia, o regulamento fora violado. Dessa ocorrncia, Dom Juan deduzia que um aliado tinha a faculdade de intervir diretamente e impedir o efeito 
nocivo, e geralmente fatal, que resultava da no obedincia a seu regulamento. Essa prova de flexibilidade era sempre considerada como o produto de um forte lao 
de afinidade entre o aliado e seu seguidor.

O Regulamento No Era Cumulativo

        A suposio aqui era de que todos os mtodos concebveis de manipular um aliado j tivessem sido usados. Teoricamente, o regulamento no era cumulativo; 
no havia possibilidade de aument-lo. A idia da natureza no cumulativa do regulamento tambm se relacionava ao conceito da eficcia. Como o regulamento ditava 
a nica alternativa eficaz para a sobrevivncia pessoal do indivduo, qualquer tentativa de modific-lo ou alterar seu curso por inovaes era considerado no s 
um ato suprfluo, como mortal. S havia a possibilidade de se aumentar o conhecimento pessoal do regulamento, quer sob a orientao do mestre, quer sob a orientao 
especial do prprio aliado. Este ltimo era considerado um exemplo de aquisio direta de conhecimento, e no um acrscimo ao do regulamento.

O Regulamento Era Corroborado Pela Realidade Comum

       A corroborao do regulamento significava o ato de verifica-lo, o ato de atestar a sua validez, confirmando-o pragmaticamente de maneira experimental. Como 
o regulamento tratava de situaes de realidade comum e no comum, sua corroborao se dava em ambas as reas.
        As situaes de realidade comum com que lidava o regulamento muitas vezes eram situaes extraordinariamente fora do comum, porm, por mais anormais que 
fossem, o regulamento era corroborado pela realidade comum. Por esse motivo deve ser considerada fora do mbito deste trabalho, devendo ser mais propriamente o campo 
de outro estudo. Essa parte do regulamento trata dos detalhes dos processos empregados no reconhecimento, coleta, mistura, preparo e cultivo das plantas de poder 
em que so contidos os aliados, dos detalhes de outros processos dos usos dessas plantas de poder e outras mincias semelhantes.

O Regulamento Era Corroborado Pela Realidade No Comum

O regulamento tambm era corroborado pela realidade no comum, e essa corroborao era feita da mesma maneira pragmtica e experimental de revalidao que teria 
sido empregada em situaes de realidade comum. A idia de corroborao pragmtica envolvia dois conceitos: (1) encontros com o aliado, que denominei estados de 
realidade no comum; e (2) os propsitos especficos do regulamento.
       Os estados de realidade no comum. - As duas plantas em que se continham os aliados, quando utilizadas de acordo com os regulamentos respectivos dos aliados, 
produziam estados de uma percepo especial, que Dom Juan classificava de encontros com o aliado. Dava grande nfase em provoca-los, nfase que se resumia na idia 
de que a pessoa tinha de encontrar-se com o aliado tantas vezes quantas fosse possvel a fim de verificar seu regulamento de maneira pragmtica e experimental. A 
suposio era que a proporo do regulamento que poderia ser verificada estava em relao direta com o nmero de vezes que a pessoa encontrasse o aliado.
        O mtodo exclusivo de provocar um encontro com o aliado era, naturalmente, por meio do uso adequado da planta em que o aliado era contido. No obstante, 
Dom' Juan sugeriu que, em certo estado avanado do conhecimento, os encontros podiam realizar-se sem ouso da planta; isto , podiam realizar-se por um simples ato 
de vontade.
        Denominei os encontros com o aliado estados de realidade no comum. Escolhia expresso "realidade no comum", porque se coadunava com a afirmao de Dom 
Juan, de que esses encontros se realizavam numa continuidade da realidade, uma realidade que era apenas ligeiramente diferente da realidade comum da vida quotidiana. 
Conseqentemente, a realidade no comum tem caractersticas especficas que podiam ser avaliadas supostamente em termos iguais por todo mundo. Dom Juan nunca formulou 
essas caractersticas de maneira definida, mas sua reserva parecia originar-se da idia de que cada homem tinha de reivindicar o conhecimento como assunto de natureza 
pessoal.
        As seguintes categorias, que considero as caractersticas especficas da realidade no comum, foram tiradas de minha experincia pessoal. No entanto, a despeito 
de sua origem aparentemente excntrica, foram reforadas e desenvolvidas por Dom Juan nas premissas de seu conhecimento; conduziu seus ensinamentos como se essas 
caractersticas fossem inerentes  realidade no comum: (1) a realidade no comum era utilizvel; (2) a realidade no comum tinha elementos constituintes.
        A primeira caracterstica - de que a realidade no comum era utilizvel - implicava que ela servia para um servio real. Dom Juan explicou vrias vezes que 
o objetivo primordial de seu conhecimento era a consecuo de resultados prticos, e que esse objetivo era pertinente na realidade comum e no comum. Asseverava 
que em seu conhecimento havia os meios de se fazer trabalhar a realidade no comum, do mesmo modo que a realidade comum. Segundo essa afirmativa, os estados provocados 
pelos aliados eram produzidos com o intuito propositado de serem utilizados. Nesse caso especial a explicao lgica de Dom Juan era que os encontros com os aliados 
eram feitos para se aprender os segredos deles, e esse fundamento lgico servia como um guia rgido para eliminar outros motivos pessoais que se.pudesse ter para 
procurar os estados de realidade no comum.
        A segunda caracterstica da realidade no comum era que tinha elementos constituintes. Esses elementos eram os itens, os atos e os acontecimentos que a pessoa 
percebia, aparentemente com os sentidos, como fazendo parte de um estado de realidade no comum. O quadro total da realidade no comum era composto de elementos 
que pareciam possuir qualidades tanto dos elementos da realidade comum como dos componentes de um sonho comum, embora no fossem idnticos a nenhum dos dois.
        Segundo minha opinio pessoal, os elementos componentes da realidade no comum tinham trs caractersticas suas: (1) estabilidade, (2) singularidade, e (3) 
falta de consenso comum. Essas qualidades os faziam destacar-se como unidades discretas, possuindo uma individualidade inconfundvel.
        Os elementos constituintes da realidade no comum tinham estabilidade no sentido de serene constantes. Nesse ponto eram semelhantes aos elementos constituintes 
da realidade comum, pois nem mudavam nem desapareciam, como fariam os elementos componentes de sonhos comuns. Parecia que cada detalhe que formava um elemento componente 
da realidade no comum tinha um carter concreto seu, carter que eu percebia como sendo extraordinariamente estvel. A estabilidade era to marcada que me permitia 
estabelecer o critrio de que, na realidade no comum, a gente possua sempre a capacidade de fazer uma parada at fim de examinar qualquer dos elementos componentes 
durante o que parecia ser um espao de tempo indefinido. A aplicao desse critrio me permitia distinguir os estados de realidade no comum usados por Dom Juan 
de outros estados de percepo especial que podiam parecer ser realidade no comum, mas que no correspondiam a esse critrio.
        A segunda caracterstica exclusiva dos elementos constituintes da realidade no comum --- sua singularidade significava que todo detalhe do elemento constituinte 
era um item nico e individual; parecia que cada detalhe fosse isolado dos outros, ou que os detalhes apareciam um de cada vez. A singularidade dos elementos parecia 
ainda criar uma necessidade nica, que pode ter sido comum a todos: a necessidade imperiosa, a compulso de amalgamar todos os detalhes isolados numa cena total, 
um composto total. Dom Juan obviamente estava ciente dessa necessidade e utilizava-a em todas as ocasies possveis.
        O terceiro caracterstico nico dos elementos constituintes, e o mais dramtico de todos, era a sua falta de consenso comum. A pessoa percebia os elementos 
constituintes quando num estado de solido completa, que era mais como a solido de um homem que presencia sozinho uma cena estranha na realidade comum, do que a 
solido do sonho. Como a estabilidade dos elementos constituintes da realidade no comum permitia que a pessoa parasse para examinar qualquer deles por um tempo 
aparentemente indefinido, quase chegava a parecer que fossem elementos da vida quotidiana; no entanto, a diferena entre os elementos constituintes dos dois estados 
de realidade era a sua capacidade de consenso comum. Por consenso comum quero exprimir o acordo tcito sobre os componentes da vida quotidiana que os homens se do 
uns aos outros de vrias maneiras. Para os elementos constituintes da realidade no comum, o consenso comum era inatingvel. Nesse ponto, a realidade no comum aproximava-se 
mais do estado de sonho do que da realidade comum. E no entanto, devido a suas caractersticas nicas de estabilidade e singularidade, os elementos constituintes 
da realidade no comum tinham um senso de realidade forte que parecia fomentar a necessidade de revalidar a sua existncia em termos de consenso.
        O objetivo especfico do regulamento. - O outro componente do conceito de que o regulamento era verificado na realidade no comum era a idia de que o regulamento 
tinha um objetivo especfico. Esse objetivo era a conquista, geralmente com o uso de um aliado, de uma meta utilitria. No contexto dos ensinamentos de Dom Juan, 
supunha-se que o regulamento fosse aprendido corroborando-se o mesmo na realidade comum e na no comum. A faceta decisiva dos ensinamentos, contudo, era a corroborao 
do regulamento nos estados de realidade no comum; e o que era corroborado nos atos e elementos percebidos na realidade no comum era o objetivo especfico do regulamento. 
Esse objetivo especfico tratava do poder do aliado, isto , da manipulao do aliado primeiro como veculo e depois como auxiliar, mas Dom Juan sempre tratava cada 
caso do objetivo especfico do regulamento como uma unidade nica, implicitamente abrangendo essas duas reas.
        Como o objetivo especfico referia-se  manipulao do poder do aliado, tinha uma seqncia inseparvel - as tcnicas de manipulao.
        As tcnicas de manipulao eram os processos, as operaes em si, envolvidas em cada caso da manipulao do poder de um aliado. A idia de que um aliado 
podia ser manipulado comprovava sua utilidade na consecuo de objetivos pragmticos, e as tcnicas de manipulao eram os processos que se supunha tornarem o aliado 
usvel.
        O propsito especfico e as tcnicas de manipulao constituam uma unidade nica que o feiticeiro tinha de conhecer precisamente a fim de poder comandar 
seu aliado com eficincia.
        Os ensinamentos de Dom Juan incluam os seguintes objetivos especficos dos regulamentos dos dois aliados. Organizei-os aqui na mesma ordem em que ele os 
apresentou a mim.
        O primeiro objetivo especfico que era observado na realidade no comum era a prova com o aliado contido na Datura inoxia. A tcnica de manipulao era de 
ingerir uma poo feita com uma seo da ingesto dessa poo produzia produzia um estado superficial de realidade no comum, que Dom Juan utilizou para me testar, 
verificando se eu tinha ou no como aprendiz em perspectiva, afinidade com o aliado contido na planta. A poo devia produzir ou uma sensao de bem-estar fsico 
no especificada, ou uma sensao de grande desconforto, efeitos que Dom Juan considerava, respectivamente, como um sinal de afinidade ou a falta dela.
        O segundo objetivo especfico era a adivinhao. Tambm fazia parte do regulamento do aliado contido na Datura inoxia. Dom Juan considerava a adivinhao 
uma forma de movimento especializado, na suposio de que um feiticeiro era transportado pelo aliado para um compartimento especial da realidade no comum, em que 
ele era capaz de adivinhar fatos que lhe eram desconhecidos.
        A tcnica de manipulao do segundo objetivo era um processo de ingesto-absoro. Uma poo feita com a raiz de Datura era ingerida e um ungento feito 
com as sementes de Datura era esfregado nas partes temporal e frontal da cabea. Usei a expresso "ingesto-absoro" porque a ingesto podia ter sido ajudada pela 
absoro da pele para produzir um estado de realidade no comum, ou a absoro pela pele podia ser ajudada pela ingesto.
        Essa tcnica de manipulao exigia a utilizao de outros elementos alm da planta de Datura, no caso, os dois lagartos. Deviam servir ao feiticeiro como 
instrumentos de movimento, significando aqui a percepo de estar num reino especial, em que se pode ouvir o lagarto falar e depois visualizar o que ele disse. Dom 
Juan explicava esses fenmenos como sendo os lagartos respondendo s perguntas que foram feitas para serem adivinhadas.
        O terceiro objetivo especfico do regulamento do aliado contido nas plantas de Datura tratava de outra - forma especializada de movimento, o vo corporal. 
Conforme explicou Dom Juan, um feiticeiro que usasse esse aliado era capaz de voar corporalmente por distncias enormes; o vo corporal era a capacidade do feiticeiro 
de se mover pela realidade no comum e depois voltar  sua vontade para a realidade comum.
        A tcnica de manipulao do terceiro objetivo especfico tambm era um processo de ingesto-absoro. Uma poo feita com a raiz de Datura era ingerida e 
um ungento feito com as sementes de Datura era esfregado nas solas dos ps, na parte interna das duas pernas e nos rgos genitais.
        O terceiro objetivo especfico no era corroborado profundamente; Dom Juan sugeriu que no tinha revelado outros aspectos da tcnica de manipulao que permitissem 
ao feiticeiro adquirir um sentido de direo enquanto se movia.
        O quarto objetivo especfico do regulamento era a prova do aliado contido na Psilocybe mexicana. A prova no visava apenas determinar a afinidade ou falta 
de afinidade com o aliado, mas, antes, ser uma inevitvel primeira experincia, ou o primeiro encontro com o aliado.
        A tcnica de manipulao do quarto objetivo especfico utilizava uma mistura de fumo feita de cogumelos secos misturados com vrias partes de cinco outras 
plantas, nenhuma das quais, que se soubesse, com propriedades alucingenas. O regulamento frisava o ato de inspirar o fumo da mistura; assim, o mestre usava a palavra 
humito (fuminho) para referir-se ao aliado contido nela. Mas denominei esse processo "ingesto-inspirao por ser uma combinao de primeiro ingerir e depois inspirar. 
Os cogumelos, por serem macios, secavam produzindo um p muito fino que era meio difcil queimar. Os outros ingredientes se reduziam a tiras, quando secos. Essas 
tiras eram incineradas no fornilho do cachimbo enquanto o p dos cogumelos, que no ardia to facilmente, era sugado para a boca e ingerido. Logicamente, a quantidade 
de cogumelos secos ingerida era maior do que a quantidade de tiras queimadas e inspiradas.

        Os efeitos do primeiro estado de realidade no comum provocado pela Psilocybe mexicana deram ensejo  breve preleo de Dom Juan sobre o quinto objetivo 
especfico do regulamento. Tratava do movimento - movimento com o auxilio do aliado contido na Psilocybe mexicana, para dentro e atravs de objetos inanimados ou 
para dentro e atravs de seres animados. A tcnica completa de manipulao podia incluir a sugesto hipntica, alm do processo da ingesto-inspirao. Como Dom 
Juan apresentou esse objetivo especfico atravs de uma breve preleo, que no foi verificada posteriormente, foi-me impossvel avaliar corretamente qualquer de 
seus aspectos.
        O sexto objetivo especfico do regulamento verificado na realidade no comum, que tambm envolvia o aliado contido na Psilocybe mexicana, tratava de outro 
aspecto do movimento - o movimento adotando uma forma diferente. Este aspecto do movimento estava sujeito  mais intensa verificao. Dom Juan asseverava que era 
necessria uma prtica assdua a fim de domin-lo. Afirmava que o aliado contido na Psilocybe mexicana tinha a capacidade inerente de fazer com que o corpo do feiticeiro 
desaparecesse; assim, a idia de adotar uma outra forma era uma possibilidade lgica para conseguir o movimento em condies de ausncia de corpo. Outra possibilidade 
lgica para conseguir movimentos era, naturalmente, a movimentao atravs dos objetos e seres, sobre a qual Dom Juan falara brevemente.
        A tcnica de manipulao do sexto objetivo especfico do regulamento inclua no apenas a ingesto-inspirao, mas tambm, segundo todas as indicaes, a 
sugesto hipntica. Dom Juan lanara essa sugesto nos estgios transitrios para a realidade no comum, e tambm durante a primeira parte dos estados de realidade 
no comum. Classificava o processo aparentemente hipntico como sendo apenas sua superviso pessoal, significando que no me revelara a tcnica de manipulao completa 
naquela determinada ocasio.
        A adoo de uma forma diferente no significava que o feiticeiro estivesse livre para adotar, a qualquer momento, qualquer forma que ele quisesse assumir; 
ao contrrio, implicava um treinamento de toda a vida para assumir uma forma preconcebida. A forma preconcebida que Dom Juan preferira adotar era a de um corvo, 
e conseqentemente ele frisava essa forma determinada em seus ensinamentos. Mas deixou bem claro que o corvo era sua escolha pessoal, e que havia inmeras outras 
formas preconcebidas possveis.

A Quarta Unidade

O REGULAMENTO ERA CORROBORADO
POR CONSENSO ESPECIAL

        Entre os conceitos constituintes que formavam o regulamento, o que era indispensvel para explic-lo era que o regulamento era corroborado por consenso especial; 
todos os outros conceitos constituintes em si eram insuficientes para explicar o significado do regulamento.
        Dom Juan deixou bem claro que um aliado no  doado a um feiticeiro, mas que um feiticeiro aprendia a manipular o aliado pelo processo de corroborar seu 
regulamento. O pro cesso de aprendizagem total envolvia a verificao do regulamento na realidade no comum, bem como na comum. No entanto, a faceta crucial dos 
ensinamentos de Dom Juan era a corroborao do regulamento de maneira pragmtica e experimental no contexto do que a pessoa percebia como sendo os elementos constituintes 
da realidade no comum. Mas esses elementos constituintes no estavam sujeitos a um consenso comum, e se a pessoa fosse incapaz de conseguir um acordo sobre sua 
existncia, sua realidade percebida s teria sido uma iluso. Como o homem teria de ficar sozinho na realidade no comum, por causa de sua solido, tudo o que ele 
percebesse teria de ser excntrico. A solido e a excentricidade eram conseqncias do fato suposto de que nenhum outro ser humano lhe poderia dar um consenso comum 
sobre suas percepes.
        Nesse ponto, Dom Juan apresentou a parte constituinte mais importante de seus ensinamentos: forneceu-me um consenso especial sobre os atos e elementos que 
eu percebera na realidade no comum, atos elementos que supostamente deviam corroborar o regulamento. Nos ensinamentos de Dom Juan, o consenso especial significava 
uma concordncia tcita ou implcita sobre os elementos constituintes da realidade no comum, que ele, em sua capacidade de mestre, dava a mim, como aprendiz de 
seu conhecimento. Esse consenso especial no era de modo algum fraudulento ou esprio, tal como uma ou duas pessoas poderiam dar-se ao descrever os elementos constituintes 
de seus sonhos individuais. O consenso especial que Dom Juan fornecia era sistemtico, e para fornec-lo ele pode ter precisado da totalidade de seu conhecimento. 
Com a aquisio de um consenso sistemtico, os atos e os elementos percebidos na realidade no comum tornavam-se consensualmente reais, o que significava, no esquema 
de classificao de Dom Juan, que o regulamento do aliado tinha sido corroborado. O regulamento tinha significado como conceito, ento, somente enquanto era sujeito 
a um consenso especial, pois, sem ama concordncia especial quanto a sua corroborao, o regulamento teria sido uma construo puramente excntrica.
        Devido ao fato de ser indispensvel para explicar o regulamento, tornei a idia de que o regulamento fosse corroborado por consenso especial a quarta unidade 
principal desse esquema estrutural. Essa unidade, por ser basicamente a interao entre dois indivduos, compunha-se de: (1) o benfeitor, ou o guia para o conhecimento 
a ser ensinado, o agente que fornecia o consenso especial; (2) o aprendiz ou sujeito para quem era fornecido o consenso especial.
        O fracasso ou o xito em conseguir o objetivo operacional dos ensinamentos residia nessa unidade. Assim, o consenso especial era a culminao precria do 
seguinte processo: um feiticeiro tinha uma caracterstica distinta, a posse de um aliado, que o diferenava dos homens comuns. Um aliado era um poder que tinha a 
propriedade especial de ter um regulamento. E a caracterstica sui generis do regulamento era a sua corroborao na realidade no comum por meio do consenso especial.

O Benfeitor

        O benfeitor era o agente sem o qual a corroborao do regulamento teria sido impossvel. A fim de fornecer o consenso especial, ele desempenhava as duas 
tarefas de: (1) preparar o ambiente para o consenso especial para a corroborao do regulamento e (2) orientar o consenso especial.

Preparao do Consenso Especial

        A primeira tarefa do benfeitor era preparar o ambiente necessrio para provocar o consenso especial para a corroborao do regulamento. Como meu mestre, 
Dom Juan me fez: (1) experimentar outros estados de realidade no comum que ele explicou como sendo bem distintos daqueles produzidos para corroborar o regulamento 
dos aliados; (2) participar com ele de certos estados de realidade comum que pareciam ter sido produzidos por ele mesmo; e (3) recapitular cada experincia detalhadamente. 
A tarefa de Dom Juan, de preparar um consenso especial, consistia em reforar e confirmar a corroborao do regulamento, dando um consenso especial sobre os elementos 
constituintes desses novos estados de realidade no comum, e sobre os elementos constituintes dos estados especiais de realidade comum.
        Os outros estados de realidade no comum que Dom Juan me fez experimentar foram provocados pela ingesto do cacto Lophophora williamsii, comumente conhecido 
por peiote. Geralmente a parte superior do cacto era cortada e guardada at secar e, depois, mastigada e ingerida; mas, em circunstnciais especiais, a parte superior 
era ingerida quando ainda fresca. A ingesto, porm, no era o nico meio de experimentar um estado de realidade no comum com a Lophophora williarnsii. Dom Juan 
sugeriu que estados espontneos de realidade no comum ocorriam em condies sui generis, e ele as classificou como ddivas do poder contido na planta.
        A realidade no comum provocada pela Lophophora williamsii tinha trs caractersticas distintas: (1) acreditava-se que fosse produzida por uma entidade denominada 
"Mescalito"; (2) era utilizvel; e (3) tinha elementos constituintes.
        Mescalito era suposto ser um poder nico, semelhante a um aliado no sentido de permitir que a pessoa transcendesse os limites da realidade comum, mas tambm 
bem diferente de um aliado. Como um aliado, Mescalito era contido numa planta definida, o cacto Lophophora williamsii. Mas, ao contrrio de um aliado, que era apenas 
contido numa planta, Mescalito e a planta que o continha eram o mesmo; a planta era o centro de manifestaes francas de respeito, merecendo uma venerao profunda. 
Dom Juan acreditava firmemente que, sob certas condies, como num estado de profunda aquiescncia para com Mescalito, o simples ato de estar prximo ao cacto produziria 
um estado de realidade no comum.
        Mas Mescalito no tinha regulamento e, por esse motivo, no era um aliado, embora fosse capaz de transportar o homem alm dos limites da realidade comum. 
O fato de no ter regulamento no s barrava Mescalito de ser usado como aliado, pois que, sem um regulamento, ele no podia ser manipulado, como ainda o tornava 
um poder muito diferente de um aliado. 
       Como conseqncia direta de no ter regulamento, Mescalito  disposio de qualquer homem, sem a necessidade de uma longa aprendizagem ou o compromisso de 
tcnicas de manipulao, como exigia um aliado. E como ele estava disponvel sem qualquer treinamento, Mescalito era considerado um protetor. Ser um protetor significava 
que podia ser alcanado por qualquer pessoa. E no entanto, Mescalito como protetor era acessvel a todos; e, com certos a indivduos, no era compatvel. Segundo 
Dom Juan, essa incompatibilidade era causada pela discrepncia entre a "moralidade inflexvel" de Mescalito e o carter duvidoso do prprio indivduo.
       Mescalito tambm era um mestre. Supunha-se que tivesse funes didticas. Era um diretor, um guia para o procedimento correto. Mescalito ensinava o caminho 
do bem. A idia que Dom Juan fazia do caminho do bem parecia ser um sentido de correo que consistia no de retido em termos de moral, mas de uma tendncia para 
simplificar os padres de comportamento nos termos da eficincia promovida por seus ensinamentos. Dom Juan acreditava que Mescalito a simplificao ensinava ao 
do comportamento.
       Acreditava-se que Mescalito fosse uma entidade. E como tal era suposto ter uma forma definida, que geralmente no era constante nem previsvel. Essa qualidade 
indicava que Mescalito era percebido de maneiras diferentes no s por homens diferentes, como tambm pelo mesmo homem em ocasies diferentes. Dom Juan exprimiu 
essa idia em termos da faculdade de Mescalito de adotar qualquer formes a concebvel. Para os indivduos com quem ele era compatvel, porm adotava uma forma imutvel, 
depois que eles tivessem participado dele por alguns anos.
       A realidade no comum produzida por Mescalito era utilizvel, e nesse ponto era idntica  produzida por um aliado. A nica diferena era o fundamento lgico 
que Don Juan usava em seus ensinamentos para provoc-la: a pessoa devia procurar "as lies de Mescalito sobre o caminho certo".
       A realidade no comum provocada por Mescalito tambm tinha elementos constituintes, e aqui mais uma vez os estados de realidade no comum produzidos por Mescalito 
e por um aliado eram idnticos. Em ambos, os caractersticos dos elelementos constituintes eram a estabilidade, singularidade e falta de consenso.
       O outro processo que Dom Juan usava parara preparar, o ambiente para o consenso especial era fazer-me co-participar de estados especiais de realidade comum. 
Um estado especial de realidade comum era uma situao que podia ser descrita em termos das propriedades da vida de todo dia, s que poderia ser impossvel conseguir 
um consenso comum sobre seus elementos constituintes. Dom Juan preparou o ambiente para o consenso especial da corroborao do regulamento, dando um consenso especial 
sobre os elementos constituintes dos estados especiais da realidade comum. Esses elementos constituintes eram elementos da vida de todo dia, cuja existncia podia 
ser confirmada somente por Dom Juan, por concordncia especial. Isso era uma suposio de minha parte, pois, como co-participante dos estados especiais da realidade 
comum, eu acreditava que somente Dom Juan, como outro co-participante, poderia saber quais os elementos constituintes que formavam o estado especial de realidade 
comum.
        Em minha opinio pessoal, os estados especiais de realidade comum eram produzidos por Dom Juan, embora ele nunca tenha confessado faz-lo. Parece que o conseguia 
por meio de uma manipulao hbil de indiretas e sugestes para dirigir meu comportamento. Denominei esse processo de "manipulao de sugestes". Tinha dois aspectos: 
(1) dar sugestes sobre o ambiente e (2) dar sugestes sobre o comportamento.
        No correr de seus ensinamentos, Dom Juan fez-me experimentar dois desses estados. Pode ter produzido o primeiro dando sugestes sobre o ambiente. O fundamento 
lgico de Dom Juan para produzi-lo era que eu precisava de um teste para provar minhas boas intenes, e s depois que ele me deu um consenso especial a respeito 
de seus elementos constituintes  que consentiu em comear seus ensinamentos. Por "sugestes sobre o ambiente", quero significar que Dom Juan me levara a um estado 
especial de realidade comum, isolando, por sugestes sutis, elementos constituintes da realidade comum que faziam parte do meio ambiente fsico imediato. Os elementos 
isolados dessa maneira criavam nesse caso uma percepo visual especfica de cor, que Dom Juan verificou tacitamente.
        O segundo estado de realidade comum pode ter sido produzido por sugestes sobre o comportamento. Dom Juan, por uma associao ntima comigo, e por um comportamento 
constante, tinha conseguido criar uma imagem dele, imagem que me servia de padro essencial pelo qual eu o reconhecia. Ento executando certas reaes especficas 
escolhidas, que, eram irreconciliveis com a imagem que ele criara, Dom Juan foi capaz de modificar esse padro essencial de reconhecimento.
        A distoro, por sua vez, pode ter modificado a configurao normal dos elementos associados com o padro num padro novo e incongruente, que no poderia 
estar sujeito ao consenso comum; Dom Juan, como co-participante daquele estado especial de realidade comum, era a nica pessoa que sabia quais eram os elementos 
constituintes, e assim era a nica pessoa que me poderia dar concordncia sobre sua existncia.
        Dom Juan produziu o segundo estado especial de realidade comum tambm cerro prova, como uma espcie de recapitulao de seus ensinamentos. Parecia que ambos 
os estados especiais de realidade comum marcavam uma transio nos ensinamentos. Demonstravam ser um ponto de articulao. E o segundo estado pode ter marcado meu 
ingresso num novo estgio de aprendizagem, caracterizado por uma co-participao mais direta entre a mestre e o aprendiz, para as finalidades de se chegar a um consenso 
especial.
        O terceiro processo usado por Dom Juan para preparar um consenso especial foi fazer com que eu desse um relato detalhado do que experimentara depois de cada 
estado de realidade no comum e cada estado especial de realidade comum, e depois frisar certas unidades escolhidas, que ele isolava do meu relato. O fator essencial 
era dirigir os resultados dos estados de realidade no comum e minha suposio implcita aqui era que as caractersticas dos elementos constituintes da realidade 
no comum - estabilidade, singularidade e falta de consenso comum - eram inerentes a eles e no o resultado da orientao de Dom Juan. Essa suposio baseava-se 
sobre a observao de que os elementos constituintes do primeiro estado de realidade no comum que experimentei possuam as mesmas trs caractersticas, e no entanto 
Dom Juan mal comeara sua orientao. Supondo, pois, que essas caractersticas fossem inerentes aos elementos constituintes de realidade no comum em geral, a tarefa 
de Dom Juan consistia em utiliz-las como base para dirigir o resultado de cada estado de realidade no comum produzido pela Datura inoxia, Psilocybe mexicana e 
Lophophora williamsii.
        O relato detalhado que Dom Juan me obrigava a prestar depois de cada estado de realidade no comum era uma recapitulao da experincia. Encerrava uma meticulosa 
narrativa verbal do que eu tinha percebido durante cada estado. Uma recapitulao tinha duas facetas: (1)  recordao dos fatos e (2) a descrio de elementos constituintes 
percebidos. A recordao dos fatos dizia respeito aos incidentes que eu parecia ter percebido durante a experincia que estava narrando: isto , os fatos que pareciam 
ter acontecido e os atos que pareciam ter sido praticados. A descrio dos elementos constituintes percebidos era meu relato da forma especfica e dos detalhes especficos 
dos elementos constituintes que eu parecia ter percebido.
        De cada recapitulao da experincia, Dom Juan escolhia certas unidades por meio dos processos de: (1) dar importncia a certos setores apropriados de minha 
narrativa e (2) negar qualquer importncia a outros setores de minha narrativa. O intervalo entre os estados de realidade no comum era o perodo em que Dom Juan 
dissertava sobre a recapitulao da experincia.
        Denominei o primeiro processo de "nfase" porque acarretava uma especulao portentosa sobre a distino entre o que Dom Juan concebera como os objetivos 
que eu deveria atingir no estado de realidade no comum e o que eu mesmo tinha percebido. nfase significava, portanto, que Dom Juan isolava certo setor de minha 
narrativa, centralizando ali o grosso de suas especulaes. nfase podia ser positiva ou negativa. A nfase positiva insinuava que Dom Juan estava satisfeito com 
um determinado item que eu percebera porque se conformava com os objetivos que ele esperava que eu conseguisse no estado de realidade no comum. A nfase negativa 
significava que Dom Juan no estava satisfeito com o que eu percebera porque podia no se coadunar com as expectativas dele ou porque o julgasse insuficiente. No 
obstante, ainda colocava o grosso de suas especulaes naquele setor de minha recapitulao, a fim de frisar o valor negativo de minha percepo.
        O segundo processo seletivo que Dom Juan empregava era negar toda importncia a alguns setores de minha narrativa. Denominei isso de "falta de nfase" porque 
era o oposto de nfase. Parecia que, negando importncia s partes de meu relato referentes aos elementos constituintes que ele considerava inteiramente suprfluos 
ao objetivo de seus ensinamentos, Dom Juan literalmente obliterava minha percepo dos mesmos elementos nos sucessivos estados de realidade no comum.

Orientando o Consenso Especial

        O segundo aspecto da tarefa de Dom Juan como mestre era orientar o consenso especial, dirigindo o resultado de cada estado de realidade no comum e cada 
estado especial de realidade comum. Dom Juan dirigia esse resultado por meio de uma manipulao ordenada dos nveis extrnsecos e intrnsecos da realidade no comum 
e do nvel intrnseco dos estados especiais de realidade comum.
        O nvel extrnseco da realidade no comum pertencia a sua disposio operativa. Envolvia a mecnica, os passos que conduziam  realidade no comum propriamente 
dita. O nvel extrnseco tinha trs aspectos discernveis: (1) o perodo preparatrio, (2) os estgios transitrios e (3) a superviso do mestre.
        O perodo preparatrio era o tempo decorrido entre um e outro estado de realidade no comum. Dom Juan costumava dar-me instrues diretas e desenvolver o 
rumo geral de seus ensinamentos. O perodo preparatrio era de importncia vital em estabelecer os estados de realidade no comum e, como girava sobre eles, tinha 
duas facetas distintas: (1) o perodo anterior  realidade no comum e (2) o perodo seguinte  realidade no comum.
        O perodo anterior  realidade no comum era um intervalo de tempo relativamente curto, 24 horas no mximo. Nos estados de realidade no comum produzidos 
pela Datura inoxia e Psilocybe mexicana, o perodo era caracterizado pelas instrues dramticas e aceleradas, diretas, sobre o objetivo especfico do regulamento 
e as tcnicas de manipulao que eu devia corroborar no prximo estado de realidade no comum. Com a Lophophora williamsii o perodo era essencialmente de comportamento 
ritual, pois que Mescalito no tinha regulamento.
        O perodo que se seguia  realidade no comum, por outro lado, era bastante longo; geralmente durava meses e permitia que Dom Juan discutisse e esclarecesse 
os acontecimentos ocorridos durante o estado anterior de realidade no comum.
        Esse perodo era especialmente importante depois do uso da Lophophora williamsii. Como Mescalito no tinha regulamento, o objetivo procurado na realidade 
no comum era a verificao das caractersticas de Mescalito; Dom Juan esboava essas caractersticas durante os longos intervalos que se seguiam a cada estado de 
realidade no comum.
        O segundo aspecto do nvel extrnseco eram os estados de transio, que significam a passagem de um estado de realidade comum para um estado de realidade 
no comum, e vice-versa. Os dois estados de realidade se sobrepunham nesses estgios de transio, e o critrio que eu usava para diferenar esses estgios de qualquer 
dos estados de realidade era o fato de serem os seus constituintes nebulosos. Nunca conseguia perceb-los ou lembrar-me deles com exatido.
        Nos termos do tempo percebido, os estgios de transio eram ou abruptos ou lentos. No caso da Datura inoxia, os estados de realidade comum e no comum quase 
se sobrepunham, e a transio de um para o outro se fazia abruptamente. As mais marcantes eram as passagens para a realidade no comum. A. Psilocybe mexicana, por 
sua vez, provocava estgios de transio que eu percebia serem lentos. A passagem da realidade comum para a no comum era especialmente prolongada e perceptvel. 
Sempre tinha mais noo dela, talvez por causa de minha apreenso a respeito dos acontecimentos futuros.
        Os estgios de transio provocados pela Lophophora williamsii pareciam combinar caractersticas dos outros dois. Para comear, tanto as passagens para a 
realidade no comum e a sada dela eram muito bvias. A entrada na realidade no comum era lenta e eu a experimentava quase sem alterao de minhas faculdades; mas 
a volta  realidade comum era um estgio de transio abrupto, que eu percebia com clareza, mas com menos facilidade de avaliar cada detalhe.
        O terceiro aspecto do nvel extrnseco era a superviso do mestre, ou o auxlio real que eu, como aprendiz, recebia enquanto experimentava um estado de realidade 
no comum. Estabeleci a superviso como uma categoria  parte porque implicava que o mestre teria de ingressar na realidade no comum com o aprendiz, em certo ponto 
dos ensinamentos.
        Durante os estados de realidade no comum provocados pela Datura inoxia recebi um mnimo de superviso. Dom Juan dava muita importncia a cumprir os passos 
do perodo preparatrio, mas depois que eu tivesse satisfeito esse requisito, deixava-me prosseguir sozinho.
        Na realidade no comum provocada pela Psilocybe mexicana, o grau de superviso era o oposto completo, pois a, segundo Dom Juan, o aprendiz precisava de 
muita orientao e auxilio. A corroborao do regulamento obrigava a adoo de uma outra forma, o que parecia sugerir que eu teria de passar por uma srie de ajustamentos 
muito especializados na percepo do ambiente. Dom Juan produzia esses ajustamentos necessrios por meio de ordens verbais e sugestes durante os estgios de transio 
para a realidade no comum. Outro aspecto de sua superviso era dirigir-me durante a primeira parte dos estgios de realidade no comum, ordenando que focalizasse 
minha ateno em certos elementos constituintes do estado de realidade comum anterior. Os itens que ele focalizava aparentemente eram escolhidos ao acaso, pois o 
importante era o ato de aperfeioar a forma adotada. O aspecto final da superviso era devolver-me  realidade comum. Era implcito que essa operao tambm exigia 
um mximo de superviso da parte de Dom Juan, embora no me lembre do processo exato.
        A superviso necessria para os estados provocados pela Lophophora williamsii era um misto das duas outras. Dom Juan permanecia a meu lado pelo tempo que 
podia, e no entanto no tentava de modo algum dirigir-me para dentro ou para fora da realidade no comum.
        O segundo nvel de ordem diferenciativa na realidade no comum eram os padres aparentemente internos ou a organizao aparentemente interna de seus elementos 
constituintes. Denominei isso de "nvel intrnseco", e supus aqui que os elementos componentes eram sujeitos a trs processos gerais, que pareciam ser o produto 
da orientao de Dom Juan: (1) um progresso para o especfico; (2) um progresso para um mbito mais extenso de apreciao; e (3) um progresso para uma utilizao 
mais pragmtica da realidade no comum.
        O progresso para o especfico era o avano aparente dos elementos constituintes de cada estado sucessivo de realidade no comum no sentido de tornar-se mais 
preciso, mais especfico. Acarretava dois aspectos distintos: (1) um progresso para formas individuais especficas; e (2) um progresso para resultados totais especficos.
        O progresso para formas individuais especficas implicava que os elementos constituintes eram amorfamente conhecidos nos primeiros estados de realidade no 
comum e se tornavam especficos e desconhecidos nos ltimos estados. O progresso parecia abranger dois nveis de modificao nos elementos constituintes da realidade 
no comum: (1) uma complexidade progressiva de detalhes percebidos; e (2) um progresso das formas conhecidas para as desconhecidas.
        Uma crescente complexidade de detalhes significava que em cada estado sucessivo de realidade no comum, os mnimos detalhes que eu percebia como integrando 
os elementos constituintes tornavam-se mais complexos. Eu avaliava a complexidade em termos de estar ciente de que a estrutura dos elementos constituintes tornava-se 
mais complicada, e no entanto os detalhes no se tornavam excessivamente ou desconcertantemente emaranhados. A maior complexidade referia-se antes ao aumento harmonioso 
dos detalhes percebidos, que variavam desde as minhas impresses de formas vagas, nos primeiros estados, at minha percepo de conjuntos macios e complexos de 
detalhes mnimos nos ltimos estados.
        O progresso de formas conhecidas para desconhecidas implicava que a princpio, as formas dos elementos constituintes ou eram formas conhecidas encontradas 
na realidade comum, ou pelo menos evocavam a familiaridade da vida de todo dia. Mas nos estados sucessivos de realidade no comum, as formas especficas, os detalhes 
de constituir a forma e os padres em que eram combinados os elementos constituintes tornavam-se progressivamente desconhecidos, at que eu no conseguisse mais 
compar-los com, e, em alguns casos, nem mesmo evocar, qualquer coisa que eu jamais tivesse percebido na realidade comum.
        O progresso dos elementos constituintes para os resultados totais especficos era a aproximao gradativamente mais ntima do resultado total que eu conseguia 
com cada estado de realidade no comum ao resultado total que Dom Juan procurava, em matria de corroborar o regulamento; isto , a realidade no comum era provocada 
para corroborar o regulamento, e a corroborao tornava-se mais especfica com cada tentativa sucessiva.
        O segundo processo geral do nvel intrnseco da realidade no comum era o progresso para um mbito mais extenso de apreciao. Em outras palavras, era a 
melhoria que eu percebia em cada estado sucessivo de realidade no comum para a expanso da rea sobre a qual eu podia ter exercido minha faculdade de focalizar 
a ateno. O ponto em pauta aqui era ou que existia uma rea definida que se expandia, ou que minha capacidade de perceber parecia aumentar em cada estado sucessivo. 
Os ensinamentos de Dom Juan fomentavam e reforavam a idia de que havia uma rea que se expandia, e denominei essa chamada rea de "campo de apreciao". Sua expanso 
progressiva consistia de uma apreciao aparentemente sensorial que eu fazia dos elementos constituintes da realidade no comum que pertencesse a certo mbito. Avaliava 
e analisava esses elementos constituintes, ao que parecia, com meus sentidos, e para todos os efeitos percebia o mbito em que eles ocorriam como sendo mais extenso 
e abrangendo mais coisas em cada estado sucessivo.
        O mbito de apreciao era de dois tipos: (1) o mbito dependente e (2) o mbito independente. O mbito dependente era uma rea em que os elementos constituintes 
eram os itens do ambiente fsico que tinha estado dentro de minha conscincia no estado de realidade comum anterior. O mbito independente, ao contrrio, era a rea 
em que os elementos constituintes da realidade no comum pareciam passar a existir por si, livres da influncia do ambiente fsico da realidade comum anterior.
        A referncia clara de Dom Juan, em matria de mbito e apreciao, era que cada um dos dois aliados e Mescalito possuam a propriedade de provocar as duas 
formas de percepo. No entanto, parecia-me que a Datura inoxia tinha maior capacidade de provocar um mbito independente, embora na faceta do vo corporal, que 
no percebi por tempo suficiente para poder avali-lo, o mbito de apreciao fosse implicitamente dependente. A Psilocybe mexicana tinha a capacidade de produzir 
um mbito dependente; e a Lophophora williamsii tinha a capacidade de produzir ambos.
        Minha suposio era que Dom Juan utilizava essas propriedades diferentes a fim de preparar um consenso especial. Em outras palavras, nos estados produzidos 
pela Datura inoxia os elementos constituintes que no tinham consenso comum existiam independentemente da realidade comum anterior. Com a Psilocybe mexicana, a falta 
de consenso comum envolvia elementos constituintes que dependiam do ambiente da realidade comum anterior. E no caso da Lophophora williamsii, alguns dos elementos 
constituintes eram determinados pelo ambiente, enquanto outros eram independentes do ambiente. Assim, o uso das trs plantas juntas parecia ter sido destinado a 
criar uma vasta percepo da falta de consenso comum quanto aos elementos constituintes da realidade no comum.
        O ltimo processo do nvel intrnseco da realidade no comum era a progresso que eu percebia em cada estado sucessivo para um uso mais pragmtico da realidade 
no comum. Essa progresso parecia estar relacionada com a idia de que cada novo estado era um estgio de aprendizagem mais complexo, e que a complexidade crescente 
de cada novo estgio exigia um uso mais inclusivo e pragmtico da realidade no comum. A progresso era mais notada quando se usava a Lophophora williamsii; a existncia 
simultnea de um mbito de apreciao dependente e independente em cada estado tornava o uso pragmtico da realidade no comum mais extenso, pois abrangia ambos 
os mbitos de uma vez.
        Dirigindo-se o resultado dos estados especiais da realidade comum, parecia que se produzia uma ordem no nvel intrnseco, uma ordem caracterizada pela progresso 
dos elementos constituintes para o especfico; isto , os elementos constituintes eram mais numerosos e eram isolados mais facilmente em cada estado sucessivo de 
realidade comum. Durante seus ensinamentos, Dom Juan s provocou dois deles, mas ainda assim era possvel eu verificar que, no segundo, foi mais fcil a Dom Juan 
isolar um grande nmero de elementos constituintes, e que a facilidade de resultados especficos afetava a rapidez com que era produzido o segundo estado especial 
de realidade comum. (Para o processo de comprovar o consenso especial, ver Apndice A).



A ORDEM CONCEITUAL
O APRENDIZ

        O aprendiz era a ltima unidade da ordem operacional. O aprendiz era, em si, a unidade que focalizava os ensinamentos de Dom Juan, pois tinha de aceitar 
a totalidade do consenso especial dado aos elementos constituintes de todos os estados de realidade no comum e todos os estados especiais de realidade comum, antes 
que o consenso especial se tornasse um conceito significativo. Mas o consenso especial, devido a ocupar-se dos atos e elementos percebidos na realidade no comum, 
acarretava uma ordem especial de conceituao, uma ordem que colocava esses atos e elementos percebidos de acordo com a corroborao do regulamento. Portanto, a 
aceitao do consenso especial significava para mim, como aprendiz, a adoo de um certo ponto de vista comprovado pela totalidade dos ensinamentos de Dom Juan; 
isto , significava a minha entrada num nvel conceitual, um nvel compreendendo uma ordem de conceituao que tornaria os ensinamentos compreensveis em seus prprios 
termos. Chamei-a de "ordem conceituai" porque era a ordem que dava significado aos fenmenos fora do comum que constituam o conhecimento de Dom Juan; era a matriz 
do significado em que todos os conceitos desenvolvidos em seus ensinamentos estavam embutidos.
       Considerando, pois, que o objetivo do aprendiz consistia em adotar essa ordem conceitual, ele tinha duas alternativas: podia fracassar em seus esforos, ou 
podia ter xito.
       A primeira alternativa, o fracasso na adoo da ordem conceitual, tambm significava que o aprendiz no conseguira alcanar o objetivo operacional dos ensinamentos. 
A idia do fracasso era explicada no tema dos quatro inimigos simblicos do homem de conhecimento; estava implcito que o fracasso no era apenas o ato de no continuar 
na busca do objetivo, mas o ato de abandonar totalmente a busca, sob a presso criada por qualquer dos quatro inimigos simblicos. O mesmo tema tornava claro tambm 
que os dois primeiros inimigos o medo e a clareza - eram a causa da derrota do homem no nvel de aprendiz, que a derrota naquele nvel significava o fracasso no 
aprendizado de dominar um aliado e que, como conseqncia desse fracasso, o aprendiz adotara a ordem conceitua) de maneira superficial e capciosa. Isto , sua adoo 
da ordem conceitual era capciosa no sentido de ser uma afiliao fraudulenta ao significado proposto pelos ensinamentos, ou um compromisso fraudulento com o mesmo. 
A idia era que, ao ser derrotado, o aprendiz, alm de ser incapaz de dominar o aliado, ficaria apenas com o conhecimento de certas tcnicas de manipulao, mais 
a recordao dos elementos constituintes da realidade no comum percebidos, mas ele no identificaria o fundamento lgico que poderia dar-lhes sentido em si. Nessas 
circunstncias, qualquer homem poderia ser forado a desenvolver suas prprias explicaes para setores escolhidos arbitrariamente dos fenmenos que ele experimentara, 
e esse processo acarretaria a adoo falha do ponto de vista proposto pelos ensinamentos de Dom Juan. Uma adoo capciosa da ordem conceitual, porm; aparentemente 
no se restringia somente aos aprendizes. No tema dos inimigos de um homem de conhecimento, tambm era implcito que o homem, depois de conseguir o objetivo de aprender 
a comandar um aliado, ainda poderia sucumbir aos assaltos de seus dois outros inimigos - o poder e a velhice. No esquema de categorias de Dom Juan, uma derrota dessas 
implicava que o homem tinha cado numa adoo superficial ou capciosa da ordem conceitual, como o tinha o aprendiz derrotado.
        A adoo bem sucedida da ordem conceitual, por outro lado, significava que o aprendiz tinha alcanado o objetivo operacional - uma adoo de boa-f, sob 
o ponto de vista proposto nos ensinamentos. Isto , sua adoo da ordem conceitual era de boa-f por ser uma afiliao completa e um compromisso completo com o significado 
expresso naquela ordem de conceituao.
        Dom Juan nunca esclareceu o ponto exato em que, nem a maneira exata pela qual, um aprendiz deixava de ser aprendiz, embora estivesse clara a insinuao de 
que, uma vez alcanado o objetivo operacional do sistema - isto , desde que ele soubesse dominar um aliado - ele no mais necessitaria do mestre para orientao. 
A idia de que viria um momento em que as diretivas do mestre seriam suprfluas implicava que o aprendiz conseguiria adotar a ordem conceitual e, ao faz-lo, adquiriria 
a capacidade de tirar concluses significativas sem o auxlio do mestre.
        No que dizia respeito aos ensinamentos de Dom Juan, e at o momento em que parei meu aprendizado, a aceitao do consenso especial parecia acarretar a adoo 
de duas unidades da ordem conceitual: (1) a idia de uma realidade de consenso especial; (2) a idia de que a realidade do consenso comum, de todo dia, e a realidade 
do consenso especial tinham um valor igualmente pragmtico.

Realidade do Consenso Especial

        O mago dos ensinamentos de Dom Juan, como ele mesmo dizia, referia-se  utilizao das trs plantas alucingenas com as quais ele provocava os estados de 
realidade no comum. A utilizao dessas trs plantas parece ter sido assunto de propsito deliberado de sua parte. Parece t-las empregado porque cada uma possua 
diferentes propriedades alucingenas, que interpretava como as diferentes naturezas inerentes dos poderes contidos nelas. Dirigindo os nveis extrnsecos e intrnsecos 
da realidade no comum, Dom Juan explorava as diferentes propriedades alucingenas at que elas criaram em mim, como aprendiz, a percepo de que a realidade no 
comum era uma rea perfeitamente definida, um reino separado da vida normal, de todo dia, cujas propriedades inerentes eram reveladas  medida que eu progredia.
        No obstante, tambm era possvel que as supostas propriedades diferentes pudessem ser apenas o produto do prprio processo de Dom Juan de dirigir a ordem 
intrnseca da realidade no comum, embora em seus ensinamentos ele explorasse a idia de que o poder contido em cada planta provocava estados de realidade no comum 
que eram diferentes uns dos outros. Se isso fosse verdade, suas diferenas nos termos das unidades desta anlise parecem ter sido no mbito de apreciao que a pessoa 
poderia perceber nos estados provocados por cada um dos trs. Devido s peculiaridades de seu mbito de apreciao, todas trs contribuam para produzir a percepo 
de uma rea ou campo perfeitamente definidos, consistindo de dois compartimentos: o mbito independente, chamado o campo dos lagartos, ou as lies de Mescalito; 
e o mbito dependente, referindo-se  rea em que a pessoa podia mover-se por seus prprios meios.
        Uso a expresso "realidade no comum", como j foi observado, no sentido de uma realidade extraordinria, fora do comum. Para um aprendiz principiante essa 
realidade era, de toda forma, fora do comum, mas o aprendizado do conhecimento de Dom Juan exigia minha participao compulsria e meu compromisso com a prtica 
pragmtica e experimental de tudo o que eu tinha aprendido. Isso significava que eu, como o aprendiz, tinha de experimentar uma srie de estados de realidade no 
comum e que o conhecimento de primeira mo, mais cedo ou mais tarde, tornaria as classificaes "comum" e "no comum" sem significado para mim. A adoo em boa-f 
da primeira unidade da ordem conceitual teria, pois, acarretado a idia de que havia outro reino de realidade, separado mas no mais fora do comum, a "realidade 
do consenso especial".
        Aceitando como premissa principal que a realidade do consenso especial era um campo separado, teria explicado a idia de que os encontros com os aliados 
ou com Mescalito tinham lugar num campo que no era ilusrio.

A Realidade do Consenso Especial Tinha Valor Pragmtico

        O mesmo processo de dirigir os nveis extrnsecos e intrnsecos de realidade no comum, que pareciam ter criado o reconhecimento da realidade do consenso 
especial como campo separado, tambm parecia ser responsvel por minha percepo de que a realidade do consenso especial era prtica e utilizvel. A aceitao, do 
consenso especial em todos os estados de realidade no comum e em todos os estados especiais de realidade comum destinava-se a consolidar a conscincia de que ele 
era igual  realidade do consenso comum, de todo dia. Essa igualdade baseava-se na impresso de que a realidade do consenso especial no era um campo que pudesse 
ser equacionado com os sonhos. Ao contrrio, tinha elementos constituintes estveis que estavam sujeitos a uma concordncia especial. Era, na verdade, um campo onde 
a pessoa podia perceber o ambiente de maneira propositada. Seus elementos constituintes no eram excntricos nem caprichosos, mas, sim, itens precisos ou fatos cuja 
existncia era comprovada por todo o conjunto dos ensinamentos.
        A implicao da igualdade era clara no tratamento que Dom Juan dava  realidade do consenso especial, um tratamento que era utilitrio e natural; em momento 
algum ele se referiu a ela, nem eu tinha de me comportar com ela de qualquer maneira a no ser de forma utilitria e natural. O fato de as duas reas serem consideradas 
iguais, porm, no significava que a qualquer momento a pessoa poderia comportar-se do mesmo modo em qualquer das reas. Pelo contrrio, o comportamento do feiticeiro 
tinha de ser diferente, pois cada rea de realidade tinha qualidades que a tornavam utilizvel a seu prprio modo. O fator de definio em termos de significado 
parecia ser a idia de que essa igualdade podia ser medida em termos de utilidade prtica. Assim, um feiticeiro tinha de acreditar que era possvel passar de uma 
rea para a outra, que ambas eram inerentemente utilizveis, e que a nica dessemelhana entre as duas era sua diferente capacidade de serem usadas, isto , os diferentes 
propsitos a que serviam.
        No entanto, seu isolamento parecia ser apenas um arranjo adequado que era pertinente a meu nvel especial de aprendizado, que Dom Juan usava para me tornar 
ciente de que podia existir outro campo de realidade. Mas pelos seus atos, mais cio que por suas declaraes, eu era levado a crer que, para um feiticeiro, s havia 
uma nica continuidade de realidade que tinha duas partes, ou talvez mais do que duas, das quais ele tirava dedues de valor pragmtico. A adoo de boa-f da idia 
de que a realidade do consenso especial tinha valor pragmtico teria dado uma perspectiva significativa ao movimento.
        Se eu tivesse aceito a idia de que a realidade do consenso especial era utilizvel porque possua propriedades inerentemente utilizveis que eram to pragmticas 
quanto as da realidade do consenso de todo dia, ento teria sido lgico para mim compreender por que Dom Juan explorava a noo de movimento na realidade do consenso 
especial. Depois de aceitar a existncia pragmtica de outra realidade, a nica coisa que o feiticeiro tinha a fazer seria aprender a mecnica do movimento. Naturalmente, 
o movimento naquele caso tinha de ser especializado, porque dizia respeito s propriedades inerentes, pragmticas, do consenso especial.

RESUMO

        Os pontos de minha anlise foram os seguintes:

        1. O fragmento dos ensinamentos de Dom Juan que apresentei aqui consistiu em dois aspectos: a ordem operacional ou seqncia significativa em que todos os 
conceitos individuais de seus ensinamentos eram ligados uns aos outros, e a ordem conceituai ou matriz de significado em que todos os conceitos individuais de seu 
ensino estavam embutidos.

        2. A ordem operacional seguida tinha quatro unidades principais com suas respectivas idias componentes: (1) o conceito "homem de conhecimento"; (2) a idia 
de que um homem de conhecimento tinha o auxlio de um poder especializado chamado um aliado; (3) a idia de que um aliado era governado por um conjunto de regras 
denominado regulamento; e (4) a idia de que a corroborao do regulamento estava sujeita a um consenso especial.

        3. Essas quatro unidades relacionavam-se da seguinte maneira: o objetivo da ordem operacional era ensinar  pessoa como se tornar um homem de conhecimento; 
um homem de conhecimento era diferente dos homens comuns porque tinha um aliado; um aliado era um poder especializado, que tinha um regulamento; a pessoa podia adquirir 
ou domesticar um aliado pelo processo de verificar seu regulamento no campo da realidade no comum e obtendo um consenso especial nessa corroborao.
        4. No contexto dos ensinamentos de Dom Juan, tornar-se um homem de conhecimento no era uma realizao permanente, e sim um processo. Isto , o fator que 
determinava um homem de conhecimento no era apenas a posse de um aliado, mas a luta da vida toda do homem para se manter dentro dos limites de um sistema de crenas. 
Os ensinamentos de Dom Juan, contudo, visavam resultados prticos, e seu objetivo prtico, com relao a ensinar a tornar-se um homem de conhecimento, era ensinar 
a adquirir um aliado aprendendo seu regulamento. Assim, o objetivo da ordem operacional era fornecer  pessoa um consenso especial sobre os elementos constituintes 
percebidos na realidade no comum, que eram considerados a corroborao do regulamento do aliado.
        5. A fim de fornecer um consenso especial sobre a corroborao do regulamento do aliado, Dom Juan tinha de fornecer um consenso especial para os elementos 
constituintes de todos os estados de realidade no comum e os estados especiais de realidade comum provocados no decorrer de seus ensinamentos. O consenso especial, 
portanto, tratava dos fenmenos fora do comum, fato que me permitia supor que qualquer aprendiz, aceitando o consenso especial, era levado a adotar a ordem conceitual 
do conhecimento sendo ensinado.
        6. Do ponto de vista de meu estgio pessoal de aprendizagem, podia deduzir que at o momento em que me retirei do aprendizado, os ensinamentos de Dom Juan 
haviam fomentado a adoo de duas unidades da ordem conceitual: (1) a idia de que havia um campo separado de realidade, outro mundo, que chamei de "realidade do 
consenso especial"; (2) a idia de que a realidade do consenso especial, ou esse outro mundo, era to utilizvel quanto o mundo da vida de todo dia.
        Quase seis anos depois que comecei o aprendizado, os conhecimentos de Dom Juan tornaram-se um todo coerente, pela primeira vez. Compreendi que ele tinha 
visado fornecer um consenso de boa-f para as minhas descobertas pessoais, e embora no continuasse porque no estava, nem nunca estarei, preparado para suportar 
os rigores de um tal treinamento, meu prprio jeito de satisfazer os padres dele de esforo pessoal foi minha tentativa de compreender seus ensinamentos. Senti 
que era imperioso provar, nem que fosse s para mim, que eles no eram uma excentricidade.
        Depois de ter organizado meu esquema estrutural, e de ser capaz de desprezar muitos dados suprfluos a meu esforo inicial de descobrir a fora lgica dos 
ensinamentos dele, tornou-se claro para mim que eles tinham uma coeso interna, uma seqncia lgica que me permitia visualizar todo o fenmeno numa luz que eliminava 
o sentido de extravagncia que era a marca de tudo o que experimentara. Era bvio para mim que meu aprendizado era apenas o comeo de um caminho muito longo. E as 
experincias fatigantes que tivera to avassaladoras para mim, no passavam de um fragmento muito pequeno de um sistema de pensamento lgico do qual Dom Juan tirava 
concluses significativas para a sua vida de todo dia, um sistema de crenas vastamente complexo, em que as indagaes eram uma experincia que conduzia  exultao.

Apndices

Apndice A

O PROCESSO DE COMPROVAR
O CONSENSO ESPECIAL

        Comprovar o consenso especial exigia, a cada momento, a cumulao dos ensinamentos de Dom Juan. Para o fim de explicar o processo cumulativo, organizei a 
comprovao do consenso especial de acordo com a seqncia em que ocorreram os estados de realidade no comum e de realidade comum especial. Dom Juan no parecia 
ter fixado o processo de dirigir a ordem intrnseca da realidade no comum e da realidade comum especial de maneira exata; parece ter isolado as unidades para a 
direo de maneira um tanto fluida.
        Dom Juan comeou a preparar o ambiente para o consenso especial produzindo o primeiro estado especial de realidade comum pelo processo de manipular sugestes 
a respeito do ambiente. Por esse mtodo, isolou certos elementos constituintes do campo da realidade comum e, isolando-os, dirigiu-me para perceber unia progresso 
para o especfico, neste caso a percepo de cores que pareciam emanar de dois pequenos pontos no cho. Ao serem isolados, esses pontos de colorao ficavam privados 
do consenso comum; parecia que s eu era capaz de v-los, e assim criam um estado especial de realidade comum.
        Isolar aqueles dois pontos no cho, privando-os do consenso comum, servia para estabelecer o primeiro elo entre a realidade comum e a no comum. Dom Juan 
me orientou para perceber uma poro da realidade comum de maneira desacostumada; isto , transformou certos elementos comuns em itens que precisavam de um consenso 
especial.
        A seqncia do primeiro estado especial de realidade comum foi minha recapitulao da experincia; da Dom Juan selecionou a percepo de diferentes reas 
de colorao como as unidades para a nfase positiva. Para nfase negativa, isolou o relato de meu medo e fadiga e a possibilidade de minha falta de persistncia.
        Durante o perodo preparatrio subseqente, colocou o grosso das especulaes nas unidades que tinha isolado, e transmitiu a idia de que era possvel distinguir 
no ambiente mais do que o comum. Das unidades suscitadas pela minha recapitulao, Dom Juan tambm introduziu alguns dos conceitos componentes do homem de conhecimento.
        Como segundo passo no preparo do consenso especial para a corroborao do regulamento, Dom Juan provocou um estado de realidade no comum com a Lophophora 
williams. O contedo total daquele primeiro estado de realidade no comum era meio vago e dissociado, e no entanto os elementos constituintes eram muito bem definidos; 
percebi suas caractersticas de estabilidade, singularidade e falta de consenso comum quase to claramente quanto nos estados posteriores. Essas caractersticas 
no eram to bvias, talvez por minha falta de prtica; era a primeira vez que experimentava a realidade no comum.
        Era impossvel verificar o efeito da orientao prvia de Dom Juan sobre o rumo real da experincia; no entanto, sua mestria em dirigir o resultado de subseqentes 
estados de realidade no comum ficou bem clara, desse ponto em diante.
        De minha recapitulao da experincia, escolheu as unidades para orientar a progresso para formas individuais especficas e resultadas totais. Tomou conhecimento 
de meus atos com um co e ligou isso  idia de que Mescalito era uma entidade visvel. Era capaz de adotar qualquer forma; sobretudo, era uma entidade fora da pessoa.
        O relato de meus atos tambm serviu para Dom Juan estabelecer a progresso para um mbito de apreciao mais vasto; nesse caso o progresso foi para um campo 
dependente. Dom Juan deu nfase positiva  noo de que eu me tinha movido e agido na realidade no comum quase como o teria feito na vida de todo dia.
        O progresso para uma utilizao mais pragmtica da realidade no comum era feito dando nfase negativa ao relato de minha incapacidade de prestar uma ateno 
lgica aos elementos constituintes percebidos. Dom Juan sugeriu que seria possvel para mim examinar os elementos com independncia e preciso; essa idia suscitava 
duas caractersticas da realidade no comum, que era pragmtica e que tinha elementos constituintes que podiam ser avaliados sensorialmente.
        A falta de consenso comum para os elementos constituintes era demonstrada dramaticamente por uma interao de nfase positiva e negativa colocadas nos pontos 
de vista de observadores que examinavam meu comportamento durante o decurso daquele primeiro estado de realidade no comum.
        O perodo preparatrio que se seguiu ao primeiro estado de realidade no comum durou mais de um ano. Dom Juan usou esse tempo para apresentar mais conceitos 
componentes do homem de conhecimento, e para revelar algumas partes dos regulamentos dos dois aliados. Ainda provocou um estado superficial de realidade no comum 
a fim de verificar minha afinidade com o aliado contido na Datura inoxia. Dom Juan utilizava todas as sensaes vagas que tive no curso daquele estado superficial 
para esboar as caractersticas gerais do aliado, contrastando-o com o que ele tinha isolado como as caractersticas perceptveis de Mescalito.
        O terceiro passo para preparar o consenso especial na corroborao do regulamento foi provocar outro estado de realidade no comum com a Lophophora williamsii. 
A orientao prvia de Dom Juan pareceu guiar-me para perceber esse segundo estado de realidade no comum da seguinte maneira:
        O progresso para o especfico criava a possibilidade de se visualizar um ente cuja forma tinha mudado extraordinariamente, da forma conhecida de um co no 
primeiro estado para a forma completamente desconhecida de um composto antropomrfico que existia, aparentemente, fora de mim.
        O progresso para um mbito de apreciao mais vasto era evidente em minha percepo de uma viagem. Durante essa viagem o campo de apreciao era tanto dependente 
como independente, embora uma maioria dos elementos constituintes dependesse do ambiente do estado de realidade comum anterior.
       O progresso para um uso mais pragmtico da realidade comum talvez fosse a caracterstica mais marcante em meu segundo estado. Tornou-se evidente para mim, 
de maneira complexa e detalhada, que a pessoa podia mover-se na realidade no comum.
       Examinei ainda os elementos constituintes com independncia e exatido. Percebi sua estabilidade, singularidade e de consenso muito claramente.
        De minha recapitulao da experincia, Dom Juan frisou seguinte: objetivando o progresso para o especfico, ele dava nfase positiva a meu relato de ter 
eu visto Mescalito como um composto antropomrfico. O grosso da especulao nesse setor centralizava-se sobre a idia de que Mescalito era capaz de ser um mestre 
e tambm um protetor.
        A fim de dirigir o progresso para um mbito mais vasto de apreciao, Dom Juan dava nfase positiva ao relato de minha viagem, que obviamente tivera lugar 
no mbito dependente; tambm dava nfase positiva  minha verso das cenas visionrias que eu presenciei pela mo de Mescalito, cenas que pareciam ser independentes 
dos elementos constituintes da realidade comum anterior.
        O relato de minha viagem e as cenas vistas pela mo de Mescalito tambm permitiram a Dom Juan dirigir o progresso para uma utilizao mais pragmtica da 
realidade no comum. Primeiro, aventou a idia de que era possvel ter-se uma direo; depois, interpretou as cenas como lies sobre a maneira correta de viver.
        Alguns setores de minha recapitulao que tratavam da percepo de componentes suprfluos no recebiam nfase alguma, por no serem teis para estabelecer 
a direo da ordem intrnseca.
        O estado seguinte de realidade no comum, o terceiro, foi provocado para a corroborao do regulamento com o aliado contido na Datura inoxia. O perodo preparatrio 
era importante e observado pela primeira vez. Dom Juan apresentou as tcnicas de manipulao e revelou que o objetivo especfico que eu tinha de corroborar era a 
adivinhao.
        Sua direo prvia dos trs aspectos da ordem intrnseca parecia ter tido os seguintes resultados: a progresso para o especfico era manifestada em minha 
capacidade de perceber um aliado como uma qualidade; isto , verifiquei a afirmao de que um aliado no era visvel de todo. O progresso para o especfico tambm 
produzia a percepo especial de uma srie de imagens muito semelhantes quelas que eu tinha visto pela mo de Mescalito. Dom Juan interpretava essas cenas como 
adivinhao, ou a corroborao do objetivo especfico do regulamento.
        A percepo daquela srie de cenas acarretava tambm uma progresso para um mbito mais extenso de apreciao. Dessa vez o mbito era independente do ambiente 
da realidade comum precedente. As cenas no pareciam ser imagens superpostas nos elementos componentes, como as imagens que eu vira pela mo de Mescalito; na verdade, 
no havia outros componentes alm dos que faziam parte das cenas. Em outras palavras, o mbito total de apreciao era independente.
        A percepo de um mbito completamente independente tambm demonstrava progresso para uma utilizao mais pragmtica da realidade no comum. A adivinhao 
indicava que a pessoa poderia dar um valor utilitrio ao que fosse visto.
        Com o objetivo de dirigir a progresso para o especfico, Dom Juan dava nfase positiva  idia de ser possvel a pessoa mover-se por seus prprios meios 
no mbito independente da apreciao. Explicou o movimento l como sendo indireto, e como sendo realizado, nesse caso particular, pelos lagartos como instrumentos. 
A fim de estabelecer a direo do segundo aspecto do nvel intrnseco, a progresso para um mbito mais extenso de apreciao, centralizou o grosso da especulao 
sobre a idia de que as cenas que eu tinha percebido, que eram as respostas  adivinhao, poderiam ter sido examinadas e prolongadas pelo tempo que eu quisesse. 
Para dirigir a progresso para uma utilizao mais pragmtica da realidade no comum, Dom Juan dava nfase positiva  idia de que o tpico a ser adivinhado tinha 
de ser simples e direto, para obter um resultado utilizvel.
        O quarto estado de realidade no comum foi provocado tambm para a corroborao do regulamento do aliado contido na Datura inoxia. O objetivo especfico 
do regulamento a ser corroborado tinha relao com o vo corporal como outro aspecto do movimento.
        Um resultado da direo da progresso para o especfico pode ter sido a percepo da ascenso corporal pelo ar. Essa sensao era aguda, embora lhe faltasse 
a profundidade de todas as percepes anteriores de atos que eu teria supostamente executado na realidade no comum. O vo corporal parecia ter-se realizado num 
campo de apreciao dependente, e parecia ter acarretado o movimento por meus prprios meios, o que pode ter sido o resultado de uma progresso para um mbito de 
apreciao mais vasto.
       Dois outros aspectos da sensao de flutuar pelo ar podem sido produtos diretos da progresso para uma utilizao mais pragmtica da realidade no comum. 
Eram eles, primeiro, a percepo da distncia, uma percepo criada pela sensao de um vo real, e, segundo, a possibilidade de adquirir direo no curso do pretenso 
movimento.
        Durante o perodo preparatrio seguinte, Dom Juan dissertou sobre a natureza supostamente nociva do aliado contido na Datura inoxia. E isolou os seguintes 
setores de meu relato: tetra dirigir a progresso para o especfico, deu nfase positiva s minha recordao de ter flutuado pelo ar. Embora eu no percebesse os 
elementos constituintes daquele estado de realidade no comum com a clareza que a essa altura j era habitual, minha sensao do movimento era muito definida, e 
Dom Juan usou-a para reforar o resultado especfico do movimento. A progresso para uma utilizao mais pragmtica da realidade no comum foi estabelecida centralizando-se 
o grosso da especulao sobre a idia de que os feiticeiros podiam voar por distncias enormes, especulao que dava margem  possibilidade de que a pessoa poderia 
mover-se no mbito de apreciao dependente e depois passar esse movimento para a realidade comum.
        O quinto estado de realidade no comum foi produzido pelo aliado contido na PsiIocybe mexicana. Era a primeira vez que se usava a planta, e o estado que 
se seguiu estava mais de acordo com a prova do que com uma tentativa de corroborar o regulamento. No perodo preparatrio, Dom Juan apresentou uma tcnica de manipulao; 
como no revelou o objetivo especfico a ser verificado, no acreditei que o estado fosse provocado para corroborar o regulamento. No entanto, a direo do nvel 
intrnseco de realidade no comum estabelecido antes parece haver terminado nos seguintes resultados.
       A direo da progresso para resultados especficos e totais provocaram em mim a percepo de que os dois aliados eram diferentes um do outro, e que cada 
qual era diferente de Mescalito. Percebi o aliado contido na Psilocybe mexicana como uma qualidade - sem forma e invisvel, e dando a sensao de incorporeidade. 
A progresso para um mbito de apreciao mais vasto provocou a sensao de que o ambiente total da realidade comum anterior, que permanecia dentro de minha conscincia, 
era utilizvel na realidade no comum; isto , a expanso do mbito dependente parecia ter abrangido tudo. A progresso para uma utilizao mais pragmtica da realidade 
no comum provocou a percepo especial de que eu podia atravessar os elementos constituintes dentro do mbito de apreciao dependente, a despeito do fato de eles 
parecerem ser elementos comuns da vida de todo dia.
        Dom Juan no exigiu a recapitulao costumeira da experincia; era como se a ausncia de um objetivo especfico tivesse tornado aquele estado de realidade 
no comum apenas um prolongado estgio de transio. Durante o subseqente perodo de preparao, contudo, especulou sobre certas observaes que fizera a respeito 
de meu comportamento durante a experincia.
        Deu nfase negativa ao impasse lgico que impediu que eu acreditasse que se pudesse atravessar as coisas ou pessoas. Com essa especulao, dirigiu a progresso 
para um resultado total especfico do movimento atravs dos elementos constituintes da realidade no comum percebidos dentro do mbito dependente da apreciao.
        Dom Juan utilizou essas mesmas observaes para dirigir o segundo aspecto do nvel intrnseco, um mbito de apreciao mais extenso. Se era possvel o movimento 
atravs das coisas e dos seres, ento o mbito dependente tinha de se expandir de acordo; tinha de abranger o ambiente total da realidade comum anterior, que estava 
dentro da conscincia da pessoa a qualquer dado momento, pois o movimento significava uma mudana constante de ambiente. Na mesma especulao, tambm estava implcito 
que a realidade no comum poderia ter sido usada de maneira mais pragmtica. O movimento atravs de objetos e seres implicava um ponto de vantagem definida, que 
era inatingvel para um feiticeiro na realidade comum.
        Dom Juan depois usou uma srie de trs estados de realidade no comum, provocados pela Lophophora williamsii, para preparar melhor o consenso especial para 
a corroborao do regulamento. Esses trs estados foram tratados aqui como uma unidade nica porque tiveram lugar durante quatro dias consecutivos, e, durante as 
poucas horas entre eles, no tive qualquer comunicao com Dom Juan. A ordem intrnseca dos trs estados tambm foi considerada uma nica unidade, com as seguintes 
caractersticas. A progresso para o especfico produziu a percepo de Mescalito como um ente antropomrfico visvel, capaz de ensinar. A capacidade de ensinar 
implicava que Mescalito era capaz de agir para as pessoas.
        A progresso para um mbito de apreciao mais vasto alcanou um ponto em que eu percebia os dois mbitos ao mesmo tempo, sendo incapaz de distinguir as 
diferenas entre eles a no ser em termos de movimento. No mbito dependente, era possvel para mim mover-me por meus prprios meios e vontade, mas no mbito independente 
conseguia mover-me s com o auxlio de Mescalito como instrumento. Por exemplo, as lies de Mescalito compreendiam uma srie de cenas a que eu s podia assistir. 
O progresso para uma utilizao mais pragmtica da realidade no comum estava implcito na idia de que Mescalito podia realmente dar lies sobre a maneira correta 
de viver.
        No perodo preparatrio que se seguiu ao ltimo estado de realidade no comum nessa srie, Dom Juan escolheu as seguintes unidades. Para a progresso no 
sentido do especfico, deu nfase positiva s idias de que Mescalito era um instrumento no movimento pelo mbito de apreciao independente, e que Mescalito era 
um ente didtico, capaz de dar lies permitindo que a pessoa entrasse num mundo visionrio. Especulou ainda sobre a insinuao de que Mescalito tinha pronunciado 
seu nome e supostamente me ensinara algumas canes; esses dois casos foram interpretados como exemplos da capacidade de Mescalito de ser protetor. E o fato de eu 
ter percebido Mescalito como uma luz foi enfatizado como a possibilidade de ele ter, afinal, adotado uma forma abstrata e permanente para mim.
        Frisar essas mesmas unidades tambm serviu a Dom Juan para dirigir a progresso para um mbito de apreciao mais vasto. Durante os trs estados de realidade 
no comum, percebi claramente que o mbito dependente e o independente eram dois aspectos distintos da realidade no comum, igualmente importantes. O mbito independente 
era o setor onde Mescalito dava suas lies, e como esses estados de realidade no comum supostamente s eram provocados para se buscar essas lies, o mbito independente 
era, logicamente, um setor de importncia especial. Mescalito era um protetor e mestre, o que significava que ele era visvel; no entanto, sua forma no tinha nada 
a ver com o estado de realidade comum anterior. Por outro lado, era suposto que a pessoa viajasse, se movesse, na realidade no comum, a fim de buscar as lies 
de Mescalito, idia que implicava na importncia do mbito dependente.
        A progresso para uma utilizao mais pragmtica da realidade no comum era estabelecida dedicando-se o grosso das especulaes s lies de Mescalito. Dom 
Juan interpretava essas lies como sendo indispensveis para a vida da pessoa; era uma deduo clara que a realidade no comum poderia ter sido usada de maneira 
mais pragmtica para deduzir pontos de referncia que tivessem valor na realidade comum. Era a primeira vez que Dom Juan verbalizava tal insinuao.
        O estado seguinte de realidade no comum, o nono nos ensinamentos, foi provocado a fim de corroborar o regulamento do aliado contido na Datura inoxia. O 
objetivo especfico a ser corroborado naquele estado estava ligado  adivinhao, e a direo anterior do nvel intrnseco terminava nos seguintes pontos. A progresso 
para um resultado total especfico criava a percepo de uma srie de cenas coerentes, que eram supostas serem a narrativa pela voz do lagarto dos acontecimentos 
a serem adivinhados, e a sensao de uma voz que realmente descrevia essas cenas. A progresso para um mbito de apreciao independente resultava na percepo de 
um mbito independente extenso e claro, isento da influncia estranha da realidade comum. A progresso para uma utilizao mais pragmtica da realidade no comum 
terminava nas possibilidades utilitrias de explorao do mbito independente. Essa tendncia especial era estabelecida pela especulao de Dom Juan sobre a possibilidade 
de estabelecer pontos de referncia no mbito independente e utiliz-los na realidade comum. Assim, as cenas de adivinhao tinham um valor pragmtico bvio, pois 
supostamente representavam uma viso de atos praticados por outros, atos aos quais a pessoa no teria acesso por meios comuns.
        No perodo preparatrio seguinte, Dom Juan enfatizou mais dois temas componentes de um homem de conhecimento. Parecia estar-se aprontando para passar  busca 
de apenas um dos dois aliados, o aliado humito. No entanto, dava nfase positiva  idia de que eu tinha uma grande afinidade com o aliado contido na Datura inoxia, 
pois ele me permitira presenciar uma incidncia de flexibilidade do regulamento, quando cometi um erro ao desempenhar uma tcnica de manipulao. Minha suposio 
de que Dom Juan estava pronto para abandonar o ensino do regulamento do aliado contido na Datura inoxia foi reforada pelo fato de ele no isolar quaisquer setores 
de minha recapitulao da experincia para explicar a direo do nvel intrnseco dos subseqentes estados de realidade no comum.
        Seguiram-se trs estados de realidade no comum, provocados para corroborar o regulamento do aliado contido na Psilocybe mexicana. Foram tratados como uma 
unidade nica. E embora se tivesse passado bastante tempo entre eles, naqueles intervalos Dom Juan no procurou especular sobre qualquer aspecto de sua ordem intrnseca.
        O primeiro estado da srie foi vago; terminou rapidamente e seus elementos constituintes no eram precisos. Tinha a aparncia de ser mais um estgio de transio 
do que propriamente um estado de realidade no comum.
        O segundo estado tinha maior profundidade. Percebi o estado de transio para a realidade no comum separadamente pela primeira vez. Durante aquele primeiro 
estado de transio, Dom Juan revelou que o objetivo especfico do regulamento que eu teria de corroborar tratava de outro aspecto do movimento, um aspecto que necessitava 
de sua superviso exaustiva; denominei-o "movimentao adotando-se uma outra forma". Em conseqncia, dois aspectos do nvel extrnseco da realidade no comum tornaram-se 
evidentes pela primeira vez: os estgios de transio e a superviso do mestre.
        Dom Juan usou sua superviso naquele primeiro estgio de transio para focalizar a subseqente direo dos trs aspectos do nvel intrnseco. Seus esforos 
dirigiram-se, primeiro, a provocar um resultado total especfico, guiando-me para experimentar uma sensao precisa de ter adotado a forma de um corvo.
        A possibilidade de adotar uma outra forma a fim de conseguir a movimentao na realidade no comum acarretava por sua vez uma expanso do mbito de apreciao 
dependente, nico setor em que tal movimento podia ter lugar.
        A utilizao pragmtica da realidade no comum era determinada mandando que eu focalizasse minha ateno em certos elementos constituintes do mbito dependente, 
a fim de us-los 'como pontos de referncia para o movimento.
        Durante o perodo preparatrio que se seguiu ao segundo estado dessa srie, Dom Juan recusou-se a especular sobre qualquer parte de minha experincia. Tratou 
o segundo estado como se tivesse sido apenas mais outro estgio de transio prolongado.
        O terceiro estado da srie, porm, foi predominante nos ensinamentos. Foi um estado em que o processo de dirigir o nvel intrnseco culminou nos seguintes 
resultados: a progresso para o especfico criou a percepo fcil de que eu tinha adotado uma outra forma de maneira to completa que at provocava ajustamentos 
precisos na maneira de focalizar meus olhos e minha maneira de ver. Como resultado desses ajustamentos havia a minha percepo de uma nova faceta do mbito de apreciao 
dependente - as mincias que formavam os elementos constituintes - e essa percepo positivamente ampliava o mbito de apreciao. A progresso para uma utilizao 
mais pragmtica da realidade no comum culminou na minha conscincia de que era possvel mover-me no mbito dependente to pragmaticamente como a pessoa anda na 
realidade comum.
       No perodo preparatrio que se seguiu ao ltimo estado de realidade no comum, Dom Juan introduziu um tipo de recapitulao diferente. Escolheu os setores 
para a recapitulao antes de ouvir minha narrativa; isto , pediu para ouvir apenas os relatos que se relacionavam com a utilizao pragmtica da realidade no 
comum e ao movimento.
        Desses relatos, estabeleceu a progresso para o especfico dando nfase positiva  verso de como eu tinha explorado a forma do corvo. No entanto, s deu 
importncia  idia do movimento depois que adotei aquela forma. O movimento foi o setor de minha recapitulao ao qual deu uma interao de nfase positiva e negativa. 
Deu  narrativa nfase positiva quando ela frisava a idia da natureza pragmtica da realidade no comum, ou quando tratava da percepo de elementos constituintes 
que me tinham permitido obter um sentido geral de orientao, enquanto parecia mover-me no mbito de apreciao dependente. Deu nfase negativa  minha incapacidade 
de me lembrar com exatido da natureza ou direo desse movimento.
        Dirigindo a progresso para um mbito de apreciao mais vasto, Dom Juan centralizou suas especulaes sobre meu relato da maneira especial pela qual eu 
percebia os detalhes que tornavam os elementos constituintes que estavam dentro do mbito dependente. Sua especulao me levava a supor que, se fosse possvel ver 
o mundo como um corvo o v, o mbito de apreciao dependente teria de se expandir em profundidade e estender-se para cobrir todo o espectro da realidade comum.
        A fim de dirigir a progresso para uma utilizao mais pragmtica da realidade no comum, Dom Juan explicou meu jeito especial de perceber os elementos constituintes 
como sendo a maneira de o corvo ver o mundo. E, logicamente, essa maneira de ver pressupunha a entrada numa escala de fenmenos alm das possibilidades normais na 
realidade comum.
        A ltima experincia registrada em minhas anotaes de campo foi um estado especial de realidade comum; Dom Juan o provocou isolando elementos constituintes 
da realidade comum pelo processo de sugestes a respeito de seu prprio comportamento.
        Os processos gerais utilizados para dirigir o nvel intrnseco da realidade no comum produziram os seguintes resultados durante o segundo estado especial 
de realidade comum. A progresso para o especfico resultou no fcil isolamento de muitos elementos da realidade comum. No primeiro estado especial de realidade 
comum, os pouqussimos elementos constituintes que foram isolados pelo processo de sugestes a respeito do ambiente tambm foram transformados em formas desconhecidas, 
privadas do consenso comum; contudo, no segundo estado especial de realidade comum, seus elementos constituintes eram muitos e, embora no perdessem suas qualidades 
de serem elementos conhecidos, podem ter perdido sua capacidade de consenso comum. Esses elementos constituintes abrangiam, talvez, o ambiente total que estava dentro 
de minha percepo.
        Dom Juan pode ter produzido esse segundo estado especial a fim de fortalecer o lao entre a realidade comum e a no comum, desenvolvendo a possibilidade 
de que a maioria, se no todos, dos elementos constituintes da realidade comum podia perder sua capacidade de ter consenso comum.
       Do meu prprio ponto de vista, porm, esse ltimo estado especial foi o resumo final de meu aprendizado. O formidvel impacto do terror no nvel da conscincia 
sbria teve a qualidade especial de minar a certeza de que a realidade da vida de todo dia fosse implicitamente real, a certeza de que eu, em matria de realidade 
comum, poderia fornecer-me um consenso indefinidamente. At aquele ponto, o rumo de meu aprendizado parece ter sido um trabalho contnuo para o colapso daquela certeza. 
Dom Juan utilizou todas as facetas de seus esforos dramticos para conseguir o colapso durante aquele ltimo estado especial, fato que me levou a crer que um colapso 
total daquela certeza teria removido a ltima barreira que me impedia de aceitar a existncia de uma realidade separada: a realidade do consenso especial.

Apndice B

ESBOO DE ANALISE ESTRUTURAL

A ORDEM OPERACIONAL

A PRIMEIRA UNIDADE

HOMEM DE CONHECIMENTO

SER UM HOMEM DE CONHECIMENTO  QUESTO DE APRENDER
No havia exigncias declaradas
Havia algumas exigncias disfaradas
Um aprendiz era escolhido por um poder impessoal
Aquele que era escolhido (escogido)
As decises do poder eram indicadas por augrios

UM HOMEM DE CONHECIMENTO TINHA PROPSITO INFLEXVEL

Frugalidade
Solidez de julgamento
Falta de liberdade para inovar

UM HOMEM DE CONHECIMENTO TINHA CLAREZA DE ESPRITO

Liberdade de procurar um caminho
Conhecimento do propsito especfico
Ser fluido

SER UM HOMEM DE CONHECIMENTO ERA QUESTO DE TRABALHO RDUO
Esforos dramticos
Eficincia Desafio

UM HOMEM DE CONHECIMENTO ERA UM GUERREIRO
Tinha de ter respeito
Tinha de ter medo
Tinha de ser alerta
        Conscincia de propsito
        Conscincia do fluxo esperado
Tinha de ter autoconfiana

SER UM HOMEM DE CONHECIMENTO ERA UM PROCESSO INCESSANTE
Ele tinha de renovar a busca de ser um homem de conhecimento        
Era impermanente
Tinha de seguir o caminho com corao

A SEGUNDA UNIDADE
UM HOMEM DE CONHECIMENTO TINHA UM ALIADO
        UM ALIADO NO TINHA FORMA                lnoxia)
        UM ALIADO ERA PERCEBIDO COMO UMA QUALIDADE
O aliado contido na Darura inoxia
       Era feminino
       Era possessivo
       Era violento
       Era imprevisvel
       Tinha efeito nocivo sobre o carter de seus seguidores
       Dava poder superfluido
O aliado contido na Psilocybe mexicana
       Era masculino
       Era desapaixonado
       Era gentil
       Era previsvel
       Tinha efeito benfico sobre o carter de seus seguidores
       Dava xtase
UM ALIADO ERA DOMESTICVEL
        Um aliado era um veculo
                O aliado contido na Datura inoxia era imprevisvel
                O aliado contido na Psilocybe mexicana era previsvel
        Um aliado era um auxiliar

A TERCEIRA UNIDADE
UM ALIADO TINHA UM REGULAMENTO
       O REGULAMENTO ERA        INFLEXVEL
Exceo devida  interveno direta do aliado
       O REGULAMENTO NO ERA CUMULATIVO
       O REGULAMENTO ERA CORROBORADO PELA REALIDADE COMUM
       O REGULAMENTO ERA CORROBORADO PELA REALIDADE NO COMUM
       Os outros estados de realidade no comum
       A realidade no comum era utilizvel
       A realidade no comum tinha elementos constituintes
                Os elementos constituintes tinham estabilidade
                Tinham singularidade
                Faltava-lhes consenso comum
        Os propsitos especficos do regulamento
                Primeiro propsito especfico, prova (Datara inoxia)
                Tcnica de manipulao, ingesto
                Segundo propsito especfico, adivinhao (Datura inoxia)
                        Tcnica de manipulao, ingesto-absoro
                Terceiro propsito especfico, vo corporal (Datura inoxia)
                        Tcnica de manipulao, ingesto-absoro
                Quarto propsito especfico, prova (Psilocybe mexicana)
                        Tcnica de manipulao, ingesto-inspirao
                Quinto propsito especfico, movimento (Psilocybe mexicana)
                        Tcnica de manipulao, ingesto-inspirao
                Sexto propsito especfico, movimento adotando forma diferente (Psilocybe mexicana)
                        Tcnica de manipulao, ingesto-inspirao
                        
A QUARTA UNIDADE
O REGULAMENTO ERA CORROBORADO POR CONSENSO ESPECIAL

O BENFEITOR
        Preparando o consenso especial
                Os outros estados de realidade no comum
                        Eram provocados por Mescalito
                                Era contido
                                O recipiente era o prprio poder
       No tinha regulamento
                                No precisava de aprendizado
       Era um protetor
       Era um mestre
       Tinha forma definida
       A realidade no comum era utilizvel
                        A realidade no comum tinha elementos constituintes
       Os estados especiais de realidade comum
       Eram produzidos pelo mestre
       Sugestes sobre o ambiente
       Sugestes sobre o comportamento
                A recapitulao da experincia
                        Recordao dos fatos
                        Descrio dos elementos constituintes
                        nfase
       nfase positiva
       nfase negativa
Falta de nfase
Dirigindo o consenso especial
       O nvel extrnseco da realidade no comum
                        O perodo preparatrio
       O perodo anterior  realidade no comum
                                O perodo seguinte  realidade no comum
       Os estgios de transio
       A superviso do mestre
       O nvel intrnseco de realidade no comum
                        Progresso para o especfico
                                Formas individuais especficas
Complexidades progressiva dos detalhes percebidos
Progresso do conhecido para formas desconhecidas
                                Resultados totais especficos
                        Progresso para um mbito de apreciao mais extenso
                                mbito dependente
                                mbito independente
Progresso para uma utilizao mais pragmtica da realidade no comum
Progresso para o especfico em estados especiais da realidade comum

A ORDEM CONCEITUAL

O APRENDIZ

       A adoo capciosa da ordem conceitual
       A adoo de boa-f da ordem conceitual
       Realidade do consenso especial
       A realidade do consenso especial tinha valor pragmtico
